Representatividade importa: Como a deficiência é retratada nas novelas

Por Amanda Andrade.

A abordagem da deficiência nas telenovelas brasileiras, geralmente foca em dramas pessoais e inclusão social. No entanto, a deficiência é muitas vezes retratada com estereótipos ou sofrimento como apelo dramático e oscila entre o coitadismo e a inspiração exagerada. É sabido que as pessoas com deficiência precisam lidar diariamente com barreiras atitudinais, preconceito, invisibilidade entre outras questões e a teledramaturgia poucas vezes consegue chegar perto de uma representatividade mais realista.

Vale a pena salientar como as telenovelas apresentam a temática da deficiência em diferentes perspectivas. A primeira se refere a uma noção de “cura” como a única possibilidade de um “final feliz” para o personagem. A segunda retrata a reabilitação e a inclusão social, através da autonomia e acessibilidade. Na novela “Viver a Vida” (2009), escrita pelo dramaturgo Manoel Carlos e produzida pela Rede Globo a personagem Luciana, interpretada por Aline Morais, uma modelo vaidosa, sofre um grave acidente de ônibus e se torna tetraplégica. Há no desenrolar da trama um processo de luto, aceitação e adaptação, expondo a dor física e psicológica da personagem. Toda essa transição é retratada de forma cuidadosa e sensível pelo autor que contou com a consultoria da jornalista e ativista Flávia Cintra, que é cadeirante e contribuiu para dar veracidade ao cotidiano, aos preconceitos e as barreiras de acessibilidade enfrentadas por pessoas com deficiência. Com isso, evitou-se o esteriótipo de final feliz com a cura da personagem, transferindo o enfoque para a reabilitação, inclusão social e aspectos que possibilitaram certa autonomia da personagem.

Por conseguinte, a telenovela foi veiculada pouco tempo depois da entrada em vigor da Convenção sobre os direitos da Pessoa com deficiência, ratificada pelo Congresso Nacional em julho de 2008. A Convenção garante os direitos básicos das pessoas com deficiência em equiparação de oportunidades aos serviços de saúde, reabilitação, educação, profissionalização, esporte, cultura e lazer. A novela foi sucesso de público e crítica e possibilitou ao público um contato mais próximo com as questões de limitação, deficiência e sobretudo um olhar de esperança, de novas possibilidades e recomeço, antes pouco explorado pela mídia.

Já a novela “Três Graças” (2025) escrita por Agnaldo Silva, produzida também pela Rede Globo, abordou o tema do TEA (transtorno do espectro autista), através do personagem Cristiano (Davi Luis Flores), filho de Alaíde (Juliana Alves) e Rivaldo (Augusto Madeira). Tal narrativa gerou debates sobre inclusão e neurodivergência, pela forma como a autor conduziu de maneira rasa um transtorno que é muito complexo. Na trama, a criança que até então fora apresentada como um garoto curioso e observador, com um comportamento de compulsão digital, registrando com seu smartphone tudo que acontecia na rua e na mansão da vizinha Arminda (Grazi Massafera), foi em um passe de mágica retratado de forma simplista dentro do espectro autista.

A forma como o tema do autismo foi tratado na novela não conseguiu atingir seu objetivo e levantou muitos questionamentos. A introdução dessa temática na trama ao que parece foi a tentativa de devolver importância ao núcleo familiar que se desfez com a morte do avô de Cristiano…… ao invés de trazer ao público esclarecimentos sobre o transtorno e dar a devida relevância que o tema merece. Em uma das cenas a médica que acompanhava Cristiano sugere a família orientar a criança a respirar fundo três vezes em caso de crise, como se esse procedimento fosse suficiente para administrar uma crise sensorial e explosões de irritação de um autista.

A teledramaturgia tem um papel importante ao colocar a deficiência no contexto e toda a transformação e aproximação da realidade como foi o caso da novela “Viver a Vida”. No entanto, a abordagem perde a relevância quando é tratada sem contexto e de forma superficial como no caso da novela “Três Graças”.

Outro aspecto que chama a atenção nas novelas e é histórico é a utilização de Cripface, que é a prática onde personagens com deficiência são interpretados por atores sem deficiência o que leva, quase sempre a reduzir a deficiência a estereótipos, falta de conscientização e abordagem inadequada. Assim, o Cripface é uma barreira para a devida inclusão de pessoas com deficiência nas produções audiovisuais e vem da crença de que elas não são capazes de interpretar tais papéis. Com a pressão estética imposta pela indústria cultural, as oportunidades para atores com deficiência ficam ainda mais restritas porque não se encaixam nos padrões sociais de beleza e neuro tipicidade.

Para a comunidade autista, por exemplo, o mimetismo criado por artistas sem deficiência ao interpretarem características de espectro autista, no cinema e na TV não corresponde a realidade da pessoa no espectro. Na deficiência física, o corpo é o principal marcador da diferença e sobre esse corpo são criadas diversas representações voltadas à perspectiva incapacitante. Essas interpretações são construídas ao longo do tempo a partir de múltiplas relações sociais e os meios massivos de comunicação que fazem parte da cultura são centrais na construção de sentidos. Apesar de ser fundamentalmente ficcional, devido a sua grande audiência e estilo narrativo, as novelas transformam-se em espaço publico de discussão, expondo problemas sociais, gerando controvérsias e incentivando mudanças, na medida em que promovem um processo de reflexão e visão das representações.

As representações construídas pelas telenovelas se associam à vida cotidiana e contexto de seus telespectadores, quando retificam e atualizam crenças e valores construídos por ela e geram um vínculo de identificação muito forte com seu público. Ao divulgar a deficiência de um modo mais abrangente a telenovela pode contribuir com a reflexão sobre os “fantasmas” da representação, construída e expandida largamente, no tempo e no espaço, a partir do modelo médico; e para a divulgação de ideias que se aproximam do modelo social, ainda pouco conhecido no Brasil.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *