
Fotografias de Taylor Swift para The Tortured Poets Department (à esquerda) e folklore (à direita). Fotografias: Beth Garrabrant. Montagem: José Lucas França
Por José Lucas França.
Muitas vezes encontrei na internet interpretações sobre como as músicas The Lakes e I Hate It Here, de Taylor Swift tratam o escapismo, cada uma à sua maneira. E consigo entender de onde vêm essas interpretações. Uma imagina fugir para o Lake District, na Inglaterra, longe de um mundo onde cada momento belo e íntimo corre o risco de se tornar uma performance devido à atenção indesejada. A outra se retira para jardins secretos que existem apenas na mente da narradora. Lidas separadamente, ambas as canções parecem contar histórias semelhantes: quando a realidade se torna insuportável a imaginação oferece uma saída. No entanto, quanto mais observo com atenção essas músicas, menos me convenço de que o escapismo é o que as conecta e um sentido oculto pode revelar uma semelhança ainda maior.
O que me fascina não é o fato de ambas as canções sonharem com outro lugar, mas as formas radicalmente diferentes como cada uma define sua ideia de refúgio. Em The Lakes, o eu lírico acredita que existe algum lugar para onde ir. O espaço desejado existe além do alcance do presente esperando para ser encontrado. Por outro lado, I Hate It Here parte de uma percepção mais silenciosa, e talvez mais inquietante: se tal lugar não existe, ele precisa ser criado. Em vez de repetirem a mesma ideia, as duas músicas parecem explorar caminhos diferentes para a construção do pertencimento.
Embora Taylor Swift não tenha escrito nenhuma dessas canções como narrativas queer, penso que elas podem oferecer uma forma inesperadamente poderosa de compreender certas experiências queer. Não porque as letras tenham algum significado secreto, mas porque as narrativas frequentemente conseguem organizar emoções por meio de estruturas capazes de iluminar experiências para além de seu contexto original.
A questão, portanto, não é se essas canções são músicas queer. A questão é que tipo de experiências suas estruturas narrativas tornam possível reconhecer e ser capazes de empatizar com experiências queer.
Talvez a resposta esteja na própria função da ficção, já que ela não se limita a criar histórias. Ela cria lugares onde o pertencimento pode ser ensaiado antes de ser vivido. Entendo que essa hipótese une ambas as canções de uma forma muito mais profunda do que a ideia de escapismo costuma sugerir.
Em The Lakes, o refúgio é imaginado como uma paisagem intocada pelas pressões da vida pública e pelo escrutínio. O verso sobre ter ninguém por perto para tuitar é frequentemente interpretado como uma crítica às redes sociais, mas também pode expressar algo mais amplo: a exaustão de viver sob um olhar constante. Durante folklore: the long pond studio sessions, Taylor Swift explica que escolheu o Lake District devido à sua associação com os poetas do Romantismo inglês que encontraram ali um lugar para escrever, criar e viver entre outros que compartilhavam sensibilidades semelhantes.
Independentemente da precisão histórica dessa imagem, é precisamente esse imaginário cultural que a canção evoca. O Lake District, portanto, deixa de existir apenas como uma paisagem distante e passa a ser um símbolo de um lugar onde o pertencimento e a criação artística parecem possíveis. Isso fica ainda mais evidente quando a narradora canta:
Take me to the lakes where all the poets went to die.
I don’t belong, and my beloved, neither do you.
(Leve-me aos lagos onde todos os poetas foram para morrer. / Eu não pertenço, e meu amado, você também não.)
O desejo de partir nasce não simplesmente da vontade de abandonar um lugar, mas da esperança de encontrar onde o pertencimento já existe.
Essa fantasia não é estranha para muitas pessoas queer. O processo de saída do armário muitas vezes pode ser imaginado em termos espaciais muito antes de se tornar uma realidade social. Haverá outra escola, outra cidade, outro apartamento, outra fase da vida em que ser e viver autenticamente se tornará possível. No entanto, na maioria das vezes, o que realmente se busca não é apenas outro lugar, mas outra comunidade, um espaço habitado por pessoas capazes de compreender experiências semelhantes, diante das quais a autenticidade não precise mais ser constantemente negociada. The Lakes imagina mais do que um refúgio geográfico; imagina um lugar onde o pertencimento já existe.
I Hate It Here abala silenciosamente essa esperança. A imagem dos jardins secretos dificilmente parece acidental. Antes de a narradora imaginar esse espaço ela evoca O Jardim Secreto, romance de Frances Hodgson Burnett sobre personagens emocionalmente isolados que descobrem dentro de um jardim oculto um lugar onde são capazes de crescer, criar laços significativos e transformar a forma como existem no mundo. Taylor recorre a esse imaginário literário, mas o realoca dentro da mente da narradora.
Em vez de procurar por uma comunidade pronta para acolhê-la, ela constrói um mundo próprio, para si mesma. Os jardins secretos deixam de ser um local físico e se tornam um espaço interior onde outra realidade começa a existir antes que o mundo externo seja capaz de sustentá-la. A própria letra reforça essa leitura:
I hate it here, so I will go to secret gardens in my mind.
People need a key to get to, the only one is mine.
(Eu odeio este lugar, então irei para jardins secretos em minha mente. / As pessoas precisam de uma chave para entrar, a única é a minha.)
O jardim não é mais uma localização física, mas uma arquitetura interna, acessível apenas à narradora. Quando ela canta sobre as pessoas precisarem de uma chave para entrar, e que só ela tem essa chave, a imaginação deixa de representar mero escapismo. Ela se torna a criação do pertencimento. A narradora não está mais em busca de um lugar ao qual possa pertencer; ela está criando o próprio espaço onde o pertencimento pode ser vivenciado antes de existir no mundo.
Essa distinção pode transformar a maneira como a canção é compreendida. Em vez de retratar alguém que se recusa a encarar a realidade, I Hate It Here mostra alguém criando as condições sob as quais o pertencimento pode existir mesmo antes de encontrar uma comunidade no mundo real. Como no romance de Burnett, o jardim não existe para blindar seus personagens do mundo, mas para criar as condições que lhes permitam retornar a ele transformados.
Os jardins secretos não substituem a realidade; eles funcionam como um espaço liminar onde uma identidade pode ser explorada, preservada e compreendida antes de encontrar um espaço seguro para existir publicamente. A fantasia, nesse sentido, não se opõe à autenticidade; ela protege a possibilidade de pertencimento até que esse pertencimento possa finalmente ser vivido além da imaginação.
Eu acredito que é precisamente isso que torna possível para ouvintes queer se identificarem com essa canção, embora a vivência queer nunca seja explicitamente mencionada. Antes de haver linguagem para descrever quem somos, muitas vezes há a imaginação. Antes de haver comunidade, há canções, livros, filmes, personagens fictícios, e hoje, comunidades de fãs que tornam concebível outra forma de existir. Para muitas pessoas queer, a primeira experiência de pertencimento não surge necessariamente em um espaço físico, mas por meio da ficção. A imaginação, portanto, funciona como mais do que um meio de fuga da realidade. Ela frequentemente antecipa a comunidade que ainda está por ser encontrada.
Em conjunto, The Lakes e I Hate It Here deixam de parecer duas músicas sobre o mesmo assunto. Em vez disso se tornam dois momentos dentro do mesmo processo emocional. A primeira imagina um lugar onde o pertencimento já existe esperando para ser encontrado. A segunda parte da possibilidade de que esse pertencimento ainda não exista e precise primeiro ser imaginado antes de poder ser vivido. Se The Lakes sonha com uma comunidade, I Hate It Here imagina como sobreviver até que ela seja encontrada.
É possível pensar nessas duas canções como canções-irmãs. Não porque compartilhem imagens, estética ou mesmo temas, mas porque fazem a mesma pergunta a partir de direções diferentes. Ambas buscam entender o que significa encontrar um lugar onde se possa existir sem medo. A diferença é que o eu lírico em The Lakes ainda acredita que tal lugar já existe em algum lugar, enquanto I Hate It Here reconhece que para muitas pessoas ele precisa ser imaginado antes que possa ser encontrado.
Talvez seja precisamente por isso que essas canções continuam a convidar interpretações que vão além das circunstâncias em que foram originalmente escritas. A força emocional delas reside menos nas experiências que descrevem explicitamente do que nas estruturas pelas quais organizam essas experiências.
O Lake District em The Lakes, e os jardins secretos de I Hate It Here, pertencem a diferentes tradições narrativas e, no entanto, compartilham a mesma lógica subjacente: ambos imaginam espaços onde o pertencimento pode ser vivenciado antes de ser plenamente vivido. Afinal, o refúgio nunca é apenas um lugar. Às vezes é uma paisagem. Às vezes é uma comunidade. Às vezes é outra pessoa. E às vezes, até mesmo um espaço criado por meio da arte onde podemos ensaiar uma versão de nós mesmos que o mundo ainda não é capaz de acolher. Talvez essa seja uma das funções mais profundas da ficção. Antes de nos oferecer respostas, ela nos oferece um lugar onde podemos existir até que a realidade seja finalmente capaz de fazer o mesmo.
REFERÊNCIAS
SWIFT, Taylor. The lakes. In: SWIFT, Taylor. Folklore. [S. l.]: Republic Records, 2020. 1 álbum sonoro.
SWIFT, Taylor. I hate it here. In: SWIFT, Taylor. The Tortured Poets Department: The Anthology. [S. l.]: Republic Records, 2024. 1 álbum sonoro.
FOLKLORE: the long pond studio sessions. Direção: Taylor Swift. [S. l.]: Disney+, 2020. 1 vídeo.
José Lucas França é graduado em Cinema e Audiovisual e mestrando em Comunicação Social pela PUC Minas.


