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Memórias de uma menina preta 

Uma crônica sobre crescer preta

Recentemente, assisti a uma entrevista que me conectou a memórias muito íntimas. Uma atriz negra, muito bonita, chamada Erika Januza, trouxe à mesa do GNT um debate que sempre esteve em mim, mas que eu nunca havia conseguido colocar em palavras. Ela disse assim: 

Até a estética pode ser uma forma de defesa”. 

Referia-se à luta de pessoas negras contra os preconceitos de raça. 

Parei no tempo. 
Rapidamente, conferi a mim mesma: como eu estava vestida? Se meu cabelo estava penteado. Se eu parecia arrumada. 

Conclusão: não o suficiente. 

Droga. O que diria meu pai sobre isso? 

Quando eu era pequena, ele me ensinou uma lição. Sempre que íamos sair de casa, dizia: “Antes de ir, troque o chinelo pelo sapato, prenda o cabelo e coloque uma roupa melhor”. 

Não importava o lugar. 
Fosse simples, fosse chique. 
Fosse para ir ao restaurante, fosse para a mercearia da dona Denise. 

Quando eu o questionava, ele respondia: 
“Minha filha, pessoas como nós não podem sair na rua malvestidas”. 

Com o tempo, percebi que, quando meu pai dizia “pessoas como nós”, ele se referia a pessoas pretas. 

Tenho muito a agradecer a ele. Durante muito tempo, foi a minha única referência racial. 

Lembro de dizer: 
“Queria que meu pai tivesse cabelo de menina”. 

Hoje, entendo que o que eu realmente queria era a representatividade de ver alguém com curvas no cabelo parecidas com as minhas. Talvez aprender sobre outras possibilidades: black power, tranças, pente garfo. Talvez entender que meu cabelo não precisava ser domado. 

Essa parte ficou a cargo da minha mãe e da minha irmã. Elas se esforçaram muito, e eu as admiro profundamente por isso, mas sabe como é, né? Mulheres brancas. Loiras. Não conseguiram me ensinar muito além de como deixá-lo baixinho e liso. 

Quando criança, eu gostava de assistir aos desenhos da Barbie. 
Era fácil se encantar por um universo completamente cor-de-rosa. 

Mas, no fundo, eu assistia esperando por ela: Teresa, a única personagem negra do desenho. 

Era com ela que eu me identificava. 
Tinha traços parecidos com os meus. Eu a achava tão bonita. Queria ser como ela. 

Só que, depois de um tempo, percebi que talvez fosse a única a enxergar beleza naquela boneca. 

Para todo mundo, a Barbie era a mais bela. 

E, sem perceber, associei a mim mesma a rejeição que a Teresa sofria. 
Eu me parecia com ela, e ninguém a escolhia. 

Todos escolhiam a Barbie. 

Foi assim que, ainda muito nova, comecei a me convencer de que, para gostarem de mim, eu precisava ser como ela. 

Eu era criança demais para entender o que aquilo significava. 
Não percebia que estava dizendo a mim mesma que, talvez, a única maneira de ser bem-quista, talvez até feliz, fosse me parecendo com uma boneca branca. 

Hoje vejo que isso moldou quem fui na adolescência.  

Aos 13 anos começaram as cartinhas de amor, os crushes e os burburinhos entre meninas e meninos. 

Via minhas amigas sendo cortejadas aos poucos e me perguntava: 
“Quando será comigo?” 

Mais uma vez, me desiludi. 
Percebi que aquilo não aconteceria. 
Me senti, de novo, rejeitada como a Teresa. 

Mas, então, lembrei da Barbie. 
A favorita de todo mundo, menos minha. 

Talvez eu devesse me parecer mais com ela. 
Mas como fazer isso sendo uma menina pretinha? 

Foi aí que decidi mudar o visual e colocar tranças pela primeira vez. 

E, uau. 

Comecei a sentir que estava sendo percebida. 
Recebi elogios, olhares. 
Me apaixonei pela sensação de ser incluída. 

Quando retirei as tranças, dei de cara com o pânico de voltar a não ser vista. 

Então radicalizei. 
Fiz outro penteado. Dessa vez, tranças com cachos. 

E foi assim que conquistei meu primeiro namorado. 

Eu ainda era uma menina pretinha, mas, de alguma forma, aquele cabelo, que nem era o meu natural, me fazia parecer mais bonita. 

Me viciei na sensação. 

Na sensação de ser vista. 
Elogiada. 
Desejada. 
Reconhecida. 

Troquei de cabelo como quem troca de roupa. 
Gastei nessa brincadeira uma fortuna que nem tinha. 

E não parou por aí. 

Comecei a investir em mais penduricalhos, roupas da moda, acessórios estilosos e, principalmente, na obrigação de nunca sair de casa mal produzida. 

Mas, com o tempo, voltei a me desiludir. 

Porque parecia que não era eu quem estava sendo amada, mas, sim, a minha versão menos preta. 

Essa personagem ia embora toda vez que eu retirava as tranças. 
E o que restava, ou melhor, quem restava, eram apenas aqueles que me aceitavam. 

Comecei a adoecer. 

Depois de finalmente ser tão amada, eu não suportava a ideia de voltar a ser rejeitada. 

Mas não teve jeito. 
Tive que voltar a ser eu mesma. 

E percebi os antes “apaixonados” repentinamente desinteressados. 

Ainda assim, alguma coisa nasceu em mim: 
o reconhecimento de que eu merecia, sim, o amor que eu mesma tinha por mim. 

Então comecei a cuidar melhor de mim. 
Do meu cabelo natural. 
Da minha pele. 

Com o tempo, fui curando feridas que já estavam enraizadas. 

Cresci. 
Aprendi. 
E ensinei para a Camilly de seis anos que nós éramos valiosas assim: pretas e de cabelo crespo. 

Hoje me deparo com um fenômeno ainda mais curioso, que eu me limito somente a observar. 

Novos termos nasceram. 
Existe até uma espécie de ditadura do “enrole o seu cabelo”. 

Mas, meninas crespas, eles ainda não estão preparados para nós. 

Romantizam as onduladas. 
No máximo, as cacheadas. 

Então, não se enganem com isso. 

Vejo minhas pretinhas belíssimas, cada vez mais arrumadas, na esperança de assim não serem rejeitadas ou trocadas. 

Já para os meninos existe até classificação: “nego doce”. 

Segundo o Google: 
homem preto com boa autoestima. 
Que se veste bem. 
Está sempre arrumado. 
Cabelo cortado. 
Barba feita. 
Bem na fita. Mais uma tentativa do homem preto de ser mais aceito e menos marginalizado. 

Ainda assim, parece não ser o suficiente. 

Porque a afropaty ainda não é a menina que se apresenta para a família, como bem diz a SZA
E o nego doce continua sendo enquadrado pela polícia na esquina. 

Seus corpos passaram a ser mais desejados, mais sexualizados. 

Nós, que por tanto tempo fomos tratados como objeto e ferramenta de trabalho, continuamos sendo vistos assim, só que, agora, mais bem apresentados.  

Claro, admiração suficiente para uma noite ou duas. 

Porque, depois disso, o corpo negro ainda parece não saber como é ser verdadeiramente amado. 

E, no dia seguinte, tudo continua. 

A preocupação com o cabelo. 
Com a roupa. 
Com a aparência. 

A busca incessante por algo que deveria ser básico: dignidade. 

Camilly Morena

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