Renascer: A força da dramaturgia rural de Benedito Ruy Barbosa 

Por Carlos Eduardo Noronha.

No meio da floresta sul baiana, ele busca seu destino. Tem apenas o dia, a noite, o ar que respira e um facão. De repente, encontra a maior árvore que já viu na vida. Jequitibá da Bahia! Jequitibá rei! Anda em volta, admirado. Para e ajoelha no meio da névoa. Com sua permissão, realeza, é aqui que eu vou ficar. Aqui, aos teus pés, na sua sombra eu vou plantar meu reino, meu destino e a minha vida. Empunha o facão, o eleva. Aqui eu planto a minha alma, como se fosse uma semente de cacau. E, com toda a sua força, finca na terra em meio às raízes. Enquanto meu facão estiver encravado aqui, nem eu nem você haveremos de morrer, nem de morte matada nem de morte morrida

Logo em seguida, pego por jagunços, ele é dependurado de cabeça para baixo. Arrancam-lhe toda a pele. Suplicando pela morte, é encontrado por um turco comerciante. Compadecido, o turco (que na verdade é libanês) costura cada pedacinho seu, com agulha e linha. A partir daí, passa a ter o corpo fechado e, a cada dia que passa, sua riqueza só aumenta. 

Parece coisa de novela – e é! Coisa de novela boa. Criada e escrita por Benedito Ruy Barbosa, Renascer foi um dos maiores sucessos da década de 1990. Exibida originalmente entre março e novembro de 1993, em 213 capítulos, narra a saga épica do coronel José Inocêncio (Antônio Fagundes) na zona cacaueira de Ilhéus. Com direção de Luiz Fernando Carvalho, Mauro Mendonça Filho e Emilio di Biasi, a obra marcou o retorno do autor para a Globo após o êxito de Pantanal, na TV Manchete, no ano de 1990. 

ABERTURA DE RENASCER

http://globotv.globo.com/rede-globo/memoria-globo/v/renascer-1993-abertura/2135911/ 

O homem ligado à natureza

Benedito Ruy Barbosa começou pesquisar e criar a história quase duas décadas antes de sua exibição, em 1971. Após terminar Meu Pedacinho de Chão (1970), produção da TV Cultura em parceria com a Globo, o autor rodou mais de três mil quilômetros pelo sertão baiano. Explorou locações, conversou com tabaréus e tabaroas, conheceu lendas e mitologias e passou a dominar o processo de plantio, colheita e processamento do cacau. 

Uma grande parte das histórias você imagina, evidentemente. Mas o fundamental são as experiências de vida. Personagens que você cruza com eles pelos seus caminhos. – Benedito Ruy Barbosa, em entrevista ao Memória Globo. 

O título original, Bumba Meu Boi, fazia referência direta às manifestações culturais retratadas na trama. Venâncio (Cacá Carvalho), sogro de José Inocêncio, saía pela região vestido de boi durante a festa popular, também conhecida por Boi-Bumbá, que reúne dança e muita música. É uma forma de crítica social em que pessoas pobres zombam dos mais ricos através da narrativa cômica – auto do boi – de morte e ressurreição do animal . O Bumba é considerado patrimônio cultural imaterial brasileiro, mas, para a novela, o título foi considerado folclórico demais e, por isso, substituído por Renascer

Buba, Venâncio, Padre Lívio e Tião Galinha

Renascer tocou fundo em temas sociais importantes, alguns pouco discutidos na época e tabus na sociedade até hoje. Como o hermafroditismo de Buba (Maria Luisa Mendonça), que se envolve com Zé Venâncio (Taumaturgo Ferreira) e Zé Augusto (Marco Ricca), filhos do coronel. A sensibilidade da personagem era contraposta com seus conflitos internos e insegurança de não saber a qual gênero pertencia, mesmo se identificando como mulher. Tinha medo de ser homem, como pensava ser na infância – época em que mais sofreu bullying e discriminação. As cenas em que Buba evidencia seus complexos fazem o público mergulhar e compreender o drama da personagem. 

Outro assunto abordado na primeira fase, mesmo que de forma sugerida em alguns momentos e evidenciada em outros – mas nunca explícita –, foi incesto. Venâncio, o boi, era extremamente rígido com a filha Maria Santa (Patrícia França), obrigada a amarrar os seios para não chamar atenção dos outros homens. Além dela, já tinha expulsado Maria Aninha de casa, por ter engravidado (ao que parece, dele mesmo). Toda a rigidez e braveza de Venâncio era justificada pelo ciúme exacerbado que sentia pela filha mais nova que, ingênua, disse estar grávida após ter sido beijada por José Inocêncio. Venâncio largou violentamente Maria Santa na casa de Jacutinga (Fernanda Montenegro), um bordel, e nunca mais foi visto. 

A zona cacaueira, pano de fundo da história, também foi abordada em toda sua amplitude. Pragas, como vassoura de bruxa e podridão parda, eram citadas, destacando os efeitos na economia e nas roças de cacau. Além disso, o autor delineava as primeiras discussões sobre reforma agrária distribuição de terras, cuja consolidação se daria três anos mais tarde com O Rei do Gado (1996). 

