
Por Ricardo Fonseca
A história do futebol brasileiro costuma ser contada em ciclos de trinta ou quarenta anos, mas, às vezes, o tempo apenas troca de uniforme. Em 1970, o Brasil cheirava a mofo institucional e autoritarismo. O general Ernesto Garrastazu Médici queria Dadá Maravilha na Seleção. Não era exatamente um conselho. João Saldanha respondeu com a frase que atravessou décadas como um manifesto de autonomia: “Ele escala o ministério, eu escalo a seleção.” Saldanha caiu. Caiu por manter a espinha ereta. Dadá foi ao México. A ditadura venceu a disputa imediata, mas Saldanha venceu a memória.
Cinquenta e seis anos depois, o cenário mudou de figurino, mas conserva o mesmo impulso de imposição. Já não há generais pressionando técnicos em gabinetes escuros. A pressão agora não vem dos quartéis; vem dos lobbies do futebol-negócio. Em 1970, a pressão era nacionalista. A ditadura queria usar a Seleção como vitrine do “Brasil Grande”. Em 2026, a pressão é comercial. Neymar deixou de ser apenas jogador; tornou-se ativo financeiro, publicidade ambulante e peça central de um ecossistema bilionário. Por isso o título “Pensou primeiro nele” — usado por Juca Kfouri em sua coluna de opinião — resume tão bem esse momento. A frase soa menos como análise esportiva e mais como diagnóstico de uma engrenagem. Saldanha preferiu o tombo à submissão. Ancelotti preferiu a permanência. Mas, ao aceitar a “sugestão” invisível do mercado, o técnico italiano submeteu-se a um poder tão vertical quanto o de Médici — apenas mais sofisticado e menos explícito.
A ditadura militar convocava na base da intimidação. A ditadura do capital convoca pela dependência financeira. Uma usava fardas. A outra usa patrocínios. Ambas têm horror à autonomia. E talvez esteja aí a ironia mais amarga do futebol moderno: o treinador ainda desenha o esquema tático, mas o elenco, muitas vezes, já chega escalado pelo departamento comercial. Porque o autoritarismo também aprendeu a jogar bola.


