Globalização e Copa do Mundo

Por João Diniz.

A comparação entre as reportagens do Brasil de Fato  “Copa do Mundo: como histórias de colonização e tortura unem França, Senegal, Argentina e Argélia” e “A Copa do Mundo em guerra”  e a matéria do GE/G1 “Da guerra à Copa do Mundo: a história dos três atacantes refugiados da Austrália” revela diferentes formas de abordar a relação entre futebol, conflitos históricos e política internacional. Embora os três textos partam da ideia de que o esporte não está isolado dos acontecimentos políticos e sociais, cada veículo constrói essa relação a partir de enquadramentos distintos, refletindo características próprias da mídia alternativa e da mídia de massa.

Nas reportagens do Brasil de Fato, a Copa do Mundo é apresentada como um espaço onde memórias históricas, disputas coloniais e conflitos geopolíticos continuam presentes. O futebol aparece como um fenômeno profundamente conectado às relações de poder que marcaram a formação dos Estados nacionais e as experiências de colonização. A matéria sobre França, Senegal, Argentina e Argélia utiliza os confrontos da Copa como ponto de partida para recuperar episódios históricos que ligam esses países para além do campo esportivo. O texto argumenta que os jogos carregam significados políticos e simbólicos construídos ao longo de décadas de dominação colonial, resistência e luta por independência.

No caso da partida entre França e Senegal, a reportagem enfatiza o passado colonial francês na África Ocidental e destaca que o Senegal foi uma das principais colônias do império francês. O confronto esportivo é interpretado como um encontro entre antigas relações de dominação e processos de emancipação nacional. Já a análise sobre Argentina e Argélia recupera as conexões históricas entre a repressão colonial francesa na Guerra da Independência Argelina e as técnicas de perseguição e tortura posteriormente adotadas pela ditadura militar argentina. Dessa forma, o texto constrói uma narrativa que associa diretamente o Mundial a debates sobre colonialismo, violência de Estado e memória histórica.

A segunda matéria do Brasil de Fato, “A Copa do Mundo em guerra”, amplia ainda mais essa perspectiva ao discutir como diversos conflitos armados contemporâneos e tensões internacionais influenciam a competição. O Mundial é apresentado como um evento atravessado pelas consequências de guerras, deslocamentos populacionais e disputas geopolíticas. O esporte deixa de ser visto apenas como entretenimento global e passa a ser interpretado como reflexo das desigualdades e dos conflitos que estruturam a ordem internacional. Nessa abordagem, a Copa funciona como um espaço onde diferentes narrativas nacionais, históricas e políticas se encontram e entram em disputa.

Essa forma de cobertura é característica da mídia alternativa. O Brasil de Fato procura contextualizar os acontecimentos esportivos dentro de processos históricos mais amplos, incentivando uma leitura crítica do esporte. O foco não está necessariamente no desempenho das seleções ou nos aspectos técnicos dos jogos, mas nas estruturas de poder que influenciam a trajetória dos países participantes. O futebol é utilizado como uma ferramenta para discutir colonialismo, imperialismo, violência política e relações internacionais.

Já a matéria do GE/G1 segue uma lógica narrativa diferente. Embora também trate da relação entre guerra e futebol, o foco está na experiência individual de três jogadores da seleção australiana: Nestory Irankunda, Awer Mabil e Mohamed Touré. O texto conta como os três atletas nasceram ou viveram em campos de refugiados e tiveram suas vidas marcadas por conflitos armados em países africanos antes de se estabelecerem na Austrália. A reportagem destaca suas trajetórias de superação, enfatizando a capacidade do esporte de transformar vidas e criar oportunidades para indivíduos afetados pela guerra.

