
Créditos da imagem: Digger (Reprodução)
Por Bernardo Carvalho Marujo.
Eu não consigo parar de pensar em Digger (2026). Em todo aspecto, na verdade: o marketing confuso; a recepção terrível; mas especialmente o filme em si — em sua glória esquisita e deprimente. Cada escolha desse filme parece dedicada a fazê-lo falhar e, mesmo assim, não consigo tirar o olho, parar de ler as críticas, parar de tentar entender por que ele existe. É uma obra-prima subversiva? Um elefante branco pretensioso? Como reagir a um filme que parece guardar nada além de rancor por seu espectador (e por si mesmo, por extensão)? Nenhuma dessas perguntas pode ser respondida sem pular nas entranhas desse monstro; então, caso ainda tenha interesse em ver, recomendo guardar esse texto, arrumar alguma forma de assistir (não acho que ele vai resistir muito tempo nos cinemas) e quebrar a cabeça comigo.
Vindo do diretor mexicano Alejandro G. Iñárritu, Digger é um filme sobre o titular Rockwell Digger (Tom Cruise), um milionário barão do petróleo que, devido a uma negligência constante em relação à segurança ambiental, libera um gigantesco iceberg em direção à Europa. Acompanhado por um excelente elenco secundário com Riz Ahmed e John Goodman, o filme satiriza as figuras do poder americano… Mas isso não é o filme de verdade, apesar do que o marketing faz você acreditar.
Iñárritu transforma a sátira política cansada de filmes como Não Olhe Para Cima (2021) em um pano de fundo para comentar as relações entre arte e poder. O filme nada mais é do que uma peça de teatro dentro do seu próprio universo; os eventos dela realmente aconteceram e destruíram o mundo, e aqui temos uma mera recriação artística. Porém, ao contrário de Birdman (2014), onde Iñárritu também trabalha a mesma temática metanarrativa, essa revelação demora cerca de vinte minutos para acontecer, e vemos bem menos do “mundo real” por trás da paródia bombástica.
Não me surpreende, portanto, a quantidade de críticas negativas. Digger pede muito da audiência; essencialmente, que gostem de dois filmes quase opostos: uma sátira à la Doutor Fantástico (1964), com Tom Cruise gritando com um sotaque texano; e um comentário metalinguístico à la Adaptação (2002). Na geração de sequências, reboots e filmes formulaicos, temos aqui um filme de 160 milhões de dólares, estrelando um ator extremamente popular, que não é só diferente, mas desafiador — tanto para o público quanto para a crítica.
Fora a mistureba de gêneros e as duas narrativas diferentes, o aspecto que mais contribui para esse desafio é a tese final de Digger: arte não muda o mundo. Essa ideia é tão óbvia, mas ao mesmo tempo completamente contra tudo o que a maioria dos filmes preza; a ilusão de que você é uma pessoa melhor por ter comprado um balde gordo de pipoca e sentado numa cadeira por uma hora e meia. O fim de Digger é um dos momentos mais deprimentes que já experienciei em um cinema; as pessoas, gritando e rindo da sátira de homens perversos, voltam para o mundo que foi destruído por eles. E eu, que passei o mesmo tempo rindo dessas caricaturas, agora devo voltar para meu próprio mundo em ruínas.
Não importa se vemos os vilões de nossa história pela paródia ou pela ótica da verdade: satirizá-los ou demonizá-los não lhes tira o poder. E apesar de existir, sim, alívio em gritar com um espantalho vestido com as roupas dos homens que destruíram seu futuro, ele foi erguido com o dinheiro de homens igualmente capitalistas para transformar seu ódio em lucro. A peça de teatro que espelha a obra fílmica foi produzida com o dinheiro do sobrinho de Digger, que, apesar de todos os crimes de seu tio, permanece igualmente poderoso, indicando que, mesmo após a morte, sua família continua no topo.
E essas dinâmicas de poder e a incapacidade de arrancá-lo da mão dos que mais o possuem estão escancaradas na cena que é, sem dúvidas, a melhor de todo o filme — e, para mim, a melhor do ano. Digger, admitindo todos os seus crimes contra a humanidade, admitindo seu papel de carrasco e se jogando na frente do tribunal das Nações Unidas em um monólogo e plano-sequência de dez minutos, combinando uma atuação sensacional de Tom Cruise com uma direção impecável. “A mãe natureza ama um vencedor”, e, diante dessa simples máxima vemos como toda a lógica e a verdade, toda justíssima indignação se torna meros “blá, blá, blá”.
Divisivo, cínico e deprimente, é muito difícil assistir a Digger e não ter uma opinião forte. Mas acredito fielmente que esse é o tipo de obra com que o tempo será generoso, e talvez em alguns anos seja vista com um pouco mais de boa vontade. Mas guardo esse texto para que saibam: eu sempre amei esse filme maluco.


