Uma vez, quando eu tinha doze anos, escrevi um pequeno texto sobre pessoas em condição de rua. Eu era tão nova que mal sabia as repercussões de referir-me a elas como “moradores de rua” ou “mendigos” e usei essas palavras muitas vezes ao longo do texto. No entanto, mesmo sem saber muito de nada, eu ainda escrevi. À mão mesmo, em um pequeno diário que não durou mais do que dois meses. Acho que o caderninho ainda está em algum lugar na minha casa. O texto, também. E as palavras de minha pequena eu ainda ecoam na minha cabeça de vez em quando.
Não me lembro muito bem do que escrevi lá, mas recordo-me de que foi algo sobre a invisibilidade de pessoas em situação de rua. Um assunto relativamente pesado para uma criança, mas, vivendo em cidade grande, é algo que não dá para ignorar. Sem falar que eu sempre tive foco demasiado em detalhes que, para os outros, podem parecer pequenos. Então o texto não é lá tão surpreedente. Na verdade, ele era um tanto quanto amador, cheio de erros ortográficos, quiçá raso. Mas o sentimento estava lá. Ainda está.
Muitas coisas mudam em dez anos. Eu mudei em dez anos (ou quase dez, dado a data em que o texto foi escrito). Engraçado é ver como minha opinião não mudou. Como a sociedade não mudou.
Lembro-me de relatar como meus pais costumavam mudar de calçada ao verem um “mendigo” (palavra equivocada usada por minha eu do passado), como me puxavam para perto deles e evitavam olhar nos olhos da pessoa. Eles ainda fazem isso. E digo mais: as únicas maneiras para que pessoas em situação de rua sejam vistas são em contextos degradantes, onde elas são tratadas como os povos antigos tratavam os leprosos. Penso que, mesmo se a atenção gerada por esse tipo de pessoa for boa, tudo sempre vai cair na conta de sua moradia (ou falta dela). Isso porque os outros se regozijam no sofrimento alheio, seja caçoando dele ou tentando bancar o herói.
Vai lá um “morador de rua” fazer uma coisinha engraçada e demonstrar felicidade — o vídeo vai acabar na internet e tudo vai virar uma questão de pena. Então a mídia vai cair em cima e fazer uma grande revolução na vida da pessoa: uma casa nova, um makeover, ou qualquer doação que cause comoção, porque, querendo ou não, comoção e empatia são extremamente lucrativas. Um reencontro, sonhos sendo realizados, mudança de vida; tudo isso dá audiência e dinheiro.
Vamos rever então como pessoas em situação de rua podem ganhar atenção do resto da sociedade: ao serem vítimas de um crime cruel; ao passarem por alguém na rua e serem considerados perigosos; ao virar um exemplo de superação e força, uma propaganda que diz “ei! A meritocracia é real e o capitalismo não falhou!”.
É isso. Nada mais. Era isso o que minha eu de doze anos tentou desesperadamente explicar nas páginas de um diário e não conseguiu. Acho que chega a ser algo que é simultaneamente simples e complexo — simples, porque é algo facilmente observado no dia a dia, e complexo, porque faz menção a tantos outros problemas sociais, econômicos e históricos.
O pior é que essa coisa toda mexe com a nossa noção de solidariedade. Muitas foram as vezes em que passei por algum pedinte (tanto de dinheiro quanto de comida) e me perguntei se deveria ajudar. A partir daí, vai de cada pessoa. Minha mãe, por exemplo, diz que só ajuda se pedir algum alimento e que ignora se o desejo for alguns trocados. Mas conheço gente que nunca ajuda, por vários motivos. “É dever do governo”, “deveria estar trabalhando”, “está vagabundando”, dentre tantas outras desculpas são dadas, e eu não posso parar de me perguntar até que ponto a razão vai e a partir de onde ela vira cinismo. Porque, afinal, o dever de dar apoio a pessoas em condição de rua é do governo. Mas, dada a falta de proatividade nessas situações, não seria ao menos um pouco viável ajudar com o que podemos? Será que é apenas vadiagem, ou um problema estrutural o qual não se pode controlar? Perguntei-me sobre isso por anos e continuo perguntando, sem obter resposta alguma.
Talvez seja vadiagem. Talvez, quem sabe. Mas isso é razão suficiente para negligenciar outro ser humano? Seríamos nós somente dignos de amor, comida e moradia caso façamos valer a pena? Eu acho que não. Quem sabe minha opinião mude daqui mais dez anos. Ou talvez eu volte e faça outro texto para complementar esse. Porque tenho a impressão de que, não importa quanto tempo passe, esse assunto sempre será pertinente de algum modo.
Fico pensando se, em algum lugar do Brasil ou do mundo, há uma criança de doze anos passando por um pedinte e pensando em escrever o mesmo que eu escrevi tantos anos atrás, e me pergunto o que (se essa criança realmente existir) ela vai virar. Porque eu sinto que não posso ajudar muito de onde estou agora. Por isso, eu escrevo e posto, porque é a única ajuda que posso dar atualmente. Mas talvez essa criança vire um político, um ativista, um voluntário de ONG ou qualquer coisa que possa mudar o mundo diretamente. Talvez ela possa fazer a diferença que eu não fiz.
Não estou alegando que escrever não muda vidas. Certamente muda e sou prova viva disso. Sabe-se lá Deus onde eu estaria agora se eu não tivesse começado a escrever por um simples hobbie. Provavelmente em um lugar muito ruim. Mas sinto-me incapaz de fazer-me ser ouvida no meio de uma multidão. Espero, então, que essa criança não se sinta assim e possa ajudar mais pessoas do que eu, nem que eu precise esperar mais de dez anos para ver os resultados disso. Porque o mundo precisa disso — precisa de alguém com boas intenções e coragem inabalável para mudar o que é preciso.
E, quem sabe, talvez esse texto inspire alguém a fazer a diferença, seja agora ou daqui uma década. O tempo não importa, eu consigo esperar. Toda mudança pertinente é bem-vinda em um mundo tão apocalíptico como o nosso.
Às vezes, sinto que dez anos são muito tempo quando, na verdade, não são nada. Talvez nem dez mil anos sejam.
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