Elitização do Futebol

Por João Pedro Diniz.

A comparação entre a matéria do Brasil de Fato, intitulada “O futebol está cada vez mais excludente e intolerante aos pobres”, e a cobertura da mídia comercial e de massa sobre o acesso dos torcedores ao futebol permite observar uma diferença importante de enquadramento jornalístico. O tema dos preços dos ingressos e do encarecimento da experiência de acompanhar uma partida aparece também em veículos comerciais, mas é normalmente apresentado de maneira mais factual, econômica ou circunstancial. No Brasil de Fato, a questão é transformada em um problema social e de classe, colocando no centro do debate a exclusão da população de menor renda do futebol.

A matéria do Brasil de Fato parte de uma ideia bastante explícita: o futebol brasileiro, historicamente associado às classes populares, estaria se tornando cada vez menos acessível justamente para aqueles que tradicionalmente formaram sua principal base de torcedores. O título  “O futebol está cada vez mais excludente e intolerante aos pobres”  já estabelece um posicionamento. Não se trata apenas de informar que os ingressos estão caros, mas de interpretar o aumento dos preços como parte de um processo de exclusão social. A escolha das palavras “excludente”, “intolerante” e “pobres” demonstra que a reportagem pretende discutir as consequências sociais da transformação do futebol em um produto cada vez mais caro.

Esse aspecto diferencia a abordagem do Brasil de Fato daquela encontrada com frequência na mídia comercial. Um exemplo interessante é uma reportagem do ge, intitulada “Preços dinâmicos de ingressos e transporte caro: quanto custa ver a Copa do Mundo de 2026?”. O texto apresenta dados sobre os preços dos ingressos da Copa e mostra que os valores poderiam chegar a dezenas de milhares de reais. A matéria também registra que críticos consideravam o modelo de preços capaz de afastar torcedores comuns.

Apesar de existir uma aproximação temática, o enquadramento é diferente. O ge procura responder principalmente à pergunta “quanto custa acompanhar a Copa?”. A reportagem apresenta preços, compara valores, explica o funcionamento da precificação dinâmica e contextualiza a expectativa de receitas da FIFA. O problema é apresentado a partir de números e informações sobre o mercado de ingressos. Já o Brasil de Fato parte de uma pergunta mais ampla: “quem ainda consegue ter acesso ao futebol?”

Essa diferença é importante para compreender o funcionamento de cada modelo de mídia. Na mídia comercial, o preço do ingresso pode aparecer como uma informação relevante para o consumidor. O leitor quer saber quanto terá que pagar para assistir a determinado jogo, quais são os setores disponíveis ou quais são as opções mais baratas. O Brasil de Fato, por outro lado, desloca a discussão do consumidor para o cidadão. O problema deixa de ser simplesmente o preço de uma entrada e passa a ser a possibilidade de uma parcela da população ser afastada de um espaço cultural e esportivo que historicamente lhe pertence.

A própria cobertura do ge demonstra que a questão econômica pode ser abordada de maneira bastante objetiva. Em outra reportagem, o veículo mostrou que o Remo tinha o segundo maior ticket médio entre os clubes da Série A de 2026, atrás apenas do Flamengo. O levantamento apresentou os valores médios pagos pelos torcedores e organizou os clubes em um ranking, permitindo visualizar as diferenças de preço entre as equipes.

Nesse caso, o foco principal é informativo e estatístico. O leitor consegue identificar quanto custa, em média, assistir a uma partida de cada clube. A questão social existe implicitamente, porque um ingresso de R$ 70, R$ 80 ou R$ 100 possui impactos diferentes para pessoas com rendas diferentes, mas a reportagem não necessariamente transforma essa diferença econômica em uma discussão sobre desigualdade social.

O Brasil de Fato realiza justamente esse deslocamento. Em vez de observar somente o valor absoluto do ingresso, a abordagem procura considerar o peso desse valor na renda do torcedor. Um ingresso que pode ser considerado acessível para alguém de alta renda pode representar uma parcela significativa do orçamento de uma família de baixa renda. Dessa maneira, a discussão sobre preço passa a estar diretamente relacionada à desigualdade econômica.

