Feito por Júlia Mattar

Em Les Champs Magnétiques (1921), o primeiro manuscrito surrealista, André Breton e Philippe Soupault discorrem sobre o procedimento de conhecimento adquirido a partir da experimentação como fator primário dessa nova vanguarda. Apesar do uso da palavra, a experimentação inferida por eles tem menos a ver com o conceito científico e ao uso da lógica e do racionalismo, e mais se assemelha aos princípios da intuição e inspiração poéticas sendo concretizados na forma de imagens. O racionalismo, para Breton, está intrinsecamente interligado a experiências humanas e, portanto, depende delas para encontrar qualquer resultado. A experiência humana, contudo, é limitada e acorrentada pelo próprio aparato lógico e pelo bom senso. Surge-se com esse movimento então, o desejo de externalizar aquilo que é característico da psique humana e basear sua arte, não no que pode ser visto ou ouvido, mas sim no que pode ser sentido e manifestado de um mundo e liberdade alcançado apenas por meio do subconsciente.
Os impactos causados pelas revoluções artísticas das vanguardas podem ser observados até hoje. Elementos vanguardistas mesclam-se à forma contemporânea do fazer cinema e exercem influência em diversos cineastas que integram esses recursos ao seu próprio método e estilo cinematográfico. O surrealismo, apesar de condicionado a um certo momento e contexto de criação, extrapola essa mesma condição e perdura como visão e concepção presente para além do estudo acadêmico. Suas visões e fundamentos permanecem atualizadas e conectadas com o presente e com as pessoas, a ponto de ser uma influente ramificação temática dentro do campo da sétima arte. Mesmo na atualidade, ouve-se ainda sobre artistas contemporâneos considerados integrantes e grandes influentes dessa corrente de pensamento.
Zbigniew Rybczyński é um cineasta polonês reconhecido principalmente por seu trabalho como curtametragista. Dentro de sua filmografia, Rybczyński se destaca por suas temáticas e elementos oníricos e experimentais, além do uso de animações e efeitos de pós- produção como recursos narrativos e de desenvolvimento tecnológico. Zbig, como é popularmente chamado, é um dos principais nomes responsáveis pela ferramenta de chroma key. A programação e desenvolvimentos de sistemas aptos a trazer a tela as imagens de suas produções é um dos destaques e maiores interesses do diretor, que trás o fator técnico como uma das características mais marcantes da linguagem audiovisual.
A obra de Rybczyński é fortemente influenciada pelas crenças de Luis Buñuel e pelas pinturas de Salvador Dalí. Para o cineasta, o cinema “É uma invenção que não é uma cópia da realidade, é imagem.” e portanto não se prende às convenções do real e possível. Zbig vê no cinema uma arte da subversão da realidade e uma forma de expressão da vida subconsciente. Para ele, cada um carrega consigo uma carga de afetividade que transmite a imagem e a vê não como é, mas de acordo com as determinações de seu desejo e estado de espírito.

Para trazer um panorama mais aprofundado dos elementos surrealistas presentes na obra de Rybczyński levaremos em conta a análise de uma tríade de curtas, sendo eles “Tango”, “Zupa” e “Capriccio No. 24”. Produzidos entre os anos de 1975 a 1989, os filmes têm como campo comum um estilo experimental de narrativa fundamentado em aspectos do ordinário porém sob uma ótica de reimaginação e ressignificação daquilo que é considerado cotidiano.
Toda a estranheza advinda de Capriccio No. 24 se dá, principalmente, à confluência de eventos corriqueiros infectados por uma veia do surreal em meio a mediocridade do dia a dia. Cenas de um casal que poderiam ser perfeitamente adequadas a qualquer ambiente habitual, como por exemplo um beijo em frente a um prédio, tornam-se potentes ao serem colocadas em meio a uma montagem cíclica e rítmica que realça as impossibilidades do que está sendo mostrado na tela. Os efeitos e a sobreposição se fazem presentes como forma de diálogo entre o diretor e o público. Quando várias réplicas de pessoas cospem e espirram ao som de uma melódia em acapella, nada se há para ser explicado racionalmente, apenas sentido e aceitado.
