Arlequina – Casos de família

Por Felipe Stenner.

Em março de 2025, a quinta temporada de “Arlequina”, série animada e adulta produzida pela HBO Max, chegou ao fim com 10 episódios ao todo. Além das quatro outras temporadas, ela também teve um especial de dia dos namorados (fevereiro de 2023) e um spin-off do “Homem-Pipa” (julho de 2024).

A personagem foi criada originalmente pelos lendários Paul Dini e Bruce Timm a princípio para ser uma mera cúmplice feminina de outro personagem emblemático: o Coringa, da série Batman de 1992. Ao contrário do que muitos pensam, Arlequina não surge nas histórias em quadrinhos e caiu nas graças do público desde que esteve presente no universo dos super-heróis. Sua história foi mais explorada e aprofundada (incluindo o passado de psiquiatra como Dra. Harleen Quinzel) em episódios posteriores da mesma animação do homem-morcego e, posteriormente, ao migrar para os quadrinhos, bem antes de alcançar o auge de sua popularidade nos cinemas em 2016. É aí que, na cultura mainstream, explode com a interpretação de Margot Robbie no filme “Esquadrão Suicida” dirigido por David Ayer – embora o filme em si não tenha agradado aos fãs e à crítica.

Desde seu nascimento até hoje, a palhacinha evoluiu de uma vilã ajudante obcecada pelo príncipe palhaço do crime para uma anti-heroína livre e empoderada. A rica jornada da personagem passa por problemas sociais sérios sofridos por muitas mulheres – relacionamentos tóxicos, codependência e violência doméstica – até processos de autodescoberta identitária e sexual.

Já a série animada própria de “Arlequina”, iniciada em 2019, apesar de haver intenção de ser uma autoparódia do universo DC, faz um bom trabalho em adaptar toda essa caminhada da personagem para a telinha, acrescida sempre, por escolha criativa dos desenvolvedores da série, de um humor e linguajar ácidos, além de não se acanhar no alto nível de violência e conteúdos explícitos. Entretanto, mesmo com uma parte do público abraçando o teor adulto, o modelo de humor adotado na série pode não agradar a todos, principalmente os que tradicionalmente preferem assistir com o áudio original em inglês, pois não há respiros entre as “punchlines” e a próxima fala dos personagens.

A propósito, eles falam rápido o tempo inteiro, o que contribui, inclusive, para a dificuldade de se dublar a série em português, já relatada pela dubladora da protagonista, Evie Saide. Mas, mesmo assim, juntamente com toda a equipe de dublagem, ela realiza um trabalho de excelência – um padrão há muito tempo reconhecido nas versões brasileiras – e bastante divertido também, diga-se de passagem. Por exemplo, na quinta temporada, Lois Lane exclama: “Minha santa Glória Maria!” – o que inevitavelmente arranca sorrisos e faz com que nós, jornalistas e estudantes de jornalismo brasileiros, levantemos taças imaginárias para o ar em um saudoso brinde à icônica e autêntica figura que marcou a mídia no país.

Por mais que seja impossível esquecer o espetáculo conceitual que foi o primeiro episódio da primeira temporada, na minha opinião uma das obras que melhor interpretou o tipo de relação (e fascinação) que Batman e Coringa nutrem um pelo outro, a quinta temporada dá uma certa renovada na animação. Enquanto a primeira demonstra a insalubridade que se submetia Arlequina antes de finalmente perceber, com a ajuda de sua melhor amiga, Hera Venenosa, que não existia um verdadeiro amor correspondido entre ela e o palhaço, a quinta aborda a monotonia da vida de casal de Hera e Harley.