Outro exemplo da cobertura comercial é a reportagem do ge sobre o Corinthians x Remo, que apresenta ingressos entre R$ 80 e R$ 270, além de descontos para membros do programa de sócio-torcedor. O texto explica os setores, os valores, as condições de compra e as prioridades estabelecidas pelo clube. Mais uma vez, trata-se de uma informação extremamente útil para o torcedor, mas a matéria não tem como objetivo central discutir a transformação do futebol em um produto de consumo inacessível às classes populares.

Isso não significa que a mídia comercial ignore completamente a questão da desigualdade. Um exemplo particularmente importante é a reportagem do ge sobre o Atlético-MG, que criou um plano de sócio-torcedor destinado a pessoas de baixa renda e em situação de vulnerabilidade social. A matéria informa que o programa pretende proporcionar acesso a ingressos sociais para esse público.

Esse caso mostra que a mídia comercial pode, sim, abordar iniciativas relacionadas à inclusão de pessoas de baixa renda. Entretanto, o enquadramento novamente é diferente: o destaque está na iniciativa específica de um clube, e não necessariamente em uma crítica estrutural ao modelo econômico do futebol brasileiro. O problema aparece como algo que pode ser amenizado por meio de uma ação institucional.

No Brasil de Fato, a perspectiva é mais ampla. O acesso dos pobres ao futebol é apresentado como uma questão relacionada à própria transformação da modalidade. O veículo questiona, em essência, o processo de elitização das arquibancadas e a transformação do torcedor em consumidor. Nesse enquadramento, a valorização comercial dos estádios, os preços dos ingressos, os programas de sócio-torcedor, os setores VIP e a transformação das arenas fazem parte de um mesmo processo.

Essa diferença também aparece na forma como os torcedores são representados. Na mídia comercial, o torcedor costuma ser apresentado como cliente, consumidor ou público. As matérias sobre ingressos precisam responder às necessidades práticas de quem pretende ir ao estádio. No enquadramento do Brasil de Fato, o torcedor é apresentado principalmente como sujeito social, pertencente a uma determinada realidade econômica e afetado pelas transformações do futebol.

A cobertura da Copa do Mundo de 2026 pelo ge ajuda a demonstrar essa diferença. Em uma reportagem sobre os custos para acompanhar o Mundial, o veículo contou a história de um torcedor que vendeu o próprio carro e arriscava voltar desempregado para acompanhar a competição. A matéria mostra que ele gastaria aproximadamente R$ 24,5 mil, dividindo hospedagem com outras 17 pessoas e utilizando ingressos promocionais de US$ 60.

Essa matéria possui uma dimensão social bastante evidente e se aproxima do problema discutido pelo Brasil de Fato. Porém, a narrativa é construída principalmente como história individual. O personagem permite mostrar concretamente quanto custa acompanhar a Copa e quais sacrifícios um torcedor está disposto a fazer para realizar seu sonho. O Brasil de Fato, em contraste, procura transformar experiências desse tipo em uma discussão mais ampla sobre classe social, acesso e exclusão.

Essa distinção pode ser explicada pela diferença entre humanização e problematização estrutural. A mídia comercial frequentemente humaniza um problema por meio de personagens. O leitor conhece o torcedor, acompanha sua história e entende suas dificuldades. A mídia alternativa, sem necessariamente abandonar histórias individuais, tende a utilizar o caso para discutir as estruturas que produzem aquele problema.

Assim, enquanto uma reportagem pode dizer que um torcedor precisou gastar R$ 20 mil ou R$ 30 mil para acompanhar seu time, o Brasil de Fato pergunta o que significa para o futebol quando apenas pessoas com determinado poder aquisitivo conseguem continuar frequentando os estádios.

Outro ponto relevante é a questão da mercantilização do futebol. Na cobertura comercial, o aumento dos preços pode ser explicado por fatores como custos de operação, demanda, tamanho da partida, localização do estádio, qualidade do espetáculo ou mecanismos de precificação dinâmica. Na Copa de 2026, por exemplo, o ge explicou que a FIFA adotou um modelo de preços que varia de acordo com a procura e destacou a possibilidade de ingressos alcançarem valores muito elevados.

