
Por Felipe Stenner.
A estreia de Star Wars: O Mandaloriano e Grogu, dirigido por Jon Favreau e estrelado por Pedro Pascal, nos cinemas do Brasil dia 21 de maio, foi cercada por uma estratégia de divulgação no mínimo controversa por parte da Disney. O inevitável filme derivado da série Star Wars de muito sucesso e repercussão do “Baby Yoda” (inclusive fora da bolha dos fãs) na Disney+, The Mandalorian, estranhamente já chegou nos cinemas, lar original de Star Wars – franquia mãe dos blockbusters – quase pedindo “licença” e “desculpa” para os outros por estar ali, sem muito alarde.
Sua divulgação foi marcada por descasos evidentes e relatados na organização das cabines de imprensa (exibição do filme para jornalistas críticos e demais divulgadores) para donos de grandes canais especializados brasileiros do YouTube e por esquisitas promessas vazias no marketing. A exemplo dos enigmáticos tauntauns do “teaser”, ou melhor, da paródia de propaganda de cerveja que ninguém entendeu, no Super Bowl e que simplesmente desapareceram do corte final.
Ainda assim, por mais que essas táticas promocionais causem estranheza nos fãs mais atentos, há uma eficiência mercadológica inegável a longo prazo nessa abordagem que muitos estão se recusando a enxergar. O filme se assume sem rodeios como aquilo que realmente se propôs originalmente a ser: um episódio estendido e luxuoso da série de televisão, abdicando da pressão de representar o auge bombástico da franquia para entregar uma aventura incrivelmente acessível e autocontida. O único problema é quando o marketing passa a anunciar o longa como “o grande retorno de Star Wars às telonas” depois de sete anos desde Star Wars: Episódio IX – A Ascensão Skywalker (2019). É muito perceptível, pelas campanhas que o filme do ano que vem dirigido por Shawn Levy, Star Wars: Starfighter, veio recebendo do próprio estúdio (Lucasfilm) e da mídia até o momento, que a ambição de tamanho título não é de O Mandaloriano e Grogu, mas sim do filme de Levy, diretor de Deadpool & Wolverine (2024).
A simplicidade estrutural da aventura do Mando Din Djarin (Pedro Pascal) e seu filhinho adotivo verde, Din Grogu (ele mesmo), aproximadamente cinco anos depois da queda do Império Galáctico, acaba funcionando como um curioso experimento social dentro das salas de cinema. Ao tentar equilibrar as demandas de um universo expandido complexo com a linearidade de uma jornada descompromissada para o grande público, a obra de Jon Favreau e do roteirista coautor Dave Filoni consegue dialogar simultaneamente com extremos opostos. De um lado, espectadores casuais e gerações mais velhas – que guardam na memória apenas o impacto dos filmes clássicos – conseguem acompanhar a trama sem qualquer barreira de contexto. De outro, crianças pequenas são capturadas pelo carisma visual imediato da produção, da ação e, óbvio, dos bonequinhos fofos e engraçadinhos como os Anzellanos e o próprio Grogu. Esse amplo alcance geracional faz com que a diversão pura e o riso coletivo em família superem os rigores dos críticos, que frequentemente se perdem em polarizações extremas na internet.
Contudo, esse mesmo clima descontraído e tom family friendly cobram o seu preço em determinados momentos da projeção, quando erra na dosagem. Em certas passagens, o foco excessivo nas peripécias de Grogu ao lado dos Anzellanos empurra a produção de forma demasiadamente abrupta para o território do entretenimento puramente infantil, gerando no espectador adulto uma incômoda sensação de ter pago por um conteúdo com o apelo de um The Muppet Show pré-escolar.
A oscilação de ritmo se agrava consideravelmente durante uma clara barrigada narrativa em Nal Hutta, planeta natal dos Hutts (espécie do criminoso Jabba, o Hutt, dos filmes clássicos) onde a trama desacelera além do recomendável. Diante desse esvaziamento de energia antes do clímax, resta a nítida impressão de que a Lucasfilm poderia ter sido mais ousada, honrando a ousadia das reedições históricas (e polêmicas) que George Lucas, criador e primeiro diretor de Star Wars, promoveu nas décadas de 1990 e 2000 na saga principal. Uma intervenção editorial assertiva no terceiro ato, convocando uma cavalaria verdadeiramente empolgante, com Boba Fett – já que os vilões da série dele é que são utilizados aqui –, as forças mandalorianas, unidas no planeta Mandalore na temporada três de The Mandalorian, e a presença de figuras consagradas como o piloto rebelde Wedge Antilles, teria sido a chave para transformar um encerramento seguro e “ok” em uma apoteose vibrante.
Apesar dos deslizes de ritmo e da ausência de um esperado flashback envolvendo o resgate do filho de Jabba, Rotta, o Hutt, (Fedorentinho para os íntimos) por Anakin Skywalker e Ahsoka Tano que aconteceu no filme-piloto da série animada de 2008, Star Wars: The Clone Wars, baú do qual Favreau e Filoni recuperaram Rotta, a condução de O Mandaloriano e Grogu acerta em cheio ao tratar a mitologia de Star Wars com uma sutileza louvável, fugindo do puro fan-service. O roteiro tece conexões orgânicas e reverentes com produções como The Clone Wars (Rotta e o caçador de recompensas Embo), Star Wars Rebels (Zeb Orrelios), O Livro de Boba Fett (os vilanescos Gêmeos Hutt) e Skeleton Crew (menções a piratas), estendendo referências divertidas até mesmo para a controversa The Acolyte através de diálogos perspicazes, quando Zeb ironiza que não é um “meknek” ao ser solicitado por Mando para dar um tranco na combalida nave Razor Crest II.
Ainda no campo das aparições especiais, embora as breves participações de Carson Teva (arroz de festa nos seriados do Mandaloriano e seus amigos) e do próprio Filoni como piloto divirtam, o longa deixa apenas o desejo por uma merecida presença maior da Coronel Ward, interpretada pela icônica Sigourney Weaver, a Ripley de Alien – O 8º Passageiro (1979). Porém, o verdadeiro triunfo da obra reside na surpreendente bem-quista reaparição de Rotta. O ex-pequeno Hutt não apenas rouba todas as cenas em que aparece, mas realiza uma subversão canônica fascinante. Historicamente, as raças alienígenas da franquia carregaram analogias culturais muito marcantes, como os Tuskens (Povo da Areia do Star Wars original) associados aos nativos americanos ou os próprios Hutts podendo ser interpretados como uma representação da máfia italiana. Ao se consolidar como uma figura carismática e heroica, Rotta quebra totalmente esse antigo estigma étnico e cinematográfico, provando de forma inédita para o cânone que a existência de Hutts genuinamente bondosos e leais é finalmente possível.
Ah, alguém aí notou a participação de Martin Scorsese no filme?


