Colab
foto autoral

Os olhos brilham quando a beleza ascende

Queria que meus olhos fotografassem, pra não depender de máquinas – elas perdem os instantes. Sempre busco a Beleza que compõe as pessoas ao meu redor e me alegro quando a vejo. Encontro-a em texturas, em luzes, em jeitos. Queria poder fotografá-la instantaneamente, imprimi-la, mostrá-la a quem pertence e convencer que a Beleza não é só um feito, é uma dádiva. Talvez tranquilizar os corações que temam não merecer.

Eu conheço esse medo, já fui estragada de tão feia. Lembro de estar na casa de uma amiga, aos 13 anos, e, na passagem pelo corredor externo para os fundos, assustar-me ao me ver em um espelho pela janela. Não sei o quanto me assustei por ser um