Lanternas: humano demais, mas só

Por Felipe Stenner.

A premissa de despir super-heróis de seus uniformes coloridos, descendidos das fantasias de artistas circenses e luta livre – como provocou Nicholas Cage recentemente –, para mergulhá-los em narrativas mais cruas ou até investigativas não é necessariamente uma novidade no gênero, mas em Lanternas, série original da HBO Max que encerrou sua primeira temporada no dia 4 de outubro deste ano, essa escolha criativa assume o leme de absolutamente toda a atração.

Sob a batuta do showrunner Chris Mundy e com a coprodução de Damon Lindelof (showrunner da minissérie Watchmen de 2019), a produção estrelada por Aaron Pierre (John Stewart) e Kyle Chandler (Hal Jordan) consolida a promessa de James Gunn, CEO criativo da DC Studios, de entregar um “True Detective espacial”, independentemente de essa ideia de emular a série de investigação, criada por Mundy e Lindelof anteriormente, soar boa ou não para os fãs do personagem. Contudo, o que se materializa nas telinhas é uma constante e agridoce dicotomia que oscila entre a inegável genialidade de seus diálogos, típica de uma série de selo HBO, e as severas amarras de um orçamento visivelmente estrangulado, excluindo enorme parte do “espacial” exigido para as histórias dos Lanternas.

Primeiramente, vale dizer que esta série já era polêmica bem antes de seu primeiro episódio ver a luz do dia: stills e trailers que não empolgavam de Hal e John andando à paisana no meio do deserto e sem nada verde, Lindelof brincando que removeu o “Verdes” do título de “Lanternas” porque “todos concordavam que era estúpido” e o próprio consagrado quadrinista Grant Morrison acusando os criadores da série de não entenderem os personagens e criticando a própria gestão de Gunn. Dito isso, retiremos o elefante branco da sala: para uma série que deveria trazer de volta personagens afastados do live-action há 15 anos (desde o fracassado e zoado filme Lanterna Verde com Ryan Reynolds em 2011) e celebrar a força policial intergaláctica munida das armas mais imaginativas do universo, falta a Lanternas o essencial fator “uau”. A impressão latente é que a esmagadora maioria da verba investida foi drenada nas reformulações de bastidores, que originalmente contava com Alan Scott, Simon Baz e Jessica Cruz como os Lanternas protagonistas.

O resultado é o inexplicável rebaixamento de semideuses cósmicos ao nível de heróis urbanos que preferem viajar de carro a voar, ou que precisam carregar uns aos outros de cavalinho, como sugere Hal a John. A ausência crônica de alienígenas caracterizados sequer com maquiagem prática – disfarçados de humanos pela desculpa esfarrapada de que as feições originais até dos Guardiões do Universo (chefes da Tropa dos Lanternas Verdes), que são basicamente homenzinhos azuis, causariam tanto desconforto na Terra quanto a verdadeira forma dos marcianos da DC (num universo em que superseres como o Tubarão-Rei já existem há 300 anos aliás) – beira o desrespeito com a estética da franquia. Até mesmo o que era para ser o “canto das sereias” de A Odisseia (2026) aqui, utilizado na tortura sensorial de John por Antaan, um aspirante pobre a Atrocitus interpretado pelo treinador de Todo Mundo Odeia o Chris em 2009 (Paul Ben-Victor), soa como uma imitação econômica e menos inspirada do sofrimento infligido a Bix Caleen na magistral série Andor (2022-2025). A regra de ouro do audiovisual, “show, don’t tell” (mostre, não conte), é frequentemente esquecida aqui.

