O Céu Da Língua: uma ode à memória brasileira

Por Pedro Afonso Braga

Falar sobre memória ao assistir a um monólogo é quase um ato de autorreflexão e, como não sou dos melhores no ato de lembrar, ou de guardar as experiências nesse lugar espaçoso da mente, aprecio o tema e faço questão de reafirmar essa ideia sempre que posso.

Se você veio até aqui esperando um elogio à língua portuguesa, poupe-se da decepção, pois não pretendo conceder o prazer das reverências nem os tapinhas nas costas que a gramática adoraria receber após a peça de Gregório Duvivier. Já existem elogios suficientes em cada crítica que se propõe a dissecar a obra pela internet, e o que enxerguei em O Céu da Língua não foi uma ode ao idioma, mas uma espécie de espelho embaçado onde a memória respirava devagar em frente ao vidro, tentando não desaparecer por completo no calor que saía de sua própria boca.

Não é que Gregório deixe de celebrar a língua, porque ele o faz, mas me interessou o modo como ele desenterra o tempo ali escondido ao brincar com as palavras. Um simples texto sobre a importância do idioma não me seria suficiente e, enquanto alguns críticos preferem o elogio fácil da exaltação, percebo o contrário: a peça revela o quanto a língua é frágil e o quanto ela depende da nossa memória para não morrer, uma consciência que se torna doída nestes tempos de liquidez.

Duvivier, sozinho em cena mas não em discurso, interage com o público em um monólogo que chama atenção pela complexidade da memorização, nos fazendo crer que a língua é uma senhora de muitos rostos que vive tropeçando nas próprias regras para se refazer a cada erro, tal como descrito por Caetano Veloso em “Livros” e referenciado na obra.

Há um momento em que Gregório comenta expressões cotidianas como “batata da perna” ou “fetiche”, e o público gargalha. Mas, enquanto eu ria sem me eximir das fisgadas, percebi que cada risada era também um lamento pelo fato de rirmos do ridículo das palavras sem notar que elas são resquícios de quem as inventou. Ríamos porque não sabíamos mais seus significados originais; ríamos porque esquecemos, e rir, talvez, seja o modo mais educado de admitir esse esquecimento. A cada fala, o personagem parece conversar com fantasmas, sejam eles gramáticos, poetas ou colonizadores, fazendo com que o verdadeiro espetáculo aconteça dentro da cabeça de cada um de nós enquanto relembramos, inconscientemente, o momento em que ouvimos certas expressões pela primeira vez.

A língua portuguesa, no fundo, é um arquivo imperfeito de muitas memórias onde tudo o que somos está guardado, desde a herança colonial e os sincretismos até as idas e voltas de termos que realfabetizaram o povo. Mas o palco de O Céu da Língua desmonta essa pretensão quando Gregório deixa de ensinar para simplesmente lembrar. E lembrar, sabemos, é um verbo que dói. Há uma beleza triste no reconhecimento de que o idioma que nos constitui é o mesmo que nos limita, e que as palavras usadas para nos libertar são as mesmas que nos aprisionam, expressando o ponto mais íntimo da peça ao reconhecer que lembrar é também perder. A língua só sobrevive porque esquece, e nós também, pois cada vez que uma palavra cai em desuso, enterramos com ela um pedaço da história.

Ao mesmo tempo, esse esquecimento abre espaço para o novo que ainda não tem nome, criando o equilíbrio entre o riso e o luto que faz da obra um retrato fiel da memória humana, essa estrutura incompleta, falha, teimosa e, por isso mesmo, bela. Pensei logo em Guimarães Rosa, que também escrevia como quem lembrava e, lembrando, inventava o idioma de novo. Duvivier faz o mesmo com a voz e com o corpo, ciente de que lembrar é recriar o tempo e que, toda vez que dizemos uma palavra antiga, reencenamos a história dos que se foram.

No fim, senti que Gregório não nos entregava uma confissão coletiva, nos convidando a rir do esquecimento para nos lembrar do que ainda somos. No seu milésimo retorno ao palco, percebi que a obra continuava dentro de mim como o calor que embaça o vidro do espelho, vidro este que viria a ser este texto.

Talvez seja isso o que a memória faz ao manter o barulho depois do silêncio. E, se você chegou até aqui, permita-me confessar que este texto não é apenas sobre a peça, mas sobre o idioma que falo e, por consequência, sobre mim, porque ao escrever sobre a língua, não falo dela, mas com ela. Desavisado leitor, se ainda acredita que a língua é uma ferramenta dócil, olhe com atenção para as palavras que acabou de ler. Elas também te olham e, no breve instante em que se reconhecem, você e elas se lembram não de uma regra, mas do simples e melancólico fato de que, enquanto falamos, estamos vivos.

Pedro Afonso Braga é jornalista, pós-graduado em mídias digitais e mestrando em comunicação pela PUC-Minas

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