Entre a estética e o vazio: o espetáculo anestésico de Devoradores de Estrelas

Por Lucas Veloso.

“Devoradores de Estrelas”, que na minha opinião poderia acompanhar o título original e se chamar “Projeto Hail Mary”, definitivamente não é mais um filme sobre sobrevivência no espaço.

O roteiro de Drew Goddard está mais interessado em provocar um curto-circuito emocional no espectador, mostrando que aquilo que queremos pode ser diferente do que precisamos. É a partir dessa premissa que embarcamos na história do cientista que forçadamente vira astronauta e vai aprender muito mais sobre si do que sobre a vida nas galáxias.

O autoconhecimento, dessa forma, se torna uma palavra-chave do filme e a jornada de Ryland Grace é até bonita de se ver. O problema é que ela se torna um tanto quanto piegas quando o roteiro de “Devoradores de Estrelas” cria artifícios para elevar o impacto emocional. 

Eu não sou um entusiasta dessas estratégias apelativas que visam manipular as emoções para envolver. Ao contrário, costumo não me conectar e torcer o nariz. Aqui, não foi muito diferente: tive dificuldade de engajar na proposta melodramática da obra de Lord e Miller, com exceção de um dos momentos envolvendo a personagem de Sandra Hüller — eu não achava que precisava vê-la e ouvi-la cantar até o filme me mostrar isso.

O caráter rocambolesco do enredo de Goddard foi também um entrave à minha experiência. São muitas reviravoltas acontecendo durante a incursão do protagonista no espaço, de modo que o longa superestima a sua própria longevidade. Em dado momento, eu só queria que “Devoradores de Estrelas” soubesse a hora de nos deixar ir embora. A sensação é de que a equipe se apegou tanto à obra que sentiu dificuldade em dizer o adeus necessário.

Mas, se as longas duas horas e meia do filme soaram um pouco demais, eu não posso ser tão radical a respeito do seu visual impressionante. A fotografia e os efeitos especiais criam um verdadeiro espetáculo — exuberante, opulento e que de certa forma é consistente com a sua proposta romântica. As cores são vivas e transformam cada frame em pinturas celestes sublimes, um deleite para quem consegue ter acesso a uma tela mais refinada.

Ainda que eu tenha aprovado essa ostentação estética, não posso deixar de frisar, entretanto, que ela é mais uma embalagem desprovida de tanto significado. É que a história contada é pueril e o encantamento com a técnica acaba se tornando controverso — ao passo que funciona dentro da concepção idealizada do filme, escancara o abismo que existe entre a beleza e o vazio de um roteiro preocupado em anestesiar o público.

Em outras palavras, seria ainda mais bonito se todo esse esmero encontrasse eco para além de um deslumbre visual, na profundidade de um roteiro menos preocupado em ser fofo e mais comprometido com a densidade das questões que ele próprio levanta e, tangencia. O Projeto Hail Mary, afinal, não é sobre uma aventura no espaço, mas sobre um colapso trágico e iminente cuja relação de causa e consequência tem a ver com a ação humana.

Comecei essa crítica pontuando que “Devoradores de Estrelas” se distancia da fórmula de ficção científica espacial cuja sobrevivência ocupa o locus central da narrativa. Mais próximo de um drama existencial, o filme se ocupa, em grande parte, dos elementos humanos — os aspectos psicológicos que emergem da e na experiência, a interação entre diferentes espécies e o produto dessa relação.

A premissa é, na teoria, atraente. Mas, na prática, ela se abarrota em um sentimentalismo e um cinismo que mergulha naquilo que o próprio longa antes subverteu: o clichê.

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