A despeito da pobreza plástica, a âncora que dá valor à produção e honra o legado HBO é o indubitável esmero de seu texto. O nível de escrita brilha mais do que a aura do Lanterna Verde, literalmente, na dinâmica entre Pierre e Chandler, sustentando a atração ao humanizar figuras que carregam as dores de pessoas reais e dilemas palpáveis. Aaron Pierre entrega um John Stewart com aparência e atitude, na maior parte, verossímil aos quadrinhos e socialmente engajado, cujos posteriores questionamentos ao sistema colidem violentamente com a criação esquisita e extremista imposta por seus pais, estranhamente uma self-insert (autoinserção) declarada da roteirista Vanessa Baden Kelly como mãe, além de outras declarações que dividiram a fanbase. Já Kyle Chandler transborda um carisma absurdo no papel de Hal Jordan. A controversa e corajosa decisão de matar o mais icônico Lanterna Verde de todos logo no primeiro episódio, transformando-o num fantasma construto do anel, tipo um backup de memória do portador (o hilário conceito do “Halograma”), poderia arruinar a temporada. Ainda assim, mesmo com um Hal pontualmente racista, arrogante, machista e depressivo, a química entre os dois Lanternas, John como aprendiz e Hal como tutor, é magnética. Os embates, as desconfianças e o humor ácido – vide a hilária crítica social no interrogatório envolvendo como Obama é visto no interior do Nebraska e a fama de Harry Potter, outra propriedade Warner, na cultura humana, ou John casualmente “comendo no prato” de outro homem duas vezes – constroem os melhores momentos da temporada.

Para os fãs mais puristas, contudo, as pesadas alterações na mitologia da DC exigem estômago. A ousada escolha de deturpar os Guardiões, transformando-os em patrões corruptos que realizam entrevistas de emprego intergalácticas para semear “soldadinhos leais”, subverte o âmago da Tropa de forma indigesta. Pior ainda é a substituição do alicerce primordial da força de vontade (mencionada rapidamente em apenas um episódio) pela mera questão da ausência de medo – um equívoco narrativo que ignora a análise do núcleo dos Lanternas Verdes de que ter força de vontade é justamente ter o potencial de superação do seu medo, além de anular sumariamente a existência de heroínas complexas como Jessica Cruz, cuja luta diária contra o estresse pós-traumático a torna a Lanterna mais fascinante de sua geração. Em soma a isso, a trama ainda é presenteada com as fracas manipulações de Sinestro (Ulrich Thomsen), que mal aparece e não é Lanterna Amarelo, e pela hipócrita privatização do anel nas mãos do babaca Guy Gardner (Nathan Fillion), que trabalha cinicamente para a megacorporação de Maxwell Lord, como já vimos em Superman (2025), enquanto usufrui de uma bateria de anel que não esgota como a de Hal Jordan, que acaba sempre que é conveniente ao roteiro, mas consegue durar por dez anos com cinco por cento de carga, o que é igualmente conveniente.

O suspense arquitetado ao redor do planeta bizarro tomado por um gás que emula os delírios do Espantalho, vilão do universo do Batman (bastante referenciado nesta série), e o macabro mistério da cidade de Rushville, cujos habitantes perfeitamente saudáveis escondem o segredo de abrigarem Caçadores Cósmicos, antigos robôs dos Guardiões para policiar o universo que deram errado antes da criação da Tropa e viraram exterminadores em massa, envelopam a série numa atmosfera investigativa instigante, pontuada por divertidos acenos a Midway City (presente nas HQs do Gavião Negro e em Esquadrão Suicida de 2016) e a estruturas narrativas fragmentadas em distintos pontos no tempo à la Arrow (2012-2020). No entanto, o desfecho da temporada escancara novamente o teto financeiro do projeto: o season finale falha amargamente em traduzir a magnitude do desastre que vimos os Caçadores Cósmicos representarem até então e não nos faz temer pelo escopo do evento.

Se a lanterna de Sinestro tomada por John surpreendentemente revelou uma luz verde em vez da ansiada ignição amarela do medo, o encerramento ao menos deixa faíscas promissoras para o futuro – como a chance real de ressurreição do Hal original. Com os fortes rumores de que o roteirista e escritor de quadrinhos Tom King e seus pesados hiperfocos em depressão e suicídio ficarão de fora do segundo ano, resta a esperança de que James Gunn, quem tanto elogiei há alguns textos atrás neste mesmo blog, também resolva seus próprios daddy issues recorrentes em suas obras e em seu universo compartilhado. Lanternas pode ter estourado em sua temporada de estreia para o público geral leigo em HQs como um cativante e charmoso drama investigativo sustentado no gogó de seus protagonistas, mas precisará urgentemente abrir os cofres se quiser, de fato, fazer jus à luz esmeralda no DCU (DC Cinematic Universe).

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