
Por Letícia Willy Souza Pinto.
Potente, inteligente e envolvente, esses são três adjetivos que resumem bem a história cômica e dramática de “Morte e Vida Madalena”. O filme acompanha a trajetória de Madalena, uma produtora grávida que tenta realizar o último filme de seu falecido pai em meio ao caos que é realizar qualquer obra no meio do cinema independente.
Madalena enfrenta de tudo: um diretor que foge logo no início das gravações, problemas de orçamento e até greve da equipe. Mais um dia normal dos bastidores da produção independente. E é justamente esse o grande trunfo do filme, que, ao brincar com todas as dificuldades da criação de um longa, consegue gerar empatia e identificação com o espectador, não só com aqueles que trabalham com audiovisual, mas com todos que já passaram por algum perrengue no trabalho por não fazerem parte da camada que tem sua profissão valorizada no país e têm que recorrer à criatividade para sobreviverem em seu meio, ou seja, praticamente todo mundo.
Com seu charme e suas desventuras, a protagonista consegue encantar o público, de tão comicamente reais que são as provações de Madalena, brilhantemente interpretada por Noá Banoba. A atriz travesti, além de enriquecer o filme com sua magnífica performance em cena, ainda subverte uma lógica bastante comum no mercado brasileiro: colocar uma atriz cisgênero para interpretar uma mulher trans ou travesti. Diferente do que fez a novela “As Filhas da Mãe”, de 2001, com a escalação de Claudia Raia para viver a transexual Ramona, ou o filme de 2017 “A Glória e Graça”, em que Carolina Ferraz repete a mesma máxima. Em “Morte e Vida Madalena”, Noá não apenas muda o jogo ao interpretar uma mulher cisgênero como nos mostra que não tem limites para sua interpretação, que entrega em sua corporalidade, expressões e alternância entre comédia e drama.
Outro ponto que fica difícil de ignorar é a fotografia do filme, que usa e abusa dos ângulos e dos elementos característicos da cultura brasileira para compor suas cenas. As cores vivas, os enquadramentos inteligentes e a montagem marcante nos levam ainda mais para dentro da narrativa, nos permitem observar com ainda mais encantamento o longa, além de gerar leveza para a história, o que cria mais um empecilho para ignorar esse achado da produção nacional.
“Morte e Vida Madalena”, sem dúvida, cumpre todos os requisitos de um bom filme: bom elenco, roteiro, direção e, o principal, tem uma boa essência. Guto Parente, diretor e roteirista da obra, divide com a gente não só sua experiência no audiovisual, mas também as malícias e delícias do mercado, o que torna a obra não só identificável como imperdível. Definitivamente, perder a estreia de “Morte e Vida Madalena” é um pecado, em especial para aqueles que pretendem trabalhar com audiovisual.


