
Por Alice Giovana.
Da guerra e suas tragédias até críticas que misturam o novo e o antigo e até mesmo a tradicional cultura do xamanismo, A Guerra da Papoula é um livro de fantasia que vai narrar as consequências dos conflitos iniciados pelo homem e da sede de vingança das crianças que nascem e crescem em meio a esses conflitos, inspirada na história militar e política da China durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Ópio.
Fang Runin é a protagonista, uma órfã de guerra que cresce sob a tutela de uma traficante de ópio, trabalhando na entrega e na administração do comércio ilícito desde a infância até descobrir, inesperadamente, que será vendida a um homem rico e decide mudar o seu destino fazendo o Keju, uma prova rigorosa e elitista que permite o ingresso em Sinegard, uma prestigiada academia militar sediada na capital do Império Nikan, a nação onde se passa essa história.
“O Keju não significa nada. O Keju é um ardil para manter os camponeses analfabetos exatamente onde sempre estiveram. […] O Keju mantém as classes mais baixas sedadas. Mantém-nos sonhando. Não é uma escada para a mobilidade social; é uma forma de manter as pessoas como eu exatamente onde nasceram. O Keju é uma droga.”
A protagonista, Rin, com o auxílio de seu mentor, Mestre Feyrik, e dominada por sua obsessão pelo teste que a livraria do casamento forçado, conseguiu ingressar na Academia. Entretanto, a obra deixa claro que o Keju é um teste injusto, feito para simular uma meritocracia, visto que grande parte da elite estuda para os testes desde crianças, tornando a chance de pessoas de baixa classe social, que não possuem condição de se dedicarem tanto a preparação do teste, quase nula. A crítica do livro acompanha a realidade de muitas das instituições de ensino de vários países, ainda na realidade, mas os desafios de Rin não terminam ao ser aceita em Sinegard, pelo contrário, lá a protagonista enfrenta uma realidade ainda pior.
Desde as primeiras páginas, o livro deixa claro que Sinegard não é uma instituição de ensino qualquer, mas sim um lugar onde se criam soldados e generais para a guerra. Com um ambiente hostil e altamente competitivo, causado pelo próprio método de ensino da academia, que expulsa qualquer aluno que não seja acolhido por um dos professores sem mais nem menos após um ano.
Rin tem que lidar com desafios ainda maiores devido ao ambiente elitista de Sinegard, sendo perseguida por outros alunos e ainda sendo excluída por professores, logo cedo o livro mostrará que, para a protagonista que não possui bens materiais, apoio familiar ou qualquer privilégio em um ambiente hostil, sua raiva será seu maior combustível.
“As crianças deixam de ser crianças quando se coloca uma espada em suas mãos. Quando você as ensina a lutar em uma guerra, depois as arma e as coloca na linha de frente, elas não são mais crianças. Elas são soldados.”
Mesmo diante de todas as adversidades, Runin consegue permanecer em Sinegard, com o apoio de Jiang, o excêntrico professor de folclore que decide instruir Rin e se tornar seu mentor na academia. É sob a tutela de Jiang que a protagonista começa a se interessar pelo xamanismo, o que adiciona o toque místico e fantasioso à obra.
Logo no início desse arco, o forte laço entre a protagonista e a Fênix, deusa do fogo no xamanismo, será deixada em evidência, uma relação perigosa que a deixará mais forte, mas que também tem grande potencial destrutivo quando somada à sede de vingança que Rin alimenta pelas injustiças que sofre desde nova.
O livro mostra isso durante o Torneio de Combate de Sinegard, em que alunos calouros da academia lutam uns contra os outros, tendo veteranos e até professores como plateia. Nessa parte do livro, a protagonista se vê controlada entre o ódio que sente por Nezha, seu antagonista e principal agressor dentro da academia, e o desejo incontrolável de ter a aprovação de seus mentores.
Em um ato imprudente, Rin invoca a Fênix e quase causa a morte de Nezha durante o combate, e é ali que tanto seu mentor Jiang quanto os próprios leitores passam a perceber o domínio destrutivo da deusa do fogo em relação à protagonista.
“Não quer conhecer o rosto do inimigo?”
“Não, eu não quero. Porque então eu talvez pense que são humanos. E eles não são.”
O ponto alto da tragédia no livro começa a partir da metade da primeira obra da trilogia, quando o território de Nikan, onde está localizado Sinegard é repentinamente invadido pela Federação de Mugen, uma nação insular militarizada e o principal império antagonista.
Mugen e Nikan já estiveram em guerra antes, mas só é apresentada a perspectiva histórica do acontecimento, já que Rin sequer era nascida na época. Na nova invasão, no entanto, a guerra é apresentada sob um olhar menos nostálgico e mais urgente.
A Federação de Mugen avança contra Sinegard e a urgência cresce a cada página, enquanto Rin e outras crianças precisam escolher se ficam para proteger a academia, correndo altos riscos de morte, ou se abandonam o local em um ato de autopreservação, mas desonra. A protagonista ainda se vê confusa quanto à sua própria força, potencial e poder, pelo qual a deusa da Fênix clama de maneira perigosa.
