VOCÊ NÃO É AQUELE “AMIGO WOKE DEMAIS” (MESMO QUE VOCÊ PENSE SER).

 

Muitos idosos encaram a geração atual como grandes ditadores de valores, um júri jovem preparado para bater o martelo frente a qualquer mínima injustiça, revoltados com problemas que, há uma década, não eram sequer considerados como empecilhos, mas que hoje se tornam centro de grandes discussões. Em outras palavras, gerações anteriores nomeiam a atual como “geração mimimi”, uma geração que não se conforma com o que é, ou já foi há muito tempo, que não hesita em reclamar em alto e bom tom sobre suas indignações e fazer ainda pior caso não seja ouvida. Mas e se o maior problema entre os jovens for justamente o contrário?

A expressão woke surgiu nos 1940, durante um período de fortes lutas raciais nos Estados Unidos. A palavra, originalmente pronunciada como wake (acorde), deu lugar a expressão “stay woke” (fique alerta), que dizia respeito à vigilância sobre casos de preconceitos, racismo e injustiças sociais. Anos depois, durante o movimento Black Lives Matter, protesto internacional que lutava contra racismo e violência policial, o termo foi encurtado como woke, designando aquela pessoa que está sempre alerta e em defesa às causas sociais, sejam elas feministas, anti-racistas, LGBTQIA+, etc. Posteriormente, o termo se tornou um guarda- chuva, “pessoa alerta a injustiças sociais” ou “pessoa extremista de doutrinação progressista” como significado no dicionário de Oxford.

O termo “aquele amigo que é muito woke” surge como uma sátira entre os anos de 2023 e 2024, trazendo a imagem de alguém exageradamente progressista, que problematiza pequenas situações diárias, e mais tarde passa a ser utilizada durante o início de frases por pessoas que apontam problemáticas em pequenas ações cotidianas dentro das redes sociais.

Ser woke foi apropriado e distorcido pela extrema direita e, de repente, os jovens que tanto são acusados pelas antigas gerações de apontarem pequenas injustiças e se rebelarem passam a sentir vergonha. Antes, ser woke era um sinal de força e resistência a favor das lutas que se acredita; hoje, fazer isso é visto como um exagero, uma piada para conservadores e direitistas que lutam contra tudo o que a cultura woke, em sua essência, lutou para conquistar. E essa não é sequer a maior surpresa. Que grupos conservadores zombem de pautas sociais já era esperado; a grande questão é que os próprios jovens se sintam acuados diante desse cenário, e não completamente revoltados.

Mas o processo de mudança para que jovens perdessem o orgulho de lutar por suas causas não foi tão repentino quanto parece. Há uma tentativa sutil do conservadorismo e de movimentos extremistas em chamar atenção dos jovens, que, cada vez mais, baseiam seus posicionamentos na estética e suas opiniões no que está em alta. Um exemplo disso são as tradwifes (traditional wives), uma estética que se popularizou nas redes sociais, em que mulheres fazem vídeos que remetem ao tradicionalismo, apresentando rotinas domésticas enquanto o homem aparece como provedor. Essa estética é problemática, pois pode romantizar questões como desigualdade de gênero, limitação de acesso à educação e imposição de papéis sociais.

Outro exemplo é cultura do looksmaxxing, uma tendência onde homens buscam elevar sua aparência a um padrão masculino idealizado, como mandíbula marcada, corpo musculoso, traços do rosto considerados perfeitos. Dentro dessa comunidade, existem práticas de autoavaliação em escala de um a dez, apelidando aqueles que alcançam a pontuação máxima como giga chad. Em casos mais extremos, há intervenções físicas, como o bone smashing. O looksmaxxing é frequentemente associado a comunidades mais problemáticas, como a machosfera e grupos incel (involuntary celibates), ambos marcados por discursos misóginos.

Essas comunidades têm muito em comum: apresentam práticas e discursos perigosos e antiéticos, mas vendidas de forma romantizada e com uma estética agradável aos olhos, uma descrição rápida é suficiente para atrair jovens que buscam pertencimento, oferecendo um grupo com interesses em comum.

O grande problema com a formação dessas comunidades é que, muitas vezes, elas discretamente carregam discursos políticos camuflados, e impõem de forma quase imperceptível aos seus participantes princípios políticos que eles passam a defender, não porque realmente acreditam no que está sendo dito, mas porque desejam se misturar a uma massa de outros jovens que buscam sobretudo a validação da ideologia que seguem, e não o entendimento real das ideias que movem essas massas, que formam esse grupos.

A jovem usuária que se torna parte da comunidade tradwifes no tiktok, por exemplo, não busca entender o elitismo e o machismo estrutural que impulsionam esse estilo de vida. Da mesma forma, o jovem que adentra a comunidade looksmaxxing não se importa em fazer uma pesquisa aprofundada sobre o crescimento desse fenômeno e como ele alimenta uma onda crescente de misoginia e masculinidade tóxica dentro da internet.

A grande verdade disfarçada em meio a tudo isso é que as novas gerações não são necessariamente revoltadas, rebeldes e revolucionárias. Pelo contrário, muitas vezes elas estão presas em crises performáticas e de identidade política. Observa-se uma grossa camada de hipocrisia em movimentos políticos que priorizam a estética em detrimento das ideias espalhadas, movimentos que só são realmente valorizados se forem coerentes com um feed bem arrumado ou um edit no TikTok, assuntos que só são relevantes ao entrarem nos trending topics, com debates que só interessam se formarem quotes marcantes para a sua biografia ou para “hitarem” no Twitter.

É tudo uma grande máscara, uma epidemia de ideias dissolvidas por estereótipos, um surto coletivo construído sobre o desespero de pertencer e a incapacidade de formular as próprias ideias, culminando no inevitável: a sensação de que estamos sendo enganados e superestimados como uma grande potência sociopolítica, não só pelas antigas gerações, mas por nós mesmos.

Alice Giovana é graduanda do 2° período do curso de Jornalismo da PUC Minas.

HTTPS://WWW.FACEBOOK.COM/BBCNEWS. O que é “woke” e por que termo gera
batalha cultural e política nos EUA – BBC News Brasil. Disponível em:
<https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy4y82w737do>.

HTTPS://WWW.FACEBOOK.COM/BBCNEWS. “Looksmaxxing”: a polêmica tendência de
beleza entre homens jovens e sua relação com o mundo incel – BBC News Brasil. Disponível
em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx248y1p5k7o>. Acesso em: 7 abr. 2026.

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