A série se passa a maior parte em Metrópolis e há situações de extremo risco para a cidade em todo o arco que envolve o vilão Brainiac e Lena Luthor – irmã negligenciada por Lex. Para os que podem vir a se queixar da falta de atividade do Superman durante toda a temporada, é necessário compreender que a série não se leva a sério no universo padrão – motivo pelo qual não há polícia a cada barbárie cometida por Arlequina e seus amigos. Mesmo assim, o enredo ainda colaborou para justificar bem a ausência do personagem. Comumente tratado como “Deus ex-machina” – personagem ou recurso do roteiro que resolve uma situação complicada sem esforço, Superman fez um retiro sabático para o outro lado do universo, de onde ele não poderia nem ao menos ouvir o desastre que acontece na Terra com sua super audição.

Outro ponto positivo da animação é Hera Venenosa, Pamela Isley, muito desenvolvida desde o início como uma co-protagonista das aventuras, de modo que se essa temporada da série se chamasse “Arlequina e Hera Venenosa” continuaria a fazer total sentido. Pamela teve o seu passado e relação maternal com o Frank, a Planta – espontâneo e carismático personagem boca suja criado na primeira temporada exclusivamente para o desenho – mais explorados na quinta temporada.

Uma curiosidade para aqueles que jogaram os jogos da franquia Arkham do Batman, é que os flashbacks da história da transformação de Pamela em Hera nessa temporada, incluem Jason Woodrue, personagem da DC conhecido como Homem Florônico, que inclusive as protagonistas enfrentam mais tarde. Ele é o responsável pelo ocorrido a Hera, de forma igual ao que é confessado por ela em seus arquivos de áudio colecionáveis no game Batman: Arkham Asylum.

Infelizmente, aqueles que, assim como eu, se afeiçoaram a Frank, tiveram de sofrer aqui com sua morte. A partir daqui, a série optou por substituí-lo pela recém-nascida Frankette, que simplesmente decidi ignorar a bizarra tecnicidade proposta pelo roteiro: Frank é “filho” de Pamela e gerou a nova plantinha a partir do cruzamento de seus genes com a própria, fazendo de Hera mãe e avó de Frankette ao mesmo tempo. Ademais, apesar de sua ausência sentida, o próprio espírito de Frank faz piada com a morte ao lado de Arlequina, Hera e uma horda de plantas viúvas.

Também é explorada uma releitura menos séria de Brainiac, o clássico vilão cibernético alienígena de Superman que engarrafa cidades e cuja origem é trágica: com sua família e planeta mortos, desenvolve um grau de esquizofrenia cômica que o incentiva na busca de sua diretriz. É válido pontuar que Bane, vilão do Batman bastante presente em todas as temporadas da animação e no spin-off “Homem-Pipa: Já É!”, não ignora o seu trajeto e permanece como pai da Cachinhos Dourados.

O Tubarão-Rei, outra figurinha carimbada na série, também se aventura na paternidade de sua ninhada de tubarõezinhos humanóides, depois de tê-los na temporada passada. E até o

Coringa, por mais incrível que pareça, toma suas responsabilidades como pai. Quanto a essas paternidades, Shaun, filho do Tubarão-Rei, e seu comportamento típico de um menino dessa idade, são as coisas que mais se destacam – com a exceção de alguns poucos exageros. Além disso, nada me tira da cabeça de que seu nome é propositalmente próximo da sonoridade da palavra “jaw”, mandíbula em inglês e cujo plural, “jaws”, é o nome original do clássico arrasa-
quarteirão de Steven Spielberg de 1975.

Como já deu para notar, essa temporada focou intensamente em família, nos tipos de laços nela construída e suas consequências destrutivas, com o significado dessa instituição social sendo crua e satiricamente conceituado por alguns personagens, sempre de um jeito duro e irreverente que poucas produções além dessa poderiam fazer. Apesar de acontecerem esses momentos de exposições reflexivas acerca de assuntos interessantes, o foco prezado por Arlequina é sobretudo de ser uma comédia adulta e autoparódia com os super-heróis da DC. Portanto, os espectadores ou fãs mais puristas que procuram por um material consistente na fidelidade do que se propõe a abordar, não irão se entreter e sim ficarão frustrados ao darem o play.

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