Vale citar ainda as pautas sociais e políticas materializadas através das conversas e sermões do padre Lívio (Jackson Costa), que vivia peregrinando pela região. Precariedade da saúde, desfalques na educação, sonegação de impostos, corrupção política, pobreza e concentração de terras eram algumas das discussões mais recorrentes levantadas pelo padre, muitas vezes ao lado de José Inocêncio que, apesar coronel latifundiário, carregava consigo senso de justiça e clareza admiráveis.

Sermão de Padre Lívio 

Por último, vale destacar o personagem Tião Galinha (Osmar Prado) que, na ânsia de enriquecer, pede a José Inocêncio a receita para criar um diabinho na garrafa. As histórias que corriam na região era de que o coronel só havia vencido na vida porque tinha a proteção do amuleto – um capetinha criado dentro de uma garrafa que, ao se libertar nas noites de lua cheia, virava bode e urinava nas roças de cacau, fazendo-as florescer no dia seguinte. Humilde, simples e extremamente ingênuo, Tião catava caranguejos junto da mulher num manguezal. Sonhava, sonhava muito em mudar de vida. Almejava apenas ter um pedacinho de terra pra plantar e morar com a família. Sua figura serviu de porta-voz para a miséria e pobreza que, trinta anos depois, continua imperando no Brasil. 

Quem trabalha e mata a fome não come o pão de ninguém. Quem ganha mais do que come sempre ganha o pão de alguém. – Tião Galinha (Osmar Prado)

Isso aqui eu comprei numa feira em Salvador, há muitos anos atrás. É… é um diabinho. Mas podia ser São Sebastião, São Jorge, São Benedito, um santo desses qualquer. Aí eu trouxe pra cá. A infeliz da Inácia abriu a mala, deu com o diabinho dentro da garrafa. Abriu um berreiro. Mas fez um escarcéu dos diabo. Fosse um São Benedito tinha ajoelhado, rezado um terço inteiro. Tinha até me abençoado por ter trazido o santo pra cá. Mas era o demo, era o capetinha! – José Inocêncio contando para Mariana (Adriana Esteves) a origem do diabinho. 

Estética cinematográfica

A direção, liderada por Luiz Fernando Carvalho, apurou bem a estética e deu a Renascer identidade própria, singular. Externas marcantes com paisagens da zona rural da Bahia, cantigas das lavadeiras na beira do rio e nas roças de cacau, tabaréus e tabaroas pisando o fruto nas barcaças… Todos esses elementos, somados à trilha sonora, à interpretação e ao texto deram tom exato à trama, sem faltas nem excessos. 

Além disso, a fotografia de Walter Carvalho elevou o padrão de qualidade da imagem. O diretor relembra, em entrevista, o processo de criação junto ao diretor Luiz Fernando Carvalho: “primeira coisa que eu propus pro Luiz foi bater o branco num vermelho. To falando de uma época que era mais difícil, mais duro o embate. E ao bater o branco num vermelho, bater o branco no azul do céu, começou a aparecer coisas que quem estava acostumado com televisão não conhecia. E foi aí que a gente começou a descobrir possibilidades a favor daquela narrativa”.

O que manda é a narrativa, o discurso cinematográfico é a narrativa, o discurso televisivo é a narrativa. As pessoas pensam que a função da fotografia é que fique bonita. Isso é um engano. Toda vez que uma coisa surpreende pela beleza, sobretudo na televisão, alguém diz assim: “parece cinema”. Eu nunca vi alguém ver um filme e assumir “parece televisão”. O meu sonho é esse.– Walter Carvalho, em entrevista ao programa Ofício em Cena.

O Benedito é emocionado, o estado do Benedito é emocionado. Ele sentou comigo no jantar e falou: “olha, eu vou te contar a última cena do Renascer. Vou te contar mais ou menos como é que é, assim. Quando a criança nasce, a mãe morre e tal, ele fica apaixonado pela mulher, blá blá blá… E a última cena”. Quando ele terminou de contar a última cena, nós dois demos um vexame no restaurante porque eu também entre nessa. Nós choramos feito criança, os dois, abraçados no restaurante, porque era realmente deslumbrante. […] Realmente ele construiu uma história épica, maravilhosa. – Antônio Fagundes, em entrevista ao Memória Globo, detalhando a primeira conversa que teve com o autor Benedito Ruy Barbosa sobre Renascer.

Renascer contou com duas fases que revelaram personagens secundários carismáticos e muito bem construídos, como o mau caráter Belarmino (José Wilker),  a ex prostituta Morena (Regina Dourado), o fiel Deocleciano (Roberto Bonfim), O comerciante Norberto (Nelson Xavier), a sensitiva Inácia (Chica Xavier), o matador de aluguel Damião (Jackson Antunes), o libanês Rachid (Luiz Carlos Arutin), entre muitos outros. 

A obra está disponível na íntegra no Globoplay, junto com O Rei do Gado (1996), Terra Nostra (1999), Cabocla (2004), Meu Pedacinho de Chão (2014) e Velho Chico (2016) – enredos de sucesso criados e escritos por Benedito Ruy Barbosa. Servem de aquecimento para o remake de Pantanal, que será exibido a partir de março de 2022. 

PODCAST – BENEDITO RUY BARBOSA

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Carlos Eduardo Noronha é monitor do CCM e estudante de Jornalismo na PUC Minas.

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