A “sororidade pop” e o novo sonho americano

Por Ketrey Aquino

Depois da febre oitentista que marcou o pré, o durante e a “ressaca” da pandemia de Covid-19, a estética que tem marcado a moda, o comportamento e, principalmente, o que chamamos de cultura pop é o retorno dos anos 2000. Para muitos aficionados pela música pop esse foi o momento apogeu do gênero. A produção insaciável e, por vezes, imoral do tabloides, o estabelecimento da cultura cibernética e de um mundo visivelmente tecnológico, junto com uma estética hiperestimulante, ajudaram a alavancar uma produção industrial de hits, artistas e celebridades tão desejáveis e palatáveis quanto um fast-food.

Britney Spears era a princesa do pop com um namorado (Justin Timberlake) que todas queriam. Beyoncé já era uma diva de destaque se dividindo entre a carreira solo e a girlband Destiny’s Child, com looks deslumbrantes enquanto já falava sobre independência feminina financeira (vide Independent Woman e Bills, Bills, Bills). Paris Hilton era a patricinha party girl e as angels da Victoria’s Secrets eram o ideal de corpo que todas queriam – e deveriam – ser. Os Estados Unidos pré e pós 11 de setembro parecia o sonho jovem perfeito.

Com a reapropriação nostálgica deste momento, há quem diga que essa foi a melhor época para ser uma menina. Cores chamativas e o apelo para os mil tons de rosa, texturas sobrepostas, pingentes mil, maquiagem bem marcada, tamancos, microtops, minissaias e um design que valorizava a hiperfeminilidade. Esses elementos e as batidas características do Eurodance e Bubblegum Pop estão todos na música e no clipe de Stateside, um featuring lançado em 2025 pelas artistas europeias Pinkpantheress (Reino Unido) e Zara Larsson (Suécia).

A música fala sobre as dificuldades de estar nos Estados Unidos longe de um amor. No verso de Zara em específico, ela reflete sobre a saudade do namorado, impedido de entrar nos Estados Unidos em função de uma passagem policial por porte de maconha. Tanto o clipe quanto a divulgação ficaram marcados pela união das artistas, uma confluência que foi além das vozes: uniu a identidade urbana-britânica de Pink, marcada pelo vermelho e xadrez (do álbum Fancy Some More?) e a efervescência praiana Y2K de Zara (do disco Midnight Sun).

Essa confluência representa também o contexto de suas carreiras. O sucesso primoroso de Stateside marcou um momento em que as duas artistas estavam em uma curva ascendente, mas ainda nichadas em seu próprio público e distanciadas do mercado mais importante da indústria, o dos Estados Unidos. O movimento de Zara e Pink, de unir suas narrativas e divulgações para criar um hit, foi além da música em si e abriu portas para alavancar suas respectivas carreiras e personas artísticas, resvalando nas dinâmicas da indústria e da geopolítica. Stateside, pode-se dizer, é uma sequência desse fenômeno de “sororidade pop”.

Outra música que despertou esse tipo de dinâmica de divulgação e apelo cultural foi o muito bem-sucedido featuring entre as artistas Charli XCX (Reino Unido) e Lorde (Nova Zelândia) na música Girl, so Confusing, lançada em 2024. Na obra, que faz parte do celebrado álbum Brat, de Charli, e que também está fortemente ligado à sonoridade e estética clubber dos anos 2000, as artistas são profundamente honestas sobre como a relação entre elas foi afetada pelas dinâmicas de competição da indústria musical e as clássicas imposições de padrões da sociedade patriarcal, que faz com que mulheres se sintam extremamente inseguras e invistam num ambiente de inveja e competição feminina.

No caminho em busca de atingir o auge das paradas (leia-se: o mercado americano), uma geração de jovens mulheres que cresceu sob os valores e estéticas dos anos 2000 tem ressignificado um dos principais valores da época: a exacerbada competição feminina, que determinava quem seria a melhor, a rainha, a diva, a musa e, de preferência, a “namoradinha da América”. Ao longo da elucidação sobre o termo sororidade no Diccionario de Estudios de Género y Feminismos (Gamba, 2009), a antropóloga mexicana Marcela Lagarde faz uma contextualização que explana as dinâmicas sociais que eram vulgarmente celebradas no início do milênio e que, resistem hoje, ainda que num contexto mais problematizado: “Os mecanismos patriarcais fazem com que essas mulheres tenham a esperança de serem eleitas e assim conquistarem poder. Elas competem entre si com a falsa esperança de serem eleitas entre ’as outras’[…]”.

Movimentos de “sororidade pop”, como os realizados por artistas da nova geração, acontecem em um cenário de crise da indústria musical, no qual a alta velocidade de produção e consumo e a pulverização de público, dificultam a chegada ao topo para se consolidar como um ícone pop inquestionável. O que ocorre é o alcance da chamada “classe média do pop”, termo que se refere a artistas que possuem uma base de fãs e números consideráveis de seguidores nas redes sociais, mas que não alcançam um sucesso massivo ou a permanência no topo das paradas.

