Lugares fotográficos: a representação da mulher por fotojornalistas na primeira metade do século XX

Mulher trabalhando na indústria de defesa, Segunda Guerra Mundial, Indiana, 1943. Foto: Margaret Bourke-White

Por Renata Garboci.

Ao lermos sobre a história da sociedade do final do século XIX e início do século XX, observamos mudanças importantes em sua estrutura. Na época, muitos paradigmas estavam sendo questionados e, com isso, fomentava-se a discussão sobre a emancipação das mulheres e suas participações pioneiras em diversas áreas e atividades da vida social. A nossa pesquisa analisou, especificamente, a representação da mulher nas fotografias de Margaret Bourke-White (EUA, 1904-1971), Tina Modotti (Itália, 1896-1942) e Dorothea Lange (EUA, 1895-1965). Em suas obras, as fotojornalistas retratam mulheres de diferentes de etnias e classes sociais. Diante delas, fizemos os seguintes questionamentos: Como o feminino está representado no trabalho dessas fotojornalistas, produzido no início do século XX? E de que modo essas representações tornam-se, por meio do discurso fotográfico, um gesto político-identitário?

Dorothea Lange, Tina Modotti, Margaret Bourke-White, dentre outras profissionais, foram, de fato, extremamente importantes no desenvolvimento do fotojornalismo do século XX. Desde meados do século XIX, as mulheres já atuavam como fotógrafas, porém, sobretudo, auxiliando nos estúdios. A carreira de fotojornalista não era acessível a elas, pois eram vistas como incapazes de atuar em uma profissão com tantos desafios e riscos à vida. Ressaltamos que, até hoje, esta é uma profissão de maioria masculina. 

O acesso das mulheres ao fotojornalismo foi possibilitado pelo desenvolvimento de equipamentos fotográficos mais leves, pelo contexto de guerra e pelas mudanças graduais do papel da mulher na sociedade, fruto dos movimentos feministas, iniciado pelas sufragistas no final do século XIX, principalmente na Europa e EUA. Elas foram algumas das primeiras mulheres fotojornalistas profissionais da história e cruciais nas coberturas de importantes momentos políticos na primeira metade do século XX. 

Dorothea Lange é considerada uma das precursoras do fotodocumentalismo social, principalmente após seu trabalho junto ao Farm Security Administration. Ela mostrou em suas fotografias as mulheres estadunidenses vivendo em situação de pobreza e de segregação racial. Durante todo o seu trabalho, ela teve um olhar diferenciado sobre as condições desiguais de vida e sobrevivência. Suas fotografias, apesar de mostrarem a dureza da vida, conferem às personagens uma aura de dignidade. 

Retrato de mulheres estadunidenses em situação de pobreza e de segregação racial. Foto: Dorothea Lange

Tina Modotti, a despeito da brevidade da carreira na fotografia – que durou apenas sete anos – é reconhecida, principalmente, por produzir imagens que se engajam com os direitos dos trabalhadores, importante para a fotografia obrera (ZERWES, 2016), área da fotografia social que se dedica, justamente, a mostrar a situação social de deste grupo. Suas fotografias foram utilizadas pelos movimentos sociais mexicanos e europeus como meio de protesto contra as condições da população submetida aos ideais fascistas da época. Como fotógrafa do movimento comunista mexicano, criou uma estética própria de arte com finalidades políticas. Em suas fotografias, ela buscava registrar os símbolos dos ideais revolucionários e as mulheres como parte integrante da mudança.

Mulher trabalhadora. Foto: Tina Modotti

Margaret Bourke-White, por sua vez, é considerada até atualidade como uma das maiores fotógrafas da história. O seu trabalho pioneiro nas coberturas da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coréia lhe rendeu admiração por sua estética elaborada e suas críticas sociais. Ela protagonizou, ainda, a entrada das mulheres nas redações de revistas e jornais. Bourke-White retratou as mulheres em diversos papéis na sociedade. Suas imagens valorizavam o feminino através da multiplicidade de suas modelos, buscando o reconhecimento dessas mulheres.

Destaque para a diversidade étnica das mulheres. Foto: Margaret Bourke-White

Essas fotógrafas são reconhecidas, principalmente, pelo registro sensível sobre as experiências de diferentes mulheres, em condições de vida distintas. No trabalho delas é notável o olhar diferenciado do feminino, contrastando com os padrões representativos estabelecidos. O caráter realista das fotografias, marcadamente documentais, ressalta, ainda mais, o caráter político das suas produções. 

A fotografia documental inaugurou uma forma de realismo, que, assim como o realismo histórico, possui um regime estético importante para representação das pessoas comuns e para o questionamento de lugares midiáticos hegemônicos. Como argumenta Stuart Hall (2016), o processo de escolha de quem é incluído e de quem é excluído das tramas da representação se dá através dos valores sociais colocados em circulação por uma cultura dominante. Essas dinâmicas que instituem significados compartilhados, frequentemente desiguais, são fundamentais para a constituição de identidades para a construção do papel social dos sujeitos, inclusive das mulheres. 

A filósofa Judith Butler (2015) discute, especificamente, o papel do enquadramento na fotografia e suas reverberações políticas, capazes de interferir nas lutas por representatividade e de reconhecimento. As convenções da sociedade criam estruturas sociais para tornar certos sujeitos “reconhecíveis” ou não. Então, ao refletirmos sobre a fotografia documental que busca trazer visibilidade a identidades abjetas, é importante não apenas definirmos o que elas buscam mostrar, mas também problematizarmos as estratégias e formas de representação. 

