Em defesa do narrador gótico

Ilustração: Isabella Mazzanti

Por Carolina Gouvêa.

Gótico é tudo aquilo que é sombrio, macabro ou hediondo. O excêntrico e o tabu revestidos de folclórico e sobrenatural. Uma silhueta em vertigem de escuridão, ressurgindo amorfa de um cemitério, uma quina de corredor, um castelo, uma igreja, um silêncio. A literatura gótica, quando surge, nutre o infanto do terror e da blasfêmia que a Europa até então repelia ao ocultismo, adornando-o do encanto da superstição. De seus caprichos, entre as aberrações e as peculiaridades, creio que o mais encantador é o organismo da narração.

A trama de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, é conduzida pelas investigações do advogado Gabriel Utterson sobre o amigo, Dr. Henry Jekyll. Em Carmilla, de Joseph Sheridan Le Fanu, a personagem titular da história é esboçada pelos relatos de Laura, uma jovem que a conhece. Drácula, de Bram Stoker, é estruturado de maneira similar; o romance se passa por cartas, diários e artigos de jornal. A narrativa é renunciada a um observador e a relativa distância da história que nasce dessa peculiaridade é uma marca do gênero gótico. Apesar de sua aparente insignificância aos acontecimentos da narrativa, o narrador gótico é o cerne de todo seu potencial macabro. Cresce, em êxtase, tão somente nas frestas de cada porta e janela pelas quais o narrador gótico contempla, atordoado, o indescritível, uma hera de estranheza, nutrindo mistério que se realiza em seu êrmo.

O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte, é recorrentemente adaptado além dessa perspicácia. O romance conta a história dos moradores de uma mansão rural, o Morro dos Ventos Uivantes, nas charnecas da Inglaterra vitoriana. Como em outras obras do gótico, Bronte não o escreve em narração direta das intrigas dos personagens, mas sim em um relato decorrente das observações da governanta da casa. Helena “Nelly” Dean testemunhou por décadas tudo aquilo que era cotidiano aos seus moradores. Entre eles, a impetuosa Catherine Earnshaw, filha do Sr. Earnshaw, e o umbrático Heathcliff, órfão cigano adotado quando jovem pelo patrão. A história de amor entre Cathy Earnshaw e Heathcliff é o tecido estrutural da narrativa, mas seu deleite surge antes em seu mistério do que em seu reconto.

Sabe-se que a garotinha e o jovem Heathcliff passaram a infância em aventuras pelas charnecas. Há algo quimérico que envolve o par, mas esse “quê” é segredo, sussurro, olhar de soslaio. Ambos veem em Nelly uma confidente; penitentes, a confessam tudo aquilo que a garganta permite esboçar em palavra, entremeado na lacuna do sentimento. Todavia, existem, em essência, somente enquanto vultos espiados pela governanta, condensados às impressões, afeições e desgostos pelos quais ela os descreve. Catherine é egoísta, maldosa e mimada. Heathcliff é taciturno, astuto e rancoroso. Desastrosamente, se afeiçoaram um ao outro. Nelly desconhece quaisquer traços que persistam além desses.

O livro se dedica aos pormenores da vida no Morro mais do que ao casal, e grande parte da narrativa é posterior à sua separação. Seu cargo e posição a desviam do par; seu âmago a enternece, antes de Catherine, ao seu marido, o Sr. Linton, que lhe é mais amável e generoso. Quando se cruza, enfim, com retalhos íntimos dos espíritos de Cathy e Heathcliff, Nelly os descreve como afetados, moribundos, delirados, estranhos que são daquilo que Nelly presencia e compreende. É a governanta que confere ao casal sua perversidade e seu milagre. Mesmo separados, não deixam de assombrar a obra, e resta ao leitor deduzir por onde corriam os dois quando se refugiavam no campo.

Igualmente, em Frankenstein, de Mary Shelley, a narração tem papel distinto. O romance é contado ora por um marinheiro em suas cartas à irmã, ora pelo próprio Victor Frankenstein, doutor, refugiando-se, na história, do próprio pavor, e, enfim, pela Criatura que ele deu à luz. Frankenstein irrompe no embate entre a figura do cientista Victor, virtuosa conquanto não o seja, e da Criatura, monstruosa conquanto se humaniza. O carisma do doutor é sensível primeiro no fascínio que o marinheiro tem por seu aspecto ascético e melancólico; a Criatura é repugnante e anômala enquanto é temida por Victor; Victor se torna monstruoso enquanto é odiado pela Criatura. As reviravoltas da narrativa, assim como seus dilemas diversos, éticos, morais e humanitários, são consequência singela do revezamento de narradores, cada qual ardente para dadivar ao leitor sua sentimentalidade e ótica – ou, ainda, sua normalidade e o consequente sacrilégio do terceiro, tal qual em um tribunal, pleiteando desesperados a própria inocência. É o leitor seu juiz, júri e carrasco.

No último ano, ambos foram adaptados para as telas de cinema. Em meio às críticas e aos elogios, creio que sua mais condenável infração é o abandono da sutileza do narrador gótico. Ambas histórias são vítimas do fenômeno, cada uma à sua maneira. Em Morro dos Ventos Uivantes, de Emerald Fennell, não há resquícios do mistério que orbitava o casal. Pelo contrário, Catherine e Heathcliff são um produto concreto e um único personagem composto: o casal proibido. Ao mesmo tempo que são translúcidos em vez de entranhados, ocupam o palco somente enquanto reduzidos a produto de marketing, o casal um clichê literário e o filme, em plástico, seu romance trágico. Em Frankenstein, de Guillermo del Toro, as diversidades do grotesco são abandonadas em prol de uma única perspectiva amalgamada nos três narradores uniformes. O marinheiro, a Criatura e até o próprio Victor comunicam com deliberado didatismo a sentença conjunta simplista à crueldade definitiva e incomparável do personagem Doutor Frankenstein.

O fascínio do macabro é sussurrar à curiosidade mórbida o inexplorado, o peculiar, o repulsivo. Quando, no filme Frankenstein, o irmão de Victor diz, “Você é o monstro, Victor”, em vez de a audiência, em desordem, o deliberar – ou, ainda, quando, no filme Morro dos Ventos Uivantes, Catherine e Heathcliff são reduzidos a um ou outro compilado de cenas ora picantes, ora trágicas, sempre diluídas e palatáveis –, a bruma se dispersa. Sem a distância que lhes é conferida pelo alheio, essas histórias assumem caráter de banalidade e perdem tudo aquilo que as tornam mais intrinsecamente góticas. Aquele mesmo contorno fusco, rente aos olhos, toma forma humana; o cemitério, ao sol, é cemitério como qualquer outro. Quem desconhece um corredor iluminado?

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