Ressignificando um período que as formou e “hackeando” (entre muitas aspas) a lógica de competição da indústria, jovens como Zara Larsson, PinkPantheress, Charli XCX e Lorde têm se ancorado na união de suas diferenças para, juntas, conseguirem seus lugares na “terra do Tio Sam”. Essa união dialoga com as colocações de Lagarde, que se opõe à ideia de uma sororidade genérica e vazia: “Ao não tratar as diferenças de forma preconceituosa, convertendo-as em rejeição e obstáculo, é possível que surja semelhanças identitárias e empatia entre as mulheres. Reconhecendo sempre que as mulheres semelhantes também são diferentes e que a diferença é um capital e um poder, é preciso superar a exigência de sermos idênticas” (Gamba, 2009).

O sonho americano concretizado, mas desmistificado

Stateside alcançou o 1º lugar no Spotify Global em março de 2026, após se tornar o hino da vitória da patinadora estadunidense Alysa Liu nos Jogos de Inverno de Milano-Cortina. A imagem de Liu, uma atleta de ascendência chinesa e estética “alternativa” que remete ao grunge dos anos 2000, consolidou a música como uma celebração das garotas (e gays). Contudo, tanto a trajetória de Alysa quanto a de Zara nesse meio tempo demonstram que o sonho americano não é mais um produto límpido.

Com o crescimento da popularidade a cada etapa bem-sucedida na Olimpíada, a figura de Alysa, se dividiu entre um novo ícone fashion da geração Z e um da extrema-direita, também jovem, presente nas redes sociais. A dubiedade se deu primeiro pelas origens de Alysa, filha de um chinês refugiado político da repressão do Partido Comunista da China a partir dos protestos e massacre ocorridos em 4 de junho de 1989, na Praça Tiananmen (Paz Celestial), em Pequim.

Outro fato que fez coro a narrativa dos radicais (que compartilhavam edits de apresentações de Alysa com símbolos do regime nazista) partiu do fato de que ela havia retirado anteriormente o pronome neutro “they” (eles/elas) de suas redes sociais, assim como posts de apoio à comunidade LGBT+. Outra narrativa sugeria ainda, sem comprovação, que a esportista teria dito em entrevista se arrepender dos antigos posicionamentos.

Posteriormente a vitória olímpica, a atleta desfez a narrativa ultradireitista e foi categórica ao afirmar em entrevista à revista Rolling Stone que fazia parte de uma família liberal (viés ligado ao Partido Democrata) e falou sobre como era representar os Estados Unidos num contexto onde ela se colocava abertamente contra o ICE e a favor dos direitos da comunidade LGBT.

Já Zara Larsson, enquanto busca garantir seu lugar cativo na indústria norte-americana, tem sido ainda mais vocal politicamente e sofrido as consequências por isso. A artista se posicionou publicamente contra o genocídio palestino, as deportações em massa feitas pelo governo Trump por meio do ICE, declarou amar o socialismo e ser a favor do aborto em uma piada, que segundo ela mesma, custou a perda de publicidades e milhões de dólares, além de uma resposta contrária via Tiktok, no perfil oficial da Casa Branca.

Essa postura de “estar nos Estados Unidos” (ou “estar stateside”), mas recusar-se a ser assimilada pelo seu sistema de silenciamento político, marca o crepúsculo da hegemonia cultural norte-americana como a conhecemos. Se nos anos 2000 o sucesso dependia de se tornar a “namoradinha da América”, hoje o topo é alcançado por meio de alianças transversais que ignoram as fronteiras do império moderno.

Ainda que venham de um polo historicamente colonizador como a Europa, o sucesso de Stateside e o fenômeno Brat operam como blocos de resistência cultural. É impossível não traçar um paralelo com movimentos geopolíticos recentes, como o fortalecimento do acordo UE-Mercosul, que busca criar um eixo de influência capaz de equilibrar o jogo contra o domínio unilateral de Washington. No território da música, essa descentralização tem sido cada vez mais uma realidade: se antes o mundo olhava apenas para o norte, hoje o norte é obrigado a ouvir o que vem de fora. É o que vimos com a ascensão global de Bad Bunny, que levou o espanhol ao palco do SuperBowl e ao topo do Grammy sem abrir mão de suas raízes porto-riquenhas. Embora o fenômeno de Bunny seja masculino, ele serve de sintoma para a mesma febre: a de que o “Império” agora tem se tornado o palco, e não mais o diretor exclusivo do espetáculo.

Ao final, o que Zara Larsson, PinkPantheress, Charli e Lorde constroem não é apenas um hit de verão com estética nostálgica. É um manifesto geracional de sobrevivência. Elas utilizam os escombros visuais de uma era que destruiu mulheres – e até mesmo as engenharias da indústria – para promover uma rede de proteção que o sonho americano e seu viés de competição neoliberal nunca ofereceu. Ao menos, nestas novas narrativas apresentadas, o pop atual tem demonstrado que não é mais sobre ser a “eleita” entre as outras; é sobre entender que, em um império em chamas, a única estrutura sólida que resta é vencer ao lado de outra mulher.

Ketrey Aquino é aluna do Programa de Pós-graduação da PUC Minas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *