
Por Felipe Stenner.
Em um cenário onde a recepção da internet parece unanimemente entusiasmada com Homem-Aranha: Um Novo Dia, que estreou 29 de julho no Brasil, olhar para a nova empreitada do “teioso” com certa distância crítica de um “quadrinheiro” chato, apesar de também um fã animado lá no fundo (é um filme de Homem-Aranha, gente!), revela uma produção de saldo bastante positivo, mas longe de ser o ápice definitivo do herói nos cinemas. O longa carrega barrigas narrativas visíveis e decisões de roteiro que fazem torcer o nariz, porém não perde o seu valor como uma aventura digna e muito sensível emocionalmente.
Entre erros e acertos, a sensação final não é de rejeição, e sim de alívio pela constatação que apontar suas imperfeições não significa desgostar do gênero de super-herói de vez, como eu temia que fosse meu caso após um período recente e longo de apenas frustrações e resultados insatisfatórios iguais a Supergirl (2026) da “Distinta Concorrência”. Isso significa apenas exigir um pouco mais do personagem mais emblemático da Marvel, ou melhor, do super-herói mais popular do mundo de acordo com os absurdos recordes de bilheteria do filme.
Grande parte do frescor do filme vem do comando de Destin Daniel Cretton, diretor de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021) e produtor executivo da excelente série Magnum (2026). A saída do insosso Jon Watts fez um bem enorme à franquia, permitindo que Cretton imprimisse uma identidade própria que, embora ainda não alcance o nível e beleza da direção de Sam Raimi, da trilogia clássica do Aranha, emula com maestria a fluidez de câmeras, movimentos e amplitudes que consagram os jogos recentes de PlayStation da Insomniac, declaradamente inspirações tanto do diretor quanto do astro Tom Holland e grande parte do que faz o longa ser uma obra de arte em movimento na telona. Além disso, a presença de Nova York volta a ter o peso que merece nas histórias. Longe de soar exagerada, a cidade é tratada como um verdadeiro personagem, em uma homenagem vibrante que a Marvel não entregava com tanta personalidade desde o ápice da saga Defensores na Netflix, cujo personagem do Justiceiro foi inclusive pego emprestado aqui.
No centro dessa engrenagem, Tom Holland entrega a sua melhor interpretação como Homem-Aranha até então. Arrisco dizer até que a melhor interpretação da sua carreira. Mais próximo da maturação e do tom visto nos videogames e fase dos quadrinhos pós-colegial, o ator assume a essência de Peter Parker durante toda a narrativa sem depender da sombra de tutores.
Outro ponto altíssimo do longa é a relação entre o Aranha e o Justiceiro (Jon Bernthal), que, antes mesmo de ser do núcleo empregado pela Netflix, era originalmente um personagem surgido das HQs do “cabeça-de-teia”. A química entre Holland e Bernthal funciona impecavelmente na tela, transformando essa dinâmica improvável, pelos extremos opostos polos de personalidade dos heróis, no elemento mais magnético e divertido da produção, lado a lado com o apuro visual impressionante das cenas de ação. Aqui vale ressaltar uma curiosidade de bastidores: os dois atores são grandes amigos de longa data fora das telas, um estava presente e apoiou o outro nos testes para interpretar seus personagens pela primeira vez em 2016.
Por outro lado, o roteiro tropeça ao lidar com o universo expandido que tenta abraçar. Se o Justiceiro é retratado de forma exemplar (até mais estrategista do que conseguiu ser nas séries), o mesmo não se pode dizer de outros grupos da Marvel – vide a condução do Tentáculo, que quase confunde o espectador sobre sua verdadeira origem para quem assistiu Demolidor (2015-2018). A personagem de Sadie Sink é outro exemplo de escolhas narrativas questionáveis: por mais que protagonize momentos emotivos e bem atuados, suas linhas de desenvolvimento geram constante estranhamento. É aquilo: uma excelente história para o universo do Homem-Aranha, mas até onde faz jus a outro grande, importante e complexo universo da Marvel que é os X-Men? Isso mesmo, o maior spoiler do filme, e que não foi noticiado oficialmente por nenhum grande portal da imprensa de entretenimento, é que Sink interpreta Jean Grey.
Infelizmente, como já adiantei, a famosa mutante é muito distorcida em Um Novo Dia em relação ao que costuma ser nas outras obras e materiais antes do arco da Fênix Negra, que eu penso que impregnou em Jean a terrível imagem de uma mulher que é louca porque é poderosa. E, adivinhem, é a mesma imagem que ela tem na maior parte da trama aqui, atropelando velhinhos trabalhadores no meio da rua, tratando sentimentos de amor e abandono do Peter sem um pingo de empatia para uma telepata e atirando por aí indiscriminadamente.
Uma fração disso, contudo, é compensado por uma ótima cena no último ato do filme, quando, para convencê-la a sair do caminho da vingança e trilhar o bem, Homem-Aranha utiliza de uma de suas maiores forças em toda sua trajetória: a memória daqueles que mais ama. No momento mais crítico, Peter invoca a falecida tia May na sua mente para “lutar” por ele e salvar a alma de Jean, um dos maiores exemplos da sensibilidade do roteiro e algo com que todos nós podemos nos relacionar em nossas vidas com entes queridos. A cena me remete diretamente à do Aranha invocar a memória do tio Ben para se libertar do simbionte Venom na saudosa animação O Espetacular Homem-Aranha (2008-2009).
Apesar de bonito, não deu para ignorar uma sensação de que realmente houve uma alteração visível no tom do desfecho em relação aos vazamentos de insiders pré-lançamento, nos X e Reddit da vida, sugerindo um recuo de última hora que trocou a ousadia da morte de Peter Parker por uma resolução mais contida e segura.
Já um dos vazios mais sentidos em Homem-Aranha: Um Novo Dia diz respeito à fundação da própria vida adulta de Peter. A completa ausência de explicações claras sobre como o herói se mantém financeiramente e paga suas contas (e suas máquinas) destoa da essência do personagem. Ser o Homem-Aranha não é um trabalho em si, como transpareceu no filme, mas um fardo que metaforiza nossas responsabilidades e sacrifícios cotidianos bem além dos empregatícios. Ao ignorar a dimensão prosaica do sustento – a ponto de criar a ilusão cômica de que Peter estaria recebendo dinheiro de sua amiga da polícia, capitã DeWolff (Liza Colón-Zayas) –, o filme perde a oportunidade de resgatar a força dramática e realista que tornou Homem-Aranha 2 (2004) um marco inigualável até hoje insuperado.
Ainda que o cenário ideal para este capítulo mais pé no chão do Aranha pedisse antagonistas de peso urbano como o Rei do Crime e a Gata Negra – pois não há um grande – vilão para ser perfeito, a estrondosa capacidade do filme em atrair multidões e superar marcas de bilheteria é em si uma vitória a ser celebrada. Ver uma produção com os empréstimos certos do ecossistema Marvel, uma aventura envolvente e questões da natureza social e psicológica humana performar tão bem nos cinemas é o principal antídoto contra a famigerada “fadiga dos super-heróis”. O que estimula os estúdios a continuarem investindo em projetos cada vez melhores. Vida longa ao Homem-Aranha nas telonas e em outras mídias!
Ah é… O Hulk selvagem está de volta neste filme também, né? Bom, para o futuro, só resta para os fãs saberem se os amigos Vingadores vão visitá-lo ou resgatá-lo do hospital psiquiátrico ou se estarão tão presentes para ele quanto estiveram no funeral do Pantera Negra. Amigos da onça.


