Distopia ou extensão da realidade? A Única Saída para o imperativo capitalista no cinema de Park Chan-Wook

Por Lucas Veloso.

A única saída para sobreviver às distorções da sociedade capitalista parece ser, inexoravelmente, apelar para o absurdo. É a partir desse argumento que Park Chan-Wook constrói a narrativa do longa, que poderia ter entrado na lista dos internacionais reconhecidos pelo Oscar, mas, por algum motivo, caiu no esquecimento.

Tensionar os limites da ação humana para tecer críticas sobre alguma questão social é uma tendência cada vez mais recorrente no cinema. “Parasita”, que se tornou um épico sobre as disparidades entre quem tem muito e quem não tem nada, é um desses exemplos mais evidentes. “Black Mirror”, que nos alerta sobre a corrosão do caráter em função dos supostos avanços tecnológicos, também é uma amostra clássica.

Assim, quando o exagero torna-se linguagem, é preciso compreender o que está por trás dessa transformação. Para mim, isso está ligado a uma tomada de consciência sobre a realidade, cada vez mais insensata, mais difícil de digerir e entender. A partir daí, a sátira extrema vira uma forma de chamar a atenção para o que não parece estar mais tão distante de nós — e consolida-se como um discurso direto que não deixa dúvidas sobre o caminho sombrio que estamos percorrendo.

É trilhando esse beco aparentemente sem saída que “No Other Choice” vai nos convencer de que as armadilhas do capitalismo estão prestes a enlouquecer os sujeitos e torná-los assassinos. Ao contrário da obra de Bong Joon-hoo, que trata do ressentimento frente à desigualdade, o filme de Chan-Wook mergulha no desespero diante do fracasso de um sistema que estimula a competição desenfreada enquanto disfarça a sua incapacidade de sustentar a própria promessa de evolução.

A selvageria corporativa, a naturalização da desumanização, a luta pela sobrevivência, dessa forma, são apresentadas pelo roteiro como causas da barbárie moral que se impregna no tecido social.

Percebe-se que “No Other Choice” está na direção certa quando não somos capazes de refutar ou oferecer soluções ao problema exposto por Park. Na verdade, o filme funciona mais como uma extensão da realidade do que como uma distopia ficcional. E é aí que a competência do diretor encontra eco, proporcionando-nos uma experiência um tanto quanto derivativa, mas necessária.

Seja como crítica ferrenha e nada sutil ao imperativo capitalista, como comédia de erros cujo humor diverte, mas assusta, ou como um thriller catastrófico em que o absurdo impressiona, mas não é mais capaz de chocar, que Chan-Wook continue tocando o dedo na ferida.

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