Enquanto o Brasil de Fato prioriza uma análise estrutural dos conflitos, o GE opta por uma narrativa humanizada e centrada em personagens. A guerra aparece principalmente como contexto biográfico para explicar os desafios enfrentados pelos atletas. O texto destaca episódios de sofrimento, deslocamento forçado e adaptação cultural, mas o principal objetivo é mostrar como esses jogadores conseguiram superar adversidades e alcançar o maior palco do futebol mundial. A Copa do Mundo é apresentada como símbolo de conquista pessoal e integração social.

Essa diferença pode ser observada também na escolha das fontes e na construção do discurso jornalístico. O Brasil de Fato recorre a análises históricas e políticas para explicar os significados dos confrontos da Copa. O foco está nos países, nos processos históricos e nas relações internacionais. O leitor é convidado a refletir sobre como o colonialismo europeu, as guerras de independência e os regimes autoritários deixaram marcas que permanecem presentes até hoje.

Por outro lado, o GE utiliza uma narrativa baseada em histórias de vida. O texto acompanha a trajetória dos atletas desde os campos de refugiados até a convocação para a seleção australiana. A guerra é apresentada por meio das experiências pessoais dos jogadores, o que produz maior identificação emocional com o leitor. Em vez de discutir as causas políticas dos conflitos, a reportagem concentra-se nas consequências humanas e nas histórias de resiliência.

A linguagem adotada pelos veículos também reforça essas diferenças. O Brasil de Fato utiliza um tom mais analítico e interpretativo, estabelecendo relações entre futebol e processos históricos complexos. Há uma clara preocupação em contextualizar os acontecimentos e demonstrar que as disputas esportivas carregam significados políticos que ultrapassam as quatro linhas. A narrativa busca provocar reflexão crítica sobre temas como colonialismo, dominação internacional e memória histórica.

O GE, por sua vez, utiliza uma linguagem mais próxima do ¹storytelling jornalístico. O texto valoriza aspectos emocionais das trajetórias dos atletas e enfatiza elementos de inspiração e superação. A guerra é retratada principalmente por seus impactos na vida das pessoas, e não como objeto central de análise política. Essa abordagem é típica da mídia de massa, que frequentemente busca aproximar o público dos acontecimentos por meio de histórias individuais e personagens identificáveis.

Portanto, embora os três textos relacionem futebol e guerra, eles o fazem de maneiras distintas. O Brasil de Fato interpreta a Copa do Mundo como um espaço onde se manifestam as heranças do colonialismo, conflitos internacionais e disputas de poder entre Estados. Já o GE utiliza o mesmo tema para destacar histórias humanas de sobrevivência e ascensão social. Enquanto a mídia alternativa privilegia uma leitura estrutural e política dos acontecimentos, a mídia de massa enfatiza experiências individuais e narrativas de superação. Essa diferença demonstra como distintos modelos de jornalismo podem construir significados variados sobre um mesmo fenômeno esportivo, influenciando a forma como o público compreende as relações entre futebol, história e sociedade.


  1. O storytelling jornalístico é a técnica de relatar fatos reais e notícias utilizando elementos narrativos da ficção e da literatura (como personagens, conflitos e ganchos emocionais). O objetivo é transformar informações secas ou complexas em histórias envolventes que prendem a atenção do leitor e facilitam a compreensão do contexto humano por trás do acontecimento.

Referências: 

BRASIL DE FATO. Copa do Mundo: como histórias de colonização e tortura unem França, Senegal, Argentina e Argélia. Brasil de Fato, 16 jun. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/06/16/copa-do-mundo-como-historias-de-colonizacao-e-tortura-unem-franca-senegal-argentina-e-argelia/ 

BRASIL DE FATO. A Copa do Mundo em guerra. Brasil de Fato, 16 jun. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/06/16/a-copa-do-mundo-em-guerra/

GE. Da guerra à Copa do Mundo: a história dos três atacantes refugiados da Austrália. ge.globo.com, 13 jun. 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/13/da-guerra-a-copa-do-mundo-a-historia-dos-tres-atacantes-refugiados-da-australia.ghtml.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *