(United States Department of Agriculture / Via Instagram)
Por: Alice Giovana
Existe uma grande diversidade de grupos dentro de uma sociedade, amontoados de pessoas que se unem, conectadas por crenças, ideias, lutas ou mesmo por indignação. A internet tornou a formação desses grupos um fenômeno ainda mais fácil de se acontecer, fazendo da distância um fator irrelevante para a comunicação, transformando a conexão entre as pessoas em algo tão simples quanto um like ou compartilhamento em uma postagem, e trazendo um fator que elimina qualquer possibilidade de que alguém se sinta inapropriado em um grupo: a possibilidade de ser anônimo.
Este fator traz aos usuários um novo leque de oportunidades, afinal, o anonimato proporciona a perigosa noção de impunidade, que leva os seres humanos a demonstrarem seus piores traços sem pensar nas consequências, expondo qualquer defeito que esteja escondido nas sombras.
Um caso recente, de janeiro deste ano, ilustra como essa sensação pode causar consequências reais. No caso em questão, um adolescente de treze anos, residente de Mossoró, no Rio Grande do Norte, recebeu críticas na internet após aparecer na formatura de suas primas utilizando um uniforme militar nazista e fazendo uma saudação ao movimento (braço direito estendido). Acontece que, ao se aprofundar no caso, internautas acharam nas redes sociais do garoto frases, imagens e diversas outras formas de apologias nazistas que não foram só aceitas ou ignoradas, mas elogiadas e apoiadas por familiares e seguidores.
A apologia ao regime fascista escancarado em vídeos, palavras e imagens não estava sendo escondido: nem pelo jovem, que sequer entendia a gravidade da situação, quanto pelos responsáveis, que se sentiram impunes ao compartilhar as imagens.
Mas e quando essa sensação não é fortalecida apenas pelo anonimato e pelos grupos dentro dos ilimitados domínios da internet, mas também pela influência de grandes figuras que tentam, por debaixo do tapete, espalhar extremismo e mensagens de ódio? E quando o responsável pelos atos possui reconhecimento global, um forte grupo de seguidores, influência e poder sob a política, não apenas do próprio país mas de grande parte do mundo?
Durante o século vinte, grupos extremistas de direita, fascistas e neonazistas tomaram o leite como um símbolo de “pureza racial”, associando o consumo de laticínios ao fortalecimento e purificação do sangue ariano (pele clara, olhos azuis e cabelo loiro). Com o tempo, o leite se fortaleceu principalmente dentro da internet como um forte apito de cachorro, ou seja, um símbolo usado por um grupo para codificar uma mensagem, fazendo-a passar despercebida
por outros grupos.
Não há inocência na utilização de um apito de cachorro. As comunidades que os usam tem noção do quão problemáticas são suas mensagens e, por isso, optam por fortalecer a comunicação entre o grupo sem que outros percebam, até que ele esteja grande o bastante para bater de frente com a oposição. Essa forma de codificar mensagens não passa de uma estratégia para utilizar discursos preconceituosos e extremistas evitando consequências externas e atingindo outras pessoas que concordam com isso de modo covarde.
Apesar de tudo isso, continua sendo um modo eficaz de espalhar posicionamentos extremistas de modo nichado, evitando o linchamento, e o presidente Donald Trump sabe bem disso.
No dia 14/01/2026, o presidente dos Estados Unidos sancionou a lei Whole Milk for Healthy Kids Act (Ato do Leite Integral para Crianças Saudáveis), que foi divulgado através do movimento Make Whole Milk Great Again (Faça o Leite Integral Bom de Novo), uma paródia da frase fortemente usada pelos direitistas durante a campanha da última eleição de Trump, MAGA ou Make América Great Again (Faça a América Boa de Novo). A lei consiste na obrigação da reintrodução ao leite integral nas escolas além de permitir que os pais possam solicitar uma substituição ao leite para os filhos sem a necessidade de receita médica. A primeira vista a ação parece um grande ato para o avanço da saúde no ambiente escolar, a grande questão em tudo isso é a forma como esse movimento está sendo divulgado por políticos e seguidores da extrema direita, incluindo Trump.
Desde uma imagem do presidente estadunidense com um bigode de leite olhando para um copo cheio da bebida até um vídeo gerado por inteligência artificial de Robert F. Kennedy Jr (Secretário de saúde e direitos humanos dos Estados Unidos) tomando um copo de leite também com o característico bigode marcado pelo leite, a divulgação um tanto quanto problemática chamou a atenção de diversos internautas que logo captaram o simbolismo político por trás da sanção da lei, aparentemente, inocente.
