
Por: Jeania Cristine
Contém spoilers
Na sala de cinema, assim que encerrou “O Agente Secreto”, três pessoas na fileira atrás de mim se levantaram revoltadas e exclamaram de alto e bom tom que o final era ruim e o filme superestimado. Me impressionou como um impacto daquele foi apenas superficial para aquelas pessoas. Acredito que muitos entraram na sala com expectativas de assistir uma narrativa americanizada, onde o vilão se dá mal no fim e o mocinho salva o mundo. Mas isso é padrão de Hollywood, e isso aqui é cinema brasileiro. Se tem algo de que nosso cinema é capaz, é construir narrativas inteligentes, metaforizar, provocar reflexões e contar histórias reais com originalidade. Não é um roteiro sobre perseguição policial. Para além disso, é a história apagada do país.
A obra se passa em 1977, em Recife, 13 anos após o início da ditadura. Conta a história de Armando, um ex-professor de universidade que, com seu filho ainda criança, vive uma constante fuga dos militares. A cena inicial chama bastante atenção, pois logo nos primeiros minutos é perceptível uma metáfora sobre a história do Brasil por meio das cores, que são um tipo de linguagem utilizada no cinema para despertar emoções e estabelecer analogias. Armando, vivido por Wagner Moura, dirige um carro. Interpretei Armando como uma metáfora do povo e o automóvel, um fusca amarelo-canário, uma representação do Brasil – amarelo tal como a cor da bandeira nacional. Ao estacionar em um posto de gasolina à beira de uma estrada, um policial se aproxima do carro e tenta de todas as formas encontrar qualquer infração mínima, algum detalhe que pode ser utilizado para apreender o veículo e o condutor.
A cena se prolonga por longos minutos e mostra a autoridade entrando no carro, inspecionando, agindo com supremacia sobre o motorista. O telespectador torce para aquilo terminar rápido, a cada comando feito pelo policial a sensação de perigo se acende. A libertação é sentida quando o condutor é liberado e o fusca amarelo-canário caí na estrada novamente rumo à Recife. Uma metáfora do povo brasileiro, que, mesmo violado, revistado, exaurido de todas formas por figuras militares, enche o tanque de coragem e continua sua jornada em busca de um futuro melhor.
Por meio da caracterização, o filme consegue construir identificação com o público, trazendo personagens completamente brasileiros, ricos em diversidade, sotaque, trejeitos, linguagem e estilo. Esse é um dos grandes traços de originalidade de “O Agente Secreto”: o retrato do Brasil. Consigo ver a Sebastiana como uma senhora do meu bairro, os avós de Fernando como meus vizinhos e o grupo de refugiados como se fossem amigos meus. A conexão com o público é fundamental para a construção de uma narrativa cinematográfica, pois é, a partir dela, que a história é lembrada e o espectador se vê refletido no enredo, se permitindo absorvê-lo.
O sentimento familiar cresce ao longo do filme através da alegria e da tristeza, da presença e da ausência de pai, mãe, filho, avô e avó. A ameaça constante que permeia a família transborda sentimentos de revolta. O público compartilha solidariedade ao assistir e abraçar esse ciclo de trabalhadores brasileiros que lutam para se proteger das amarras da ditadura. Isso leva as pessoas a se colocarem no lugar dos personagens, justamente por essa ser uma família próxima da realidade brasileira. Essa construção reúne contexto histórico, cultura e pertencimento coletivo para transformar o audiovisual em experiência social, formando laços de identificação entre a obra e o espectador.
Um paralelo com os dias de hoje é a história da “perna cabeluda”. Em uma das narrativas, é contada a história de um jovem estudante de agronomia que foi morto e lançado ao mar por autoridades. Não se explica o motivo e, ao estudar o passado, vemos que muitos casos nem sequer tiveram suas razões expostas. Bastava somente ter uma opinião publicamente contrária ao regime ou não se encaixar nos padrões normativos dele que um cidadão correria risco de vida. Logo depois, um instituto de ciências biológicas encontrou um tubarão com uma perna dentro, que pertencia ao rapaz assassinado, e a notícia se espalhou. Contudo, para desviar a atenção, foi lançada na mídia a história da “perna cabeluda”.
No filme, de repente se instaura uma atmosfera de terror, da perna que possui pêlos e vida própria e se esgueira em matas procurando as vítimas para atacá-las. A maioria delas são pessoas marginalizadas, cujas identidades e comportamentos não são aceitos socialmente. Em seguida, há um corte abrupto desse clima aterrorizante e fantasmagórico: nas manchetes da primeira página dos jornais, o caso foi publicado como se esse fosse um caso fantasioso e não real. Notícias assim espalhavam o medo por uma sociedade que já era amedrontada pela repressão.
