Garotas mortas é sobre procura

Por Caíque Pinheiro. Desde a capa da edição brasileira (Todavia, 2018), com a imagem de uma flor muito próxima e de outras mais distantes, todas desfocadas, a não ficção de Selva Almada, Garotas mortas, parece sugerir esta mensagem: seu livro é sobre a busca de ver algo (e também sobre não vê-lo, de fato). No caso, a autora denuncia e investiga mais profundamente três feminicídios ocorridos na década de 1980, em cidades no interior da Argentina; histórias irresolutas desde então, e que – paradoxo posto – mesmo seu bom olhar não contribui para solucionar.

Um dos casos é o de Andrea Danne; “tinha dezenove anos, era loira, bonita, de olhos claros, estava namorando e fazendo um curso de psicologia. Tinha sido assassinada com uma punhalada no coração”; foi encontrada pela mãe, deitada em sua própria cama. Suspeitaram dela, do pai, do namorado, de um voyeur que já a havia espiado uma vez, além de tantas outras pessoas – “num caso em que as investigações andavam em círculos, sem provas que levassem a lugar algum,” escreve Selva, “todos eram, de certo modo, suspeitos”.

Na Argentina, o livro saiu em 2014. Os pais de Andrea já haviam morrido, sua irmã não queria mais falar. “Não posso continuar recordando porque o que houve naquela noite me arrasa, apesar da distância”, diz. Também a irmã de Sarita Mundín, cujo corpo não foi encontrado, preferia o silêncio. Somente o irmão de María Luisa Quevedo, que aos quinze anos “passara alguns dias desaparecida, até que seu corpo violentado e estrangulado apareceu num terreno baldio”, sustentava ainda a missão de falar sobre o caso.

Com a distância no tempo e a reserva dos familiares, as refeituras da memória e o crescente desinteresse de quem não esteja diretamente implicado com a história, surge uma questão: o que se pode saber, a certa altura, sobre as garotas mortas? Ou, em sentido lato: quando, numa reportagem, alguém se propõe a investigar sobre vida de uma pessoa comum e que tenha morrido, quanto se pode saber a seu respeito?

 

Sobretudo pela afinidade temática, o livro de Selva Almada é comparável ao de Truman Capote, A sangue frio. Nele, o autor abordou o assassinato violento e sem motivação aparente de uma família comum – os Clutter – no interior de seu país. E há, ainda, outras similaridades: ambos estrearam na não ficção com estas obras, tendo escrito antes contos e romances. Selva, tal qual Capote, soube de um dos casos que lhe ocupou pelos anos seguintes a partir de um simples artigo de jornal.  

Para O Globo, Almada disse que Truman Capote a inspirou no tom de Garotas mortas – “vi como ele estava buscando um pouco o que eu buscava”. E, de fato, ela emprega alguns recursos narrativos como a “descrição de cenas inteiras” e a “do status de vida”, a respeito dos quais escreveu Tom Wolfe e que notabilizaram textos como A sangue frio, mas entendo que as semelhanças não se estendem muito mais. Se retomarmos a questão sobre quanto uma investigação jornalística pode saber sobre uma pessoa comum e morta, Capote e Selva deixam de se parecer.    

No uso de um recurso típico do romance modernista conhecido como “ponto de vista da terceira pessoa”, Capote chegou a atribuir falas a personagens que, mortos, não teve a chance de entrevistar. Discussões importantes sobre A sangue frio não desconsideram que assim o autor avançou sobre (pelo menos) um aspecto ético. Como seria possível, nesse tipo de inscrição narrativa, falar por quem já partiu, atribuindo aos mortos não só o que deixaram registrado e o que se diz a seu respeito, mas algo como aquilo que eles mesmos diriam?

Gay Talese também fez uso deste recurso em sua não ficção e diz que, colocando perguntas certas e em condições adequadas, é possível perscrutar o que se passa na cabeça das fontes – mesmo seus sentimentos – e, assim, gerar um relato tão fidedigno quanto o do mais confiável jornalismo, com seus métodos ortodoxos. Como nota Marcelo Bulhões, entretanto, a convicção de que entrevistas minuciosas dão um subsídio seguro para que um jornalista fale em nome de outra pessoa, “pode ser considerada, no mínimo ingênua. […] Naquela noite silenciosa nas planícies do Kansas, ninguém, a não ser as vítimas e criminosos, ouviu os disparos e as abafadas súplicas.”

Este limite Selva não cruzou. A autora insistiu com fontes que lhe driblaram e que não quiseram atende-la. É verdade que buscou uma taróloga e que a consultou sobre o que pensavam as garotas lá onde estão mortas, e que esta sensitiva – chamada Senhora – é uma personagem importante do livro. Mas também é verdade que não lhe diz muito além do que outras fontes informaram, e o que diz tem a marca dessa mediação mágica, que é diversa da jornalística.

No que me parece uma boa metáfora para o trabalho de reportagem feito em Garotas mortas, Senhora diz à Selva que “talvez seja esta a sua missão: recolher os ossos das garotas, armá-las, dar-lhes voz e depois deixá-las correr livremente para onde tiverem que ir”. Entendo que neste livro Selva Almada busca as histórias de Andrea, Sarita e María Luisa e lhes dá uma boa estrutura de visibilidade, mas não as apreende. Não como Capote fez com os Clutter, completando-os com as falas que já não tinham.  As garotas argentinas foram silenciadas e este é um limite de sua representação. A reportagem pode trabalhar no entorno disto – e esta o faz muito bem.

 

Caíque Pinheiro é jornalista e faz doutorado em Comunicação. É interessado em livros-reportagem, reportagem narrativa, Novo Jornalismo, assuntos afins e além.

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