Outro artifício muito bem explorado nesse universo é o das repetições. Em Tango, a utilização de ciclos de movimentos individuais sendo repetidos incansavelmente enquanto sobrepostos por outros ciclos de indivíduos cria uma atmosfera não só onírica e irreal, mas também caótica e completamente incontrolável ao ponto de aflorar no espectador uma certa loucura irônica considerando o conhecimento prévio apresentado acerca de cada próximo passo. Apesar de ser amplamente utilizado na maioria de seus projetos, aqui o elemento da repetição alcança seu clímax ao juntar trinta e seis pessoas em diferentes fases e com diferentes realizações próprias dentro de um mesmo quarto e, aparentemente, ignorantes das demais presenças. E quando toda essa informação sendo despejada em nossos rostos se torna demais só existe uma opção: Rebobinar e começar de novo.
Outra grande fonte de interesse de Rybczynski é o estudo de tempo e espaço. De acordo com ele, “imagens são eventos que acontecem no tempo” e sendo assim, para produzir visualidades deve-se compor, adicionar o tempo e uma composição de espaço, e despertar esse movimento no espaço e sua relação com ele. A humanidade está sempre obcecada em observar a realidade interna em contato com uma realidade externa, esse é, primariamente, o nosso movimento no espaço. Zupa (1975) é uma grande tentativa de explicitar todos esses conceitos por meio de uma narrativa não linear e temporal. Se o presente é um momento tão ínfimo ao ponto de ser impossível delimitar sua existência, somos então seres feitos apenas de passado e futuro. E quando esses tempos colidem para retratar toda a história de amor e perda de um casal em oito minutos a uma mesa de jantar o questionamento que nos deixa é: qual seria o tempo verdadeiro dessa história?
De acordo com Buñuel “O mecanismo produtor das imagens cinematográficas é, por seu funcionamento intrínseco, aquele que, de todos os meios da expressão humana, mais se assemelha ao funcionamento da mente em estado de sonho”. Elementos esses do surrealismo, que se fazem presentes nos trabalhos apresentados de Zbigniew Rybczynski. Seu estilo e estética de pensar o fazer cinematográfico no mundo contemporâneo refletem fortemente essa ótica, possibilitando a perpetuação de vestígios do pensamento surrealista até os dias de hoje.
Referências Bibliográficas
DESNOS, Robert. O sonho e o cinema. Os sonhos da noite transportados para a tela. Cinema
frenético e cinema acadêmico. Amor e cinema. Melancolia do cinema.
BUÑUEL, Luis. Cinema – instrumento de poesia.
NADEAU, Maurice. O período heróico do surrealismo 1923-1925.
AUDIOVISUALIDADES E TECNOCULTURA: O audiovisual de Zbigniew Rybczynski
como território experimental de conexões múltiplas. Disponível em:
https://www.tecnoculturaaudiovisual.com.br/o-audiovisual-de-zbigniew-rybczynski-como-
territorio-experimental-de-conexoes-multiplas/. Acesso em 18 set de 2025.
Filmes Referenciados
ZUPA (1975) Zbigniew Rybczynski. Disponível em: https://youtu.be/0r4sEl6iLww?si=-
fPwTjdijeLDV5CI. Acesso em 18 set de 2025.
TANGO (1981) Zbigniew Rybczynski. Disponível em:
https://youtu.be/z27z7oLQb3o?si=GboZ9h3C6UxNgyLS. Acesso em 18 set de 2025.
CAPRICCIO NO. 24 (1989) Zbigniew Rybczynski. Disponível em:
https://youtu.be/_cZ8s5kHFPQ?si=uYjgss_J4w3sKJj4. Acesso em 18 set de 2025.

