Essas são as mulheres que lutam contra o feminismo, e essas são as mulheres que sofrem com isso

Por: Alice Giovana

Todo o movimento feminista é pautado na importância da autonomia da mulher sobre si mesma, mesmo que isso vá contra o que é estabelecido ou contra quem estabelece as regras que moldam as relações sociais de gênero. Mas se quer descrever esta luta de forma mais simplificada, apenas três palavras são necessárias para resumir esse termo que se flexibiliza desde a transformação de mulheres extremistas para a esquerda até o escape do feminino nas amarras da convenção social para a masculinidade. Liberdade da mulher.

É difícil imaginar que alguém seja contra algo tão humanitário: a libertação de um gênero que, desde que pode se lembrar, é controlado por estruturas de poder maiores do que elas próprias, mas isso existe.

Erika Kirk se colocou na narrativa como “ex-esposa de Charlie Kirk” desde o momento em que decidiu que seria o novo rosto a carregar esse sobrenome nas mídias. Ela poderia ter se reinventado, utilizando o arquétipo da triste viúva que precisa do apoio público, mas se colocando como sua própria personagem desgrudada do fantasma do ex-marido, mas conscientemente, fosse por motivos comerciais, fosse pelo reconhecimento dos seguidores de Charlie, fosse apenas para aproveitar a fama oportuna que pousou repentinamente em suas mãos, em seu discurso após o assassinato do marido, Erika se apresentou como esposa e não como mulher.

O empresário e ativista estadunidense Charlie Kirk recebeu notoriedade através de cortes na internet onde expunha suas opiniões extremistas e muitas vezes de cunho misógino e conservador. Proibição total do aborto sem exceções, abolição das discussões de gênero em espaços públicos, a união entre a igreja e o Estado e os costumes tradicionais como a maternidade na juventude e as mulheres como mães em tempo integral eram pautas defendidas por Kirk. 

Erika, uma empresária, filha de pais divorciados que se casou aos trinta anos de idade, com duas graduações, uma em ciências sociais e outra em relações internacionais e um doutorado em estudos bíblicos, resolveu carregar não só o sobrenome, mas também o legado.

Não há nada de errado na trajetória familiar, acadêmica ou profissional de Erika, ela foi uma mulher livre que pôde completar os seus estudos, se tornar alguém independente e até mesmo ser nomeada como Miss Arizona em 2012 antes de se casar, ter filhos e escolher a maternidade, ocupações que certamente não permitiriam que ela vivesse todas as experiências que viveu. A hipocrisia a ser apontada em toda essa história é que Erika decidiu seguir o legado e se associar ao sobrenome de um homem que, durante sua carreira política, mostrou repúdio sobre a mulher que Erika Lane Kirk se mostrou ser, uma mulher livre que colocou seus sonhos em primeiro lugar antes de renunciar parte de seu corpo e tempo à maternidade e ao próprio marido.

Charlie divulgou excessivamente seu apoio à maternidade na juventude, o seu credo de que mulheres deveriam largar ambientes acadêmicos e corporativos para focar exclusivamente no cuidado familiar e na geração de novas vidas. Em suma, durante sua carreira, o marido de Erika se dedicou a criticar de forma indireta todas as escolhas da empresária em sua juventude, e ainda assim, seja por devoção, seja pela fama ou por segundos interesses, ela construiu sua história na mídia como esposa deste homem.

Enquanto isso, no Afeganistão sob o regime do Talibã, mulheres são vetadas de todos os seus direitos por um governo opressor que ameaça a liberdade de expressão no país, acusa mulheres que se opõem de adultério e até mesmo as ameaça de apedrejamento público caso não sigam as regras impostas.

No Afeganistão, meninas menores de idade, desde os nove anos, são obrigadas a se casarem cedo ou vendidas pela própria família, seja por questões de proteção ou monetárias. Mulheres no governo Talibã não podem frequentar lugares públicos ou realizar viagens sem um acompanhante do sexo masculino (classificado como mahram). Para elas, pode ser negado até mesmo atendimento médico caso não estejam seguindo a vestimenta imposta pelo Estado (o hijab ou burqa) ou caso não estejam junto ao seu acompanhante.

A essas mesmas mulheres é negado o direito ao estudo, seja o ensino médio, fundamental ou superior, e até mesmo o corpo das mulheres é considerado um objeto ao homem, tendo a permissão do Estado para que o homem use a violência como forma de “disciplina” desde que não sejam deixados fraturas, hematomas ou cortes visíveis, que caso sejam descobertos fazem com que o agressor sofra uma pena de apenas 15 dias. E ainda assim, é difícil ser descoberto algo por baixo de toda a vestimenta que mal permite ver os olhos da mulher, a mando do governo que visa tapar o rosto da mulher a fim de evitar a “tentação”.

Não só os corpos, as vozes das mulheres afegãs foram declaradas como partes íntimas que podem causar vícios segundo o governo, que criou uma nova lei em que as mulheres são proibidas de rir, cantar, conversar ou mesmo rezar em voz alta nas ruas ou próximos de outros que não sejam o mahram. O descumprimento dessa lei pode causar até mesmo a prisão da mulher ou do mahram.

E mesmo com todas essas ocorrências, não há saída para as mulheres do Afeganistão nem mesmo nas esferas políticas desde o fim do Ministério dos Assuntos da Mulher no país, medida tomada pelo Talibã apenas um mês após a tomada do controle do país.

Tudo isso nos leva ao principal ponto: enquanto mulheres são negligenciadas e diariamente vetadas de seus direitos básicos, uma mulher como Erika Kirk, regada de privilégios carrega o sobrenome de uma pessoa que durante toda a vida deixou claro a sua visão de mulheres como objetos e seres inferiores, que vai contra todo o movimento que lutou e luta para que ela pudesse ter cada um desses direitos que ela exerce hoje em dia.

Uma mulher que luta para derrubar um movimento que defende os direitos já escassos de muitas mulheres ao redor do globo demonstra a própria hipocrisia ao se aproveitar de muitos dos direitos constituídos por feministas e pelo movimento do feminismo em si. 

Erika Kirk mostra através das próprias experiências e escolhas de vida, que mulheres capazes de exercerem seus direitos são também capazes de se tornarem grandes potências, mesmo que essa capacidade seja usada de forma covarde para tentar tirar de outras mulheres a permissão de lutarem por esses direitos para si mesmas.

Alice Giovana é graduanda do 2° período do curso de Jornalismo da PUC Minas.

Fontes:

ARMÉS, Diego. Desabafo no Masculino: A mulher de Charlie Kirk e as outras mulheres. Máxima, 30 set. 2025. Disponível em: https://www.maxima.pt/atual/detalhe/desabafo-no-masculino-a-mulher-de-charlie-kirk-e-as-outras-mulheres.

​FOTOS comoventes mostram a dura realidade de proibições das mulheres no Afeganistão do Talibã. National Geographic Brasil, dez. 2025. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/fotografia/2025/12/fotos-comoventes-mostram-a-dura-realidade-de-proibicoes-das-mulheres-no-afeganistao-do-taliba.

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