(Peter Weir / Via O show de Truman)
Por: Alice Giovana
Você já passou uma grande parte do dia deitado com os olhos vidrados na tela do celular, impressionado com a forma como todos os usuários parecem ter tudo aquilo que você sempre quis? Relacionamentos duradouros, estabilidade financeira, sucesso profissional ou acadêmico, apoio familiar, como se conseguissem equilibrar de forma perfeita sob uma bandeja instável cada um dos pilares da vida de uma forma que você nunca conseguiria, mas de alguma forma, eles conseguem.
A internet costuma ter esse efeito desejável em seus usuários, a tela, diferente de um espelho, te impede de olhar para o próprio reflexo e te estimula a querer tudo aquilo que você não tem, ou que não consegue se enxergar tendo, vendendo a ideia de que qualquer navegante é capaz de alcançar tudo aquilo que passa em sua tela e o fazendo ignorar suas próprias adversidades, trazendo uma ideia irrealista de que qualquer estabilidade pode ser alcançada com esforço, e que nada depende da situação social, econômica, mental, física, entre tantos outros obstáculos pessoais da vida de alguém.
Essas ideias são muitas vezes vendidas de forma discreta, uma introdução quase imperceptível de vídeos esteticamente agradáveis e narrativas animadas que passam essa mensagem antes que o usuário perceba, como por exemplo, as trends. Modelos de vídeo que bombam nas redes sociais, e em sua maioria, são identificáveis e carregam a ideia de algo que o usuário também conseguiria fazer, é que o traria certo tipo de atenção dentro do meio digital.
Recentemente, uma dessas trends em especial ganhou atenção, intitulada de “coisas performáticas que eu faço”, nesta trend, o internauta mostra uma sequência de costumes, escolhas cotidianas ou mesmo rotinas, normalmente esteticamente agradáveis ou cinematográficas que normalmente são feitas no intuito de passar uma imagem ou uma construção narrativa da própria persona, ou, de forma mais simples, performar segundo a trend seria construir hábitos a partir, não dá própria vontade, mas dá vontade de ser visto, percebido ou mesmo admirado pelas pessoas a partir de uma persona construída de forma inorgânica.
Apesar de inofensiva, a trend nos leva a perguntar, de onde vem a popularização da vontade de ser notado pelo outro? Claro, o ser humano sempre teve a necessidade da atenção e do entendimento daqueles por quem nutre algum tipo de sentimento, mas quando houve uma transição entre a necessidade da atenção dos que ama e a necessidade da atenção e admiração geral, até mesmo de pessoas que o usuário nunca sequer conheceu?
Além disso, também é de se pensar que, a caracterização e diferenciação em excesso nas redes sociais, traz também a descaracterização do indivíduo, que ao se espelhar no que vê de diferente dos outros, se esquece da própria essência e se entrega aquilo que é promovido pelas grandes massas.
Manic pixie dream girl foi introduzido no cinema como o arquétipo da idealização de uma personagem perfeita para o protagonista (na maioria das vezes, seu interesse romântico), que normalmente se vê em uma situação de vida deprimente. Habitualmente, o intuito da personagem na trama é centralizado em ser a mulher que, diferente de qualquer outro personagem, entende a melancolia do personagem central de forma profunda, mas que o ensina a encarar a vida de uma forma diferente, ela não tem quaisquer objetivo dentro de uma obra se não ser a salvadora do personagem central, até mesmo seus gostos e experiências pessoais são centradas naquilo que normalmente o interessaria.
Seguindo essa linha, dentro da internet, a performatividade tem esse papel em relação ao usuário. É uma idealização feita pelo próprio, normalmente sem utilidade a não ser fazer com que o mesmo veja a vida de uma forma romantizada, sendo um escape para situações de depressão e estresse diário. Em suma, o telespectador não faz a análise sobre gostar ou não da ação performática, como o protagonista de um filme apaixonado pela personagem idealizada, ele apenas quer ser visto, notado, admirado, e esquecer por um segundo dos próprios problemas, problemas esses que não vão ser resolvidos, apenas amenizados momentaneamente.
Como demonstrado em “500 dias com ela”, filme de 2009 estrelado por Joseph Gordon-Levitt como o protagonista Tom, essa idealização pode ser extremamente problemática e até mesmo irreal, mas também existem outras obras até mais antigas que retratam esse viés, como “O Show de Truman”, filme de 1998, em que o usuário se vê envolto num cenário fantasiado montado especificamente para agradar sua visão, mas, assim como Truman, interpretado por Jim Carrey, não importa o quanto seus movimentos calculados dêem a impressão de uma vida perfeita, seus problemas não desapareceram até que pare de escondê-los atrás de uma performance que o leva, por muito tempo, a ignorar sua real situação, um escapismo inútil das coisas que realmente nos prejudicam como sociedade.
Quando entramos nessa sequência de pensamentos, o plano de arrumar um emprego para melhorar a situação financeira, ter conversas saudáveis com a família ou frequentar profissionais de saúde para melhorar a convivência, ou mesmo começar protestos contra as desigualdades e injustiças sociais que todo dia dificultam a vida do usuário, são trocadas pela falsa utopia sentida no ato de se espelhar no outro, se sentir pertencente ou objeto de desejo, e aos poucos, sem perceber, o usuário faz exatamente o que é esperado pelos donos de grandes redes que buscam alienar as massas, se tornam ignorantes, alheios aos acontecimentos, não se aprofundam mais em qualquer tipo de discussão ou conteúdo, buscam o que é raso, performático.
É assim que fenômenos como o “brainrot”, “conteúdos short-forms”, “cultura da superficialidade” e etc, que se utlizam deste processo e de performance midiática e suas consequências são fortalecidos, entre discursos superficiais de “healtcare” e estética agradável aos olhos, o usuário perde sua verdadeira essência e se entrega aos costumes de uma grande massa, trazendo enfim, para o usuário um grande questionamento: Você quer performar, ou quer ser visto?