Como estudante de comunicação, essa foi, para mim, uma das cenas mais emblemáticas do filme. Profissionais de comunicação possuem uma grande responsabilidade sobre o que produzem e impactam o imaginário da população. Construímos sentido em torno de temas e fomentamos debates, dando abertura para a expressão da verdade ou da mentira, podendo legitimar, recriar ou até ignorar e apagar histórias. A perna cabeluda diz muito sobre como atualmente, notícias servem de cortina de fumaça e funcionam como estratégias de manipulação midiáticas, sendo mobilizadas para distrair o foco de pautas importantes que contribuem com o desenvolvimento social. É possível estabelecer uma relação com os algoritmos das redes sociais, os quais são programados para entregar somente aquilo que agrada ao usuário, priorizando o engajamento, o dinheiro e o sucesso. Crescem os “influenciadores digitais”, que exercem – ou deveriam exercer – um papel de responsabilidade social sobre o desejo e estímulo de consumo do público na internet. Conteúdos fúteis, consumistas, vazios, sem propósito, enganosos e produzidos por inteligência artificial ou viciosos como casas de apostas, ganham cada vez mais alcance.
Toda essa conjuntura obedece à lógica da economia da atenção, uma forma de gerenciar informações a partir da qual somos bombardeados de estímulos visuais o tempo todo. Forma-se um ciclo vicioso que alimenta a dispersão da atenção social, limitando nosso foco para discussões relevantes. Nessa lógica, os algoritmos tornam-se a nossa “perna cabeluda” contemporânea, distanciando o debate social de acontecimentos importantes do agora, seja o aumento das tarifas de ônibus, as escalas de trabalho exaustivas no Brasil, a punição branda para crimes de feminicídio e muitas outras pautas sociais que deveriam provocar embate públicos. Isso vale a reflexão: quais são as pernas cabeludas que nos perseguem online no dia a dia?
Mesmo em 2026, há muitas pernas cabeludas acerca da história ditatorial. Pessoas que ainda defendem a volta do regime militar, porque acreditam em notícias falsas de que foi uma época em que as cidades eram mais seguras e os criminosos eram punidos. Na realidade, as centenas de pessoas presas e torturadas eram pobres, estudantes, religiosos que defendiam os direitos humanos, por exemplo, e trabalhadores que não concordavam com o autoritarismo.
A comunicação exerce um papel fundamental na reverberação de pautas políticas com olhar humanista para o progresso social. Produções como “O Agente Secreto”, conseguem despertar a consciência coletiva para a percepção de que, na autocracia, não há espaço para a dignidade e a justiça.
O filme também se passa no presente, momento em que duas garotas estão ouvindo as fitas de gravação da época, para transcrever a narração da história de Armando. Na minha interpretação, o desinteresse de uma das ouvintes e o fato da história ter sido transcrita para ser um arquivo guardado em um computador é uma crítica ao esquecimento da história de tantos que já sofreram pela perseguição na ditadura militar: seus nomes não são ditos, suas histórias não são contadas. Muitos mortos são anônimos.
Quem assistiu “O Agente Secreto” com a expectativa que ele fosse um “Ainda estou Aqui” versão perseguição policial, saiu do cinema frustrado. No caso da obra de Walter Sales, a família Paiva foi uma das poucos que, após muita luta, conseguiu um atestado de óbito e algum esclarecimento sobre o que aconteceu com Rubens Paiva, o patriarca desaparecido e assassinado. Eles conseguiram levar seu legado para o mundo, mas muitos são os cidadãos que saíram para trabalhar ou estudar e foram presos, desapareceram deixando a família em um vão de incertezas. Num futuro próximo, suas lembranças foram esquecidas.
O longa de Kleber Mendonça Filho fala sobre a memória: Fernando, o filho de Armando no presente, não se lembra muito do pai, e não precisa encarar a luta pela sobrevivência. Ao final, ele é presenteado com um pen-drive que contém os arquivos de áudios transcritos sobre a história do pai, mas não demonstra interesse por ela, se mostrando um pouco apático. O filme acaba ali, sem saber se ele procurou reviver a história, e é essa a chave do final. Quantas histórias esquecidas de perseguidos ressoaram para as próximas gerações? Quantos deram suas vidas defendendo a liberdade e terminaram apenas em arquivos sem acessos?
Quando esquecemos períodos históricos que marcaram a configuração do corpo social, abrimos espaços para estruturas corrompidas se manterem de pé. Nosso país ainda carrega resquícios de ditadura militar e é possível ver o reflexo disso em figuras de autoridade: a polícia militar que mais mata na Bahia, a tentativa de golpe de Estado em 8 janeiro de 2024 financiada por líderes políticos, e a idolatria a coronéis torturadores, como ex-presidente condenado, Jair Bolsonaro, em 2019, que ressaltou o coronel torturador Brilhante Ustra como “herói nacional”.
Ademais, é fácil cair em uma rede de algoritmos que propagam notícias falsas e estimulam a separação política no país, instigando o ódio popular de um contra os outros e encobrindo o verdadeiro problema que são as estruturas sociais. Não somos ensinados a reconhecer a autocracia, isso é resultado de anos de silenciamento. Manter esse resquício da ditadura ou tentar trazer de volta esse cenário covarde através dos atos de 8 de janeiro, é confortável para muitos líderes políticos que se baseiam em violência e discurso autoritários para controlar as massas e obter poder.
A consciência histórica remove o cabresto coletivo e abre os olhos para novas gerações. Na comunicação, nós contamos histórias e conectamos pessoas. É preciso relembrar o passado para que esse período nacional sombrio não termine morto e esquecido como o de Armando. A memória do país é a memória do seu povo e ela deve ser fortalecida. Sem isso, o passado se repete e o futuro pode virar ruína.