O Brasil de Fato, entretanto, permite uma interpretação mais crítica desse processo. A questão deixa de ser apenas “por que o ingresso está caro?” e passa a ser “quem ganha e quem perde com um futebol cada vez mais comercializado?”. Essa pergunta introduz uma dimensão política e econômica que não ocupa necessariamente o mesmo espaço na mídia comercial.

É importante destacar, entretanto, que essa comparação não significa afirmar que a mídia comercial seja necessariamente “neutra” e que o Brasil de Fato seja simplesmente “crítico”. Os dois modelos fazem escolhas editoriais diferentes. A mídia comercial também pode produzir reportagens investigativas e críticas, enquanto veículos alternativos também podem publicar notícias factuais. A diferença está principalmente nas prioridades, nos enquadramentos e na maneira de interpretar os acontecimentos.

No caso analisado, o contraste é bastante claro. O Brasil de Fato transforma o preço do futebol em uma questão de desigualdade social. O ge, por sua vez, transforma frequentemente o preço em uma informação sobre consumo: quanto custa, onde comprar, qual é o setor mais barato, qual é o ticket médio ou quanto um determinado torcedor precisará gastar.

Isso também demonstra como a escolha do título influencia a interpretação do leitor. “O futebol está cada vez mais excludente e intolerante aos pobres” já apresenta uma conclusão interpretativa. O leitor é conduzido a pensar sobre exclusão e desigualdade antes mesmo de entrar no conteúdo. Em contraste, títulos como “Quanto custa ver o Brasil na Copa?” ou “Preços dinâmicos de ingressos e transporte caro: quanto custa ver a Copa do Mundo de 2026?” apresentam uma pergunta prática e econômica.

Portanto, a principal diferença entre as abordagens está menos na existência ou não de informações sobre preços e mais na dimensão atribuída ao problema. A mídia comercial e de massa pode mostrar que o futebol está caro, apresentar os valores dos ingressos e até contar histórias de torcedores que enfrentam dificuldades financeiras. Já o Brasil de Fato utiliza esse fenômeno para construir uma crítica mais ampla à transformação do futebol em um espaço cada vez mais associado ao poder de consumo.

Dessa forma, a matéria analisada pode ser utilizada como um exemplo de enquadramento alternativo do futebol. Em vez de tratar a arquibancada como um mercado formado por consumidores, o Brasil de Fato a apresenta como um espaço de pertencimento popular que estaria sendo progressivamente restringido. A discussão deixa de estar limitada ao preço de um ingresso e passa a envolver desigualdade econômica, elitização dos estádios, mercantilização do esporte e perda do caráter popular do futebol.

Em síntese, enquanto a mídia comercial tende a perguntar “quanto custa acompanhar o futebol?”, a matéria do Brasil de Fato propõe uma pergunta mais profunda: “quem ainda pode acompanhar o futebol?”. É justamente essa mudança de perspectiva que caracteriza a diferença entre os enquadramentos e permite compreender o papel da mídia alternativa na construção de narrativas que colocam em evidência grupos e problemas que podem receber menor centralidade na cobertura esportiva tradicional.

Referências:

BRASIL DE FATO. O futebol está cada vez mais excludente e intolerante aos pobres. Brasil de Fato, 20 jul. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/07/20/o-futebol-esta-cada-vez-mais-excludente-e-intolerante-aos-pobres/. Acesso em: 22 ago. 2026.

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GE. Quanto custa ver o Brasil na Copa? Torcedor vende carro e cogita voltar desempregado para ver o hexa. ge, 10 jun. 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/10/quanto-custa-ver-o-brasil-na-copa-torcedor-vende-carro-e-cogita-voltar-desempregado-para-ver-o-hexa.ghtml. Acesso em: 22 ago. 2026.

GE. Preços dinâmicos de ingressos e transporte caro: quanto custa ver a Copa do Mundo de 2026? ge, 11 jun. 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/11/precos-dinamicos-de-ingressos-e-transporte-caro-quanto-custa-ver-a-copa-do-mundo-de-2026.ghtml. Acesso em: 22 ago. 2026.

GE. Remo tem o 2º ingresso mais caro entre os times da Série A de 2026. ge, 29 maio 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/pa/futebol/times/remo/noticia/2026/05/29/remo-tem-segundo-ingresso-mais-caro-entre-os-times-da-serie-a-de-2026.ghtml. Acesso em: 22 ago. 2026.

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