Tem compaixão de mim, Laura Cánepa. Sejas sombra ou mulher certa.

Por Carolina Gouvêa.

O horror é tinta; se alonga e se encontra. O horror é volume sensível. O horror é plástico, assim como é carne. É o familiar inatural. O horror penetra os limites, polui o sentido, perturba o sinistro. O ser é sinistro – o ser é familiar inatural. O ser desconhecido, o sentir ser, o existir ser, é contaminado pelo horror, físico e gutural. Tudo aquilo que é corpo é sublime, violento e vil – é plástico, é carne, é familiar inatural. O horror contamina o ser pela fisicalidade, até que o ser, enfim, emerge, infiltrado, convertido em matéria sagrada do horror.

Na terça-feira, dia 11 de maio, o Mídia e Narrativa e o Centro da Crítica da Mídia receberam a pesquisadora Laura Cánepa, especialista em cinema de horror. Laura é graduada em Jornalismo pela UFRGS, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e doutora em Multimeios pelo IAR-Unicamp. Passou pelo radiojornalismo e pelo jornalismo em portal, mas desperta sobretudo na pesquisa do terror no cinema.

Em uma palestra aos estudantes de cinema e pesquisadores do PPGCOM, Laura debateu as tendências do horror contemporâneo no cinema. O bate-papo foi precedido pela exibição do longa-metragem norueguês Mortos entre Vivos (2024), filme de zumbi que segue as tormentas de três famílias cujos entes queridos ressurgem da morte. No longa, o moroso caminhar do luto-vivo atravessa o agarrar-se à vida alheia, estranha e enferma que seja.

Mortos entre Vivos aborda uma questão peculiar: o labor da enfermidade em sensível solidão de um mundo que é insensível e inóspito. Nele, o desconhecido reside no entre-morte; os melancólicos processos do existir e preservar o morto-vivo antecedem o pesar do morto-monstro. Em seu clímax, os protagonistas abdicam do outro e condenam-se enfim a infartar na própria interioridade.

Laura, Virgílio, conduziu o público das primeiras inclinações do horror à contemporaneidade. O horror irrompe do desconhecido em um caminhar deliberado, desde o gótico literário até o cinema de jumpscares. No ápice do desespero, o homem se ancora ao inexplicável, mas o monumento do obscuro diverge: o selvagem, quando é desconhecido, é horror; compreendido o selvagem, o horror é o outro; compreendido o outro, o horror é o cósmico; compreendido o cósmico, o horror é o ser. O sujeito primordial do medo é, perpétuo, a sombra.

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