Selecionamos nove imagens de mulheres que foram categorizadas em três eixos temáticos: mães, mulheres de diversas etnias e mulheres trabalhadoras. Realizamos uma reflexão de como a composição das fotografias pode construir um discurso fotográfico de valorização do feminino, retratadas, aqui, com dignidade e força. Questionamos de que modo a linguagem visual reflete e incorpora formas de pensar o feminino e que ideias relativas ao feminino ela pode reproduzir. 

A composição e a iluminação das fotografias foram dois elementos essenciais para a construção de uma estética de valorização do feminino. Os enquadramentos fechados nas mulheres, utilizando planos médios e planos detalhes, aproximam o enunciatário da narrativa fotográfica. Com essa aproximação, as expressões faciais, os gestos, os traços étnicos se tornam visíveis e destacam a individualidade dessas mulheres. Outro ponto de destaque da composição é a frontalidade: as mulheres foram fotografadas em ângulo frontal, isto é, quando a câmera e a fotógrafa estão posicionadas no mesmo nível do retratado. O ângulo frontal ou normal, assim como o ângulo de baixo para cima, contra-plongé, utilizado em duas fotografias, destacam a personagem da cena e a coloca em uma posição de valorização. O ângulo frontal, o enquadramento fechado e a figura em primeiro plano fazem com que a mulher retratada possa olhar diretamente para a lente, nos dando a sensação de que ela nos devolve o olhar. 

Valorização da figura da mulher pelo plano contra-plongé. Foto: Tina Modotti

Por sua vez, a luz nas fotografias analisadas é complexa e utilizada com maestria. Bourke-White, por exemplo, recorta a figura da mulher soldadora que emerge do fundo escuro como os personagens de Caravaggio. Em outra foto, cria uma atmosfera quase etérea em torno da mulher que amamenta um bebê recém-nascido. Já Lange utiliza uma iluminação difusa e quase uniforme, com transições suaves entre as áreas de sombra e as de luz. Apesar de sua iluminação suave e com pouco contraste, ela cria áreas de claridade que recortam e destacam as mulheres retratadas, direcionando o olhar do enunciatário para a personagem.

Lange utiliza a luz como meio de destacar a figura feminina. Foto: Dorothea Lange

Modotti, devido à experiência como fotógrafa de natureza morta, têm um domínio da luz e da sombra, que são características do seu trabalho. Ela elabora contrastes marcados e dramáticos com as luzes mais diretas e duras, que esculpem a personagem retratada. 

Mulher que amamenta um bebê recém-nascido. Foto: Margaret Bourke-White
Mãe com seu bebê no colo. Foto: Tina Modotti

Concluímos, no decorrer do nosso percurso de leitura dessas fotografias, que o discurso fotográfico pode ser um gesto político-identitário, pois, a partir do momento em que a imagem fotográfica traz visibilidade para essas mulheres e as representa em seu cotidiano, ela faculta a denúncia de condições precárias de vida e reconhecimento de diversas identidades. Também observamos que os retratos de mulheres criaram tensionamentos com as tradições iconográficas e estereotipadas da mulher na sociedade do início do século XX. Em nossa análise, observamos que as fotografias de mulheres realizadas por Dorothea Lange, Tina Modotti e Margaret Bourke-White, possuem uma estética de valorização do feminino. Essa estética, como apresentamos acima, foi construída a partir da gestualidade dessas mulheres, da composição utilizada e da iluminação criada pelas fotógrafas. O protagonismo de suas carreiras e as mulheres por elas retratadas podem ser compreendidos como um passo importante sobre os estudos da questão gênero e do reconhecimento de identidades na fotografia.

Referências 

BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto?. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015

HALL, Stuart. Cultura e Representação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, Apicuri, 2016.

ZERWES, Erika. Tina Modotti e Kati Horna, fotógrafas produtoras de duas imagens situadas entre a fotografia obrera e o humanismo. História Unisinos, vol.20, 2016, pp.213-225.

Renata Garboci é mestra pelo PPGCOM da PUC-Minas.

Um comentário em “Lugares fotográficos: a representação da mulher por fotojornalistas na primeira metade do século XX

  1. Por outro lado, tambem faz parte da nossa pratica de vida fotografar nossos filhos, nossos momentos importantes e os nao tao significativos. Um elenco de temas que vai desde os rituais de passagem ate os fragmentos do dia-a-dia no crescimento das criancas. Apreciamos fotografias, as colecionamos, organizamos albuns fotograficos, em que narrativas engendram memorias. Em ambos os casos e a marca da existencia das pessoas conhecidas e dos fatos ocorridos que salta aos olhos e nos faz falar “Olha so como ele cresceu!”, ao vermos a foto recem-chegada da revelacao. Desde a sua descoberta ate os dias de hoje, a fotografia vem acompanhando o mundo contemporaneo, registrando sua historia numa linguagem de imagens. Uma historia multipla, constituida por grandes e pequenos eventos, por personalidades mundiais e gente anonima, por lugares distantes e exoticos e pela intimidade domestica, pelas sensibilidades coletivas e ideologias oficiais. No entanto, a fotografia lanca ao historiador um desafio: como chegar ao que nao foi imediatamente revelado pelo olhar fotografico? Como ultrapassar a superficie da mensagem fotografica e, do mesmo modo que Alice nos espelhos, ver atraves da imagem?

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