Ainda no segundo ato, um banho de sangue ocorre em Sinegard, porém, com o auxílio do professor de folclore e mentor de Rin, Jiang, os danos são contidos e um massacre total é evitado. Rin também usa sua conexão xamânica durante o combate, salvando a vida de Nezha, seu rival na academia até então.
Após esse embate, Sinegard deixa de existir, e todos os alunos sobreviventes são enviados para diferentes tropas militares em preparação para uma guerra ainda maior. Mugen se prepara agora para invadir Golyn Niis, a capital do Império Nikara.
A protagonista, no entanto, não integra uma tropa comum, Rin é enviada ao Cike, uma divisão militar de elite e um grupo de xamãs mercenários que lutam junto aos deuses e atuam como espiões e assassinos sob o comando de Altan Trengsin, antigo veterano de Rin na academia, admirado por suas habilidades de combate, sua forte ligação com a Fênix e também por ser o único sobrevivente do Massacre de Speely, o genocídio brutal que ocorreu na ilha de Speer, também cometido pela Federação de Mugen enquanto os speerlieses lutavam ao lado dos nikaras na primeira guerra entre Mugen e Nikan.
“A guerra não determina quem está certo. A guerra determina quem permanece.”
Altan e Rin vivem uma relação complexa dentro do Cike. Runin admira Trengsin, que por sua vez, ao mesmo tempo em que se preocupa com sua tropa, é consumido cada vez mais por uma sede doentia de vingança contra Mugen que não só exterminou seu lar, mas também o manteve preso em tortura para explorar sua ligação com os xãmas.
Mas, mesmo com todo o ódio de Trengsin, não é o suficiente para fazer com que Mugen extermine Golyn Niis, uma das cenas mais cruéis narradas no livro.
Inspirado no Massacre de Nanquim de 1973, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, o massacre de Golyn Niis é uma das cenas mais brutais e devastadoras do livro, com crueldade gráfica e narrações detalhadas de torturas, homicídios e abusos sofridos durante a guerra. Este capítulo marca uma mudança radical, não apenas na história, mas também em Rin.
Testemunhar as atrocidades cometidas em Golyn Niis é o estopim psicológico que leva a protagonista a abandonar completamente sua própria humanidade para obter a vingança e o poder destrutivo da deusa Fênix.
É neste ponto do livro em que Altan e Rin começam a tramar um plano para invadir Chuulu Korikh, uma prisão mística nas montanhas que serve para aprisionar xamãs, e os deuses que os possuem, cujas mentes foram consumidas ou que se tornaram incontroláveis e perigosos para o mundo, para tentar negociar a formação de uma nova tropa formada por deuses que poderiam impedir Mugen.
O plano é perigoso, inconsequente e desaprovado até mesmo pelo próprio Cike, mas Rin e Altan são anestesiados pelo desejo de vingança. Neste momento é revelado que Jiang está, na verdade, preso em Chuulu Korikh por vontade própria, após ter invocado o poder dos deuses para tentar salvar Sinegard.
Neste momento, até mesmo Jiang tenta impedir Rin, mas seu comportamento foi em vão; a obsessão de Altan e Rin pela vitória naquela guerra estaria acima de qualquer razão, e neste momento, eles acidentalmente libertam Feylen, antigo comandante do Cike, que perdeu o controle após a possessão do deus do vento, revelando uma força destrutiva e sem humanidade.
“Esse poder pode incendiar o mundo”, disse a mulher tristemente. “Esse poder destruirá tudo o que você já amou. Você derrotará seu inimigo, e a vitória se transformará em cinzas em sua boca.”
Deixando Chuulu Korikh a dupla é sequestrada pela Federação de Mugen, numa armadilha da própria imperatriz Nikara, Su Dajin, que mantinha um trato com a Federação.
Em Mugen, Trengsin relembra seu passado, agora, acompanhado de Rin, que consegue, por fim, entender todas as experiências passadas que levaram Altan a violência, ódio, vingança, vício, trauma e tantos outros, mas a dupla inesperadamente consegue realizar um plano de fuga das prisões de Mugen, o que leva a outra cena trágica do livro.
Utilizando o poder da Fênix, Altan, que tinha ciência da inexistência da chance de uma fuga dupla, se sacrifica por Rin em uma despedida dramática em que usa as chamas da Fênix para entrar em combustão, derrotando inimigos e ganhando tempo para a fuga da protagonista que, conforme o planejado pela dupla, nadou até a antiga ilha de Speer e clamou pelo poder da Deusa da Fênix para a destruição de Mugen, que acaba dizimada em chamas.
No fim da trágica história, Rin se reúne novamente com o Cike e é nomeada a nova líder da tropa após a morte de Altan, mas o livro deixa claro que nem a história e nem a guerra acabam por ali. Enquanto isso, a protagonista, que começa como uma criança desesperada para fugir de um destino cruel, termina o livro frente às chamas, escombros e o que sobrou de Mugen, encarando uma destruição causada pelo seu próprio clamor, cheia de culpa e cheia de um ódio impossível de conter.
“Tornei-me algo maravilhoso”, pensou ela. “Tornei-me algo terrível.” Seria agora uma deusa ou um monstro? Talvez nenhuma das duas. Talvez ambas.


