
Foto: AP Photo/Themba Hadebe
Por Ricardo Fonseca.
A África do Sul, que já foi celebrada mundialmente como símbolo de superação do apartheid, enfrenta hoje uma persistente crise de xenofobia. Imigrantes de países como Nigéria, Gana, Zimbábue e outros da África Subsaariana são os principais alvos de ataques, protestos e intimidações.
A raiz do problema é econômica: o desemprego oficial gira em torno de 32% da população ativa, chegando a quase 60% entre os jovens. Conforme analisa a agência Reuters, é nesse contexto de escassez e profunda frustração social que grupos como a Operation Dudula — que surgiu como movimento vigilante em 2021 e depois se transformou em partido político — ganharam força. Eles organizam protestos e ações violentas contra imigrantes, especialmente nas periferias de Joanesburgo e Pretória, usando-os como bodes expiatórios para o desemprego, o crime e a sobrecarga nos serviços públicos.
Reportagens do The New York Times e do El País sublinham que a crise carrega uma dolorosa ironia histórica: durante a luta contra o apartheid, países como Nigéria, Gana e Tanzânia foram fundamentais para a libertação sul-africana. Além de apoiarem financeiramente, essas nações abrigaram exilados do CNA (Congresso Nacional Africano) e atuaram ativamente como “Estados da Linha de Frente”. Hoje, tragicamente, os cidadãos desses mesmos países se veem ameaçados e caçados nas ruas que seus pais ajudaram a libertar.
Com o agravamento da situação e a circulação viral de vídeos de violência nas redes sociais, o governo de Gana foi forçado a organizar uma ponte aérea de repatriação voluntária de emergência.O governo sul-africano condena publicamente a violência, mas, conforme aponta o correspondente do Le Monde, insiste em uma postura defensiva, alegando que muitos dos casos são de “criminalidade comum” ou ações legítimas de fiscalização contra a imigração irregular. Críticos e defensores dos direitos humanos contestam essa narrativa, apontando a lentidão deliberada da polícia e uma complacência perigosa do Estado com o discurso anti-imigrante.
Por outro lado, análises do jornal francês Libération lembram que os países de origem também enfrentam duras críticas: suas próprias economias fragilizadas pela corrupção e falta de horizontes continuam empurrando jovens para o exterior em busca de oportunidades. O que era para ser o projeto de uma “nação arco-íris” e de integração pan-africana esbarra, mais uma vez, nos muros da desigualdade, do desemprego crônico e do ressentimento.


