
Por Bernardo Carvalho Marujo.
Christopher Nolan, diretor de Interestelar (um homem tentando voltar para casa), Dunkirk (um grupo tentando voltar para casa) e Oppenheimer (um homem que vence uma guerra por meio de uma grande invenção), decidiu adaptar a Odisseia — a história primordial sobre o homem que vence a guerra com um invento e precisa levar seus homens de volta ao lar. Uma empreitada em partes iguais previsível e ambiciosa.
Qualquer cineasta que adapte uma narrativa de quase 3 mil anos carrega ambição; alguns diriam megalomania. A fronteira entre as duas, porém, é demarcada pelo resultado em tela. Resta saber: Nolan conseguiu transpor esse épico de monstros e ambiguidades morais para uma nova audiência ou, perdido no próprio ego e em vícios criativos, simplificou a história sem trazer nada de novo para a conversa?
A trama acompanha o herói grego Odisseu (Matt Damon), rei de Ítaca, em sua jornada labiríntica de dez anos após a queda de Troia, enquanto Penélope (Anne Hathaway) resiste ao cerco dos pretendentes que saqueiam o palácio e ameaçam o herdeiro Telêmaco (Tom Holland) — dinâmica orquestrada sob a clássica montagem paralela e não linear do diretor.
À primeira vista, a narrativa se mantém muito parecida com o épico — meu grande medo ao entrar no cinema. Não faltam em Hollywood adaptações submissas que recitam clássicos sem ter nada de interessante a dizer. Surpreendeu-me encontrar aqui temas ricos, que dialogam com a tradução de Emily Wilson e com a história da Grécia pós-Era do Bronze. Nolan, apesar de seus tropeços costumeiros de roteiro, acerta ao não tratar a obra como sagrada: ele mistura gêneros e conceitos para dissecar um homem consumido pela culpa que, por meio de um truque, quebrou o mundo dos deuses e a boa vontade entre convidados e anfitriões.
Para citar a versão da história que inspirou o diretor: “Conte-me de um homem complicado, musa”. Odisseu sempre se definiu por sua complexidade moral; quem for ao cinema buscando isso, contudo, sairá desapontado. Matt Damon entrega um homem relativamente simples, racional e empático, cujo único ato imoral é o cerco de Troia — curiosamente, um dos menos problematizados no livro. Desaparece quase todo o seu ego gigantesco: exceto pelo momento em que alveja o ciclope, ele se aproxima muito mais de um herói moderno do que de um grego. Os deuses também recuam para as margens, operando como forças cegas da física — trovão, chuva, maré — em vez de personagens reais. A única exceção é Atena (Zendaya), que funciona menos como deusa da sabedoria e mais como uma projeção da consciência e da culpa do protagonista.
Essas mudanças drásticas, que certamente afastam os fãs dos originais, são o que viabiliza uma versão surpreendentemente inovadora sem trair o texto de Homero. O eixo da Odisseia é o conceito grego de xenia, referido no filme como Lei de Zeus (por uma razão que honestamente me escapa), isto é, a regra de ouro entre hóspede e anfitrião. A grande sacada de Nolan foi usar a Guerra de Troia — em especial a corrupção de um presente transformada em massacre — como o pecado original que quebra a xenia por todo o mundo. Por isso a presença dos deuses é diminuta: a relação entre homens e o divino foi rompida. E por isso temos um Odisseu muito menos cinza: sua culpa se concentra quase inteiramente no Cavalo de Troia.
Outro ponto inovador é a mistura de gêneros. A cena do ciclope ganha fotografia e iluminação que se assemelham muito ao terror; a bruxa Circe (Samantha Morton) transformando os marinheiros em porcos usa efeitos práticos dignos de body horror; e a trilha de Ludwig Göransson cria uma atmosfera de sonho fantástica na cena das sereias, replicando a sensação abafada de escutá-las com tampões nos ouvidos.
Ainda assim, os vícios do diretor cobram seu preço. O diálogo oscila entre o aceitável, o muito bom e o profundamente estúpido. O maior tropeço são as duas vezes em que personagens dizem: “Nossa Era do Bronze está colapsando” — um anacronismo que subestima o espectador ao explicar em voz alta a tese central do filme. tem uma tendência a ser muito corrido, picotado por cortes rápidos demais e diálogos desesperados para chegar à próxima cena. Porém, o filme escapa do maior problema do diretor ao entregar um clímax de forte síntese temática. Ali, Nolan combina com rara felicidade a escala épica à gravidade sentimental — união que tem perseguido em sua filmografia recente.
Conte-me então a história de um diretor complicado, Musa. Com todos os seus vícios e fetiches, Nolan entrega uma adaptação inovativa e acessível para uma nova audiência: retira camadas da complexidade psicológica original, mas ergue um espetáculo cinematográfico que acolhe quem nunca leu Homero e instiga quem conhece as histórias por trás. Assim como Odisseu ao voltar para casa, Odisseia (2026) é bem diferente, mas basta o soar do arco retesado para ter certeza de que ainda guarda muita da mesma grandeza.