O grande problema de toda essa questão não é a campanha em si, mas a forma como o presidente de uma grande potência política se sente confortável em divulgá-la abertamente tendo conhecimento do significado por trás deste símbolo. Que seja ou não uma confusão ou uma ação proposital, Donald Trump tem a obrigação de impedir que qualquer simbologia fascista ou nazista seja vista como algo banal ou aceitável pelo governo, afinal, isso pode levar os seguidores do movimento a sentirem como se essa ideologia fosse algo aceitável por aqueles no poder.
Ainda que fosse uma simples coincidência, Donald Trump conseguiria de diversas formas evitar que seu nome e sua campanha política fossem atreladas ao nazismo, através de pronunciamentos, campanhas contra o movimento ou mesmo apoio financeiro ou social a causas que vão contra tudo isso. Entretanto, o presidente se mantém calado, deixando que os boatos se fortaleçam e levando a acreditar que ou ele não se importa em ser relacionado a ideologia fascista, ou que se relacionar a isso, mesmo que de forma discreta, é realmente a sua intenção.
Independente do motivo pela falta de posicionamento de Trump, é indiscutível que a indiferença mostrada pode causar grandes consequências ao público que pode ler da forma como bem entender, se sentindo confortável para espalhar e agir de acordo com o movimento nazista em nome do presidente e do sentimento de impunidade transmitido.
Muitas pessoas se perguntam como líderes políticos, com suas ideias extremistas, preconceituosas e ideologias fascistas conseguiram manter influência sob tantas pessoas, e uma resposta possível parte do entendimento que esses tipos de movimentos não se tornam tão poderosos de um dia para o outro, eles são construídos de forma meticulosas através de pequenas ações veladas, até que tomem força para se tornarem maiores e imparáveis.
Agora, nesse momento, como resposta a força que esses apitos de cachorro vem tomando, é essencial que voltemos a pregar a mensagem de que não importa o quão pequeno um ato nazista, fascista ou preconceituoso seja, não importa se naquele momento aquele sinal não afeta alguém de forma direta, a gravidade desses pequenos sinais não pode ser diminuída ou ignorada.
A educação salva e pode conscientizar muitos que não fazem ideia das consequências que o nazismo já causou na história, mas caso eles não queiram ouvir, façam com que voltem a ter medo. Do mesmo modo como uma fruta podre pode infestar um pé, uma pequena opinião ou símbolo pode influenciar milhares de pensamentos. Mesmo que o estrago não seja aparente, como nos casos mencionados, o que pode acontecer quando eles perderem o controle? Ou pior, quando as pessoas perderem o medo do julgamento ou das consequências?
Se o modo pacífico de impedir tamanho estrago não funciona, então estude, discuta, denuncie, e não espere até que a narrativa se repita. Faça a sua parte para que as próximas gerações não tenham que reviver o que foi escrito nos livros de história.
FOLHAPRESS. Polícia e MP apuram uso de traje nazista por garoto de 13 anos em
formatura das irmãs. Disponível em: <https://www.otempo.com.br/brasil/2026/1/13/policia-
e-mp-apuram-uso-de-traje-nazista-por-garoto-de-13-anos-em-formatura-das-irmas>. Acesso
em: 19 fev. 2026.
MARQUES, E. O que se sabe sobre jovem que usou uniforme nazista em festa de formatura.
Disponível em: <https://www.diariodepernambuco.com.br/brasil/2026/01/11704997-o-que-
se-sabe-sobre-jovem-que-usou-uniforme-nazista-em-formatura.html>. Acesso em: 19 fev.
2026.
HISING, E. Adolescente usa traje e faz saudação nazista em festa de formatura de Medicina
no RN Disponível em: <https://www.estadao.com.br/brasil/adolescente-usa-traje-e-faz-
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2026.
USDA. Whole Milk is Back: President Trump Signs Whole Milk for Healthy Kids Act.
Disponível em: <https://www.usda.gov/about-usda/news/press-releases/2026/01/14/whole-
milk-back-president-trump-signs-whole-milk-healthy-kids-act>.
TAYAG, Y. The Atlantic. Why the Trump Administration Is Obsessed With Whole Milk
Disponível em: <https://www.theatlantic.com/health/2026/01/whole-milk-saturated-fat-
trump-kennedy/685669/>.
Alice Giovana é graduanda do 2° período do curso de Jornalismo da PUC Minas.


