A Segunda Guerra Mundial nas telas de cinema

Por Nicole Antunes de Souza Oliveira.

O dia 1 setembro de 1939 ficou marcado pela invasão inicial de um dos maiores conflito armados da humanidade. Deste conflito, podemos destacar inúmeros acontecimentos assombrosos, como a perseguição aos judeus, as torturas nos campos de concentração e o uso de bombas nucleares. Porém, neste artigo iremos nos atentar aos acontecimentos representados nas telas de cinema. 

Durante os seis anos da II Guerra Mundial, a indústria cinematográfica operou como o principal meio usado por governos para propagar uma falsa imagem da realidade. Enquanto os Estados Unidos investiram em um discurso patriota, a Alemanha divulgava, com a aproximação inevitável da derrota, o sofrimento de uma perseguição injusta, tática que já vinha utilizando após os desfechos da I Guerra Mundial. Após os Aliados declararem o fim na guerra em 1945, muitas histórias, emergiram por meio dos filmes, sobretudo por meio da indústria cinematográfica estadunidense. 

Os norte-americanos ingressaram na guerra apenas em 1942 após um ataque japonês contra a ilha de Pearl Harbor, no Havaí, onde era mantida uma base naval americana. A construção do filme Midway: Batalho em Alto Mar (2019), dirigido por Roland Emmerich, tira o público da passividade ao trazer a perspectiva tanto dos aviadores americanos, quanto dos japoneses, que lutaram bravamente durante a batalha de Midway. Com a ajuda das câmeras, Emmerich usa a primeira pessoa para causar no espectador as mesmas tensões sentidas pelos aviadores, oscilando os pontos de vista da narrativa.  O diretor ainda utiliza outras táticas de linguagem que enriquecem a obra, especialmente na construção de heróis sem ter um vilão aparente. Já os filmes A Conquista da Honra (2006) e Cartas de Iwo Jima (2006), ambos dirigidos por Clint Eastwood, também jogaram, entre eles, com a elaboração de posicionalidades narrativas distintas, abordando lados diferentes de um mesmo conflito e tensionando o público a refletir sobre quem são os vilões da guerra. Trazendo a perspectiva norte-americana no contexto do conflito de posse da ilha de Iwo Jima, A Conquista da Honra leva o espectador a simpatizar com as ações dos marinheiros estadunidenses, construindo o vilão japonês. Já em Cartas de Iwo Jima, com o roteiro inspirado em cartas reais escritas pelo tenente-general do exército japonês, Tadamichi Kuribayashi, o público enxerga os Estados Unidos como os verdadeiros vilões, se familiarizando desta vez com o Japão. 

Outra obra de grande relevância é o longa A Lista de Schindler (1993), dirigido por Steven Spielberg. Inspirado na história real de Oskar Schindler, alemão infiltrado no partido nazista, o filme acompanha suas tentativas, algumas frustradas por erro na comunicação interna da polícia alemã, em salvar o máximo de judeus que era possível. Schindler era um homem de negócios e quando se mudou para Cracóvia com esposa abriu uma fábrica de utensílios esmaltados, onde chegou a contratar cerca de 1.000 judeus escravos. Além disso, permitia que seus empregados dormissem na fábrica para se protegerem do intenso inverno europeu, possibilitando pouco depois cerca de 500 trabalhadores a mais se abrigassem ali também. Aproximadamente 1.700 dos contratados de Schindler foram mandados por engano ao campo de concentração de Plaszow, e graças as suas influencias dentro do partido e com algumas subordinações, estes mesmos trabalhadores foram resgatados. Toda a cor do filme foi retirada, deixando apenas, em momentos específicos, o vermelho: enquanto Schindler está de passagem no gueto próximo a instalação de sua fábrica, ele avista uma pequena menina, que veste o agasalho, atordoada; momentos depois, vemos a mesma criança falecida, ainda trajada com o casaco. Este é o principal momento em que percebemos a simpatia de um alemão, o lado perseguidor, com judeus, o lado perseguido. 

Em uma guerra de escala global existe muito o que se falar, especialmente após tantos anos. Atualmente, na indústria cinematográfica existem aproximadamente centenas de títulos tendo a II Guerra Mundial como tema.  Porém, é interessante nos atentarmos aos pontos de vista frequentemente esquecidos, como por exemplo, o da Inglaterra, um dos primeiros países a declarar guerra contra a Alemanha após a invasão na Polônia. Dunkirk (2017), dirigido por Christopher Nolan, retrata o prolongado desespero das tropas britânicas ao ficarem encurralados pelos nazistas no território de Dunquerque, uma comunidade francesa. Nolan quis se aproximar o máximo possível da realidade, deslocando a filmagem para a praia onde a evacuação de fato aconteceu. Graças ao apoio do governo local, foi possível a reconstrução de cenas históricas como a ponte feita de improviso para levar os soldados aos barcos de resgate. O filme conta com três pontos de vista, separados da seguinte forma: do ar, ou seja, dos aviadores britânicos que tentam abater os caças alemães; da terra, dos soldados presos na areia com o constante medo de serem abatidos por céu; e do mar, dos marinheiros, muitos sendo civis, em uma operação de resgate. É uma construção ousada, causando no espectador uma confusão inicial. A partir do momento em que se nota essa divisão na narração, a tensão se intensifica e novamente o público é retirado da passividade. Por sua vez, O Bombardeio (2021), dirigido por Ole Bornedal, traz um episódio marcante para a Dinamarca durante a II Guerra Mundial. Em março de 1945, a força aérea britânica bombardeou a sede de Gestapo, em Copenhague, região já conquista pela Alemanha, porém, aviões atingiram acidentalmente uma escola, matando cerca de 100 pessoas. Dentre estas, 86 eram crianças. Diferente das demais obras, este filme leva ao público imaginar quantas mortes inocentes de fato aconteceram. Logo na introdução do filme, um carro com quatro jovens é bombardeado por engano, episódio comentado mais a frente e afirmado como um erro, para logo mais no desenrolar da trama, acompanharmos o drama e sofrimento dos pais ao buscarem nos destroços da escola por suas filhas.  

Há muito o que se falar de um conflito tão avassalador. A II Guerra Mundial trouxe mudanças em aspectos econômicos e sociais para o mundo. Os cenários da guerra servem hoje como museus: cidades como Amsterdã e Dunkirk oferecem exposições abertas para o público para estimular a memória crítica sobre acontecimentos cada vez mais distantes na história Junto com diversas áreas culturais, o cinema busca, ao reviver os anos de 1939 a 1945, eternizar histórias necessárias. Cada uma das obras comentadas está disponível em plataformas de streaming.

Referencias:

https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/segunda-guerra-mundial.htm
https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/segunda-guerra-mundial.htm
https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/urss.htm
https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/queda-muro-berlim.htm
https://brasilescola.uol.com.br/historiag/guerra-fria.htm
https://www.todamateria.com.br/blocos-economicos/
https://brasilescola.uol.com.br/geografia/onu.htm
https://www.dw.com/pt-br/regime-nazista-instrumentalizou-cinema-até-o-fim-da-segunda-guerra/a-53341467
https://www.adorocinema.com/filmes/filme-247271/
https://www.adorocinema.com/filmes/filme-60580/
https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/oskar-schindler-abridged-article
https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-151433/
https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-162779/

Um comentário em “A Segunda Guerra Mundial nas telas de cinema

  1. Que texto enriquecedor!
    Obrigada Nicole pela esplanacao tão certeira e necessária, para que, por meio das telas e suas diferentes narrativas, possamos relembrar deste período de horror e aprender a não mais repeti-lo.
    Com carinho…

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