James Gunn – “Obstáculos são oportunidades”

Por Felipe Stenner.

Superman, filme dirigido por James Gunn e estrelado por David Corenswet no papel principal, estreou nas telonas brasileiras carregado de altas expectativas e com isso imensas responsabilidades. Isso se dá, principalmente, porque a trama ficcional precisava sustentar o início de todo um novo universo compartilhado da DC – oficialmente aberto com Comando das Criaturas em 2024. O filme foi decisivo para a jornada de Gunn, diretor e atual co-CEO do estúdio, como predecessor de produções como Pacificador, Supergirl, Lanternas e Cara-de-Barro.

Superman é o resultado de uma longa história permeada por decisões do estúdio Warner Bros e de Gunn, o que influenciou diretamente no roteiro do filme e da série Pacificador – as situações de descrédito público e ascensão são um espelho das vividas pelo diretor.

Voltamos a 2013, ano em que é lançado Homem de Aço, filme estrelado por Henry Cavill e dirigido por Zack Snyder com expectativas de arrecadação do tão sonhado 1 bilhão nas bilheterias mundiais. Isso não aconteceu e o personagem foi recebido pelo público de maneira bastante divisiva. Não era uma visão acolhedora, identificável e esperançosa do super-herói que literalmente definiu o conceito de “super-herói” na década de 30. A esperança, aliás, precisou ser verbalizada no filme, pois, de outra maneira, não seria percebida.

Em Homem de Aço há uma percepção exclusivamente digna de panteão divino para Kal-El (o Superman), enquanto Clark Kent, a identidade humana do personagem, é um easter egg do último minuto do filme. O fracasso do filme na visão da Warner, somado ao sucesso da Marvel na época, levaram a uma série de medidas desesperadas por parte do estúdio com o pretexto de “salvar” o universo DC, interferindo criativamente nos projetos dos diretores e apressando uma introdução prematura de toda a Liga da Justiça, com a intenção de fazer frente com os Vingadores.

Nesse sentido, o próximo filme, que deveria ser uma sequência de Homem de Aço, dá lugar à obra cujo roteiro é de Joss Whedon, diretor do primeiro e segundo filmes da franquia Vingadores. Trata-se de uma clara tentativa de “vingadorizar” a Liga para cair no gosto popular. Como era previsto, tudo culminou em mais desastres – apenas poucos projetos DC emplacaram com crítica e público (alguns com um ou outro), caso de Mulher-Maravilha, Aquaman e Coringa, que tiveram sequências bem menos sucedidas. Juntamente com a joint venture da Warner Bros e da Discovery, temos então o combo para o fim do DCEU (DC Extended Universe), como era chamado esse universo compartilhado. Os cortes de gastos e despesas também comeu solto para deixar a casa mais atrativa para a vindoura venda disputada entre Netflix e Paramount.

Em 2018, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, James Gunn, àquela altura prestigiado depois do inesperado fenômeno de Guardiões da Galáxia (2014), foi vítima de um cancelamento promovido por apoiadores do governo Trump, em função de sua postura crítica ao presidente nas redes sociais. Um exposed de vários antigos tweets de Gunn com piadas controversas sobre pedofilia e estupro foram resgatados, causando sua demissão imediata da Marvel Studios. Entretanto, desesperada para corrigir os rumos ainda do DCEU e enxergando uma baita oportunidade, a Warner contratou James Gunn para dirigir qualquer projeto de sua escolha. Porém, seguindo a tendência preferencial que o diretor apresenta em trabalhar com personagens mais desconhecidos e habilmente ascendê-los a queridinhos do público, ele assumiu Esquadrão Suicida, franquia vinda de um fracasso crítico em razão do filme de 2016. Pela quarentena exigida na época da pandemia de Covid-19 que ocorreu durante a filmagem e montagem de O Esquadrão Suicida, Gunn, enclausurado em seu quarto de hotel, também escreveu o roteiro da primeira temporada de uma série spin-off do filme, Pacificador, e vendeu para a Warner para que fosse produzida como conteúdo para o streaming HBO Max. Tanto o filme quanto a série foram sucesso, e isso resultou no convite a Gunn para ser nada menos que co-CEO da DC juntamente com Peter Safran pela Warner Bros Discovery em 2022.

2022 foi o mesmo ano de estreia de Adão Negro, longa protagonizado por Dwayne Johnson (The Rock), quem já havia colaborado com o estúdio na produção da animação DC Liga dos Superpets e declarado, durante a promoção de Adão Negro, que mudaria a hierarquia de poder da DC. Embora pensássemos que The Rock se referia ao nível de poder do personagem diante dos demais, ele na verdade tomo atitudes que contornaram decisões administrativas da diretoria do estúdio, inclusive confrontando a contratação de Gunn e Safran como sucessores para o cargo, – como trazer de volta o Superman de Henry Cavill em participação especial no seu filme e ainda fazer o ator, nas redes, prometer mais retornos futuros mesmo com uma nova versão do herói para os cinemas já em desenvolvimento. As ambições por parte do ex-lutador de wrestling poderiam simplesmente puxar o tapete de James Gunn.

Como contramedida, a única opção de Gunn seria tornar público um posicionamento planejado, forte e seguro como chefe criativo da DC, para minar de vez as chances de Dwayne Johnson “fazer o que quiser” usando o vácuo de liderança como desculpa. Além de uma sincera conversa de pedido de desculpas com Cavill, foi o que ele fez. Logo no início de 2023, James Gunn gravou um vídeo oficial divulgando vários projetos que comporiam o capítulo um –  nomeado de Deuses e Monstros – da sua gestão. A decisão hoje é questionada e pode ser vista como precipitada por alguns, dada a atual incerteza que se encontram várias das produções divulgadas, tais como Waller, Monstro do Pântano e The Authority. Mas dificilmente saberemos o quanto Gunn estava pressionado pelos movimentos de The Rock.

Apesar disso, foi a partir daí que Superman Legacy (nome anterior de Superman de 2025) foi anunciado como o projeto de filme que dará o pontapé inicial no novo e, assim prometido, bem-sucedido universo DC nos cinemas, o DCU (DC Cinematic Universe). Embora técnica e cronologicamente, o primeiro projeto totalmente dentro do DCU foi a animação original da HBO Max, Comando das Criaturas.

Dado todo o contexto, definitivamente, Superman não foi um Homem de Aço, tampouco o DCU é um DCEU. Todo o imaginário para o público de que, diferentemente da Marvel, a DC é completamente mais adulta e sombria, nunca se aplicou de fato aos quadrinhos. Portanto, o universo gerido por Gunn construído e previsto até aqui resgata toda a atmosfera lúdica e colorida vista na maioria das HQs assim como nas séries animadas clássicas ao mesmo tempo que abraça uma pluralidade de tons em produções distintas, mas interconectadas.

Tratando um pouco mais da vida pessoal do diretor e seu reflexo sobre as suas obras, vale a citação do mau menino Krypto, O Supercão, presença poderosa (e fofa) tanto no marketing do longa de Kal-El quanto no de sua prima, Kara Zor-El, Supergirl. O mascote representa uma característica carimbada de James Gunn, já constantemente presente em seus filmes anteriores – ele é um admirador dos animais. Mas, apesar de ser feito em CGI e ter poderes, Krypto é diretamente inspirado em Ozu, cachorro resgatado junto com outros 60 cães e que foi adotado por Gunn.

Toda essa tumultuada história de obstáculos e voltas por cima de um homem, muito própria para uma adaptação cinematográfica em si, poderia perfeitamente caminhar para um daqueles lendários finais felizes. Muitos julgam até ser merecido. Todavia, outro evento com igual potencial para virar filme, o acirrado processo de venda empresarial dos estúdios Warner, disputado até as últimas instâncias entre a Netflix e  Paramount Skydance (conglomerado de mídia de David Ellison), torna difícil prever o destino de James Gunn e seu parceiro, Peter Safran, quanto à permanência ou não na diretoria da DC. Uma vez que a trajetória de Gunn foi fatídica por apoiadores de Donald Trump no passado, ainda é incerto se o espectro político do novo patrão, provavelmente David Ellison – devido à maior proposta de compra pela Skydance, prejudicará o co-CEO de alguma forma. Cenas do próximo capítulo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *