Hoje, tenho 21 anos, mas comecei minha jornada como escritora aos 12, sem saber o que era uma crase ou a diferença entre os quatro “porque”. Aprendi tudo na marra e continuo aprendendo — internet, livros, revistas, não importa o veículo, eu lia e imitava até chegar em um resultado legal… Aí, olhe só quem apareceu. O bendito travessão. É exatamente sobre ele que eu vou falar! Mas vamos por partes.
Aprendi por meio de grandes autores que me inspiram, desde George Orwell a Rick Riordan, que o uso do travessão em um texto vai muito além de um diálogo. Uso travessões com gosto e amor, acho até mesmo que deixa o texto mais bonito, mais pomposo. Então imagine como eu, uma defensora do uso do travessão, fiquei ao descobrir que, aparentemente, usar travessão em um texto é visto atualmente como sinônimo de Inteligência Artificial.
Falar que fiquei possessa é eufemismo. Cheguei até a ficar ofendida, como se tivessem xingado a minha mãe na minha frente. Porque, de repente, eu já não podia usar travessão em um texto que fiz com tanto carinho e dedicação, porque as pessoas iriam dizer que foi feito por um robô. Que ultraje! Veja lá, se um robô qualquer iria ter a exímia capacidade de escrever as burrices que eu escrevo!
O que mais me irrita é que não é mentira. IAs Generativas como ChatGPT usam e abusam do uso de travessões nos textos, tornando esse símbolo uma grande prova de uso de robôs ao escrever. Eu não posso sequer julgar uma pessoa que lê um texto com travessão e pensa “será que usaram IA para escrever isso?”, porque é uma dúvida extremamente válida. Válida, mas ofensiva. É um tapa na cara de cada escritor que existe por aí.
Quem me dera o travessão fosse o único problema. Atualmente, qualquer texto minimamente bem escrito é visto como IA e o autor é massacrado na internet sem poder se defender. Claro, há chances do texto ser feito por IA, mas as pessoas falham em perguntar: e se não for?!
Escrever é cansativo e trabalhoso, exige várias horas de seus dias, revisões, correções e muito mais. Escrever é uma arte, é complexo. E agora, uma boa leitura está sendo meramente reduzida a “foi um robô que fez”. Imagine só, você passar dias a fio escrevendo o melhor texto que você já produziu, apenas para ser chamado de IA porque a gramática está boa demais ou porque o maldito travessão lembrou alguém do ChatGPT. Isso aí é papo de levar qualquer um à loucura.
Sinceramente, é cansativo para mim, escritora, ter que pisar em ovos sempre que eu escrever, por medo de ser acusada de usar IA na escrita. Não vou negar, já usei a Inteligência Artificial para muita coisa, mas eu nunca, jamais, em toda a minha vida, sequer pensei em usar para escrever. Porque eu escrevo por hobby, por paixão, e não há paixão em um monte de dados e números. Não há maneira de expressar o que se sente quando quem está escrevendo é uma máquina incapaz de sentir. Ela pode emular bem, mas jamais terá a mesma alma de algo escrito com as próprias mãos e o coração.
Acho que posso dizer com certeza de que estou com medo do que o futuro nos traz. Não quero ser comparada a uma máquina, não quando passo dia após dia tentando aperfeiçoar a minha escrita para entregar um bom material para mim e para o meu público (que nem sequer existe). Mas existe saída? Existe escapatória quando a IA está adentrando nossas vidas tão sorrateiramente quanto um vazamento de gás?
Não vou entrar no assunto sobre ética. Não vou defender criações de leis ou seja lá mais o quê, ao menos, não agora, não aqui. Isso exigiria muita elaboração e justificativas e eu não estou aqui para fazer nada além de reclamar. Até porque é a única coisa que eu posso fazer.
Cada um tem seu lugar e seu trabalho. Um político vai criar leis para regular; um advogado vai garantir justiça; um ativista vai protestar; e eu, que sou escritora, vou sentar a minha bunda numa cadeira e reclamar até me cansar. Não parece muito, se comparado aos outros exemplos, mas é bem importante, porque estou na luta também. A cada vez que eu faço isso — sento a bunda na frente do computador e reclamo —, protesto contra o uso da IA na literatura; toda vez que quebro a cabeça tentando encontrar as palavras certas a escrever, sou resistência contra a robotização das emoções humanas; e a cada vez que espirro meu coração nessas páginas, contribuo para a preservação do que o ser humano faz de melhor: expressar-se.
A IA pode copiar tudo o que eu disse, palavra por palavra, e ganhar toda a fama que eu não tenho. Eu não ligo (okay, talvez só um pouquinho). Será apenas uma cópia fajuta, não o produto original, cheio de amor e dedicação. Eu posso falar baboseiras, mas pelo menos são baboseiras humanas, únicas e criativas. Não importa o quão ridícula seja a minha escrita, ela ainda é melhor do que qualquer texto que o ChatGPT ou qualquer outra IA pode escrever.
Provavelmente é isso que devemos ensinar às novas gerações de escritores. Você pode ter a gramática e ortografia de uma criança recém-alfabetizada, mas isso ainda é infinitamente melhor do que pedir para uma máquina escrever para você, apenas para ficar visualmente bonito. Porque, um dia, você vai evoluir e se tornar um grande escritor, mas a IA jamais evoluirá e passará a ter os sentimentos que você tem.
Pensando bem, talvez eu devesse continuar usando travessão. Acho que também seria um grito de protesto. Afinal, por que eu me renderia à ideia de que travessões pertencem à IA, se eu cheguei aqui primeiro?! Que o robô entre na fila de espera! A travessão já tem dono e ele é todo escritor que se preze.
Acho que esse é o fim da minha reclamação, o fim do meu protesto. Fiz a minha parte e estou satisfeita. E você? Vai fazer a sua?
Não tenha medo de usar travessão, da IA ou de qualquer outra coisa. O único medo válido de se ter quando se é artista é o medo da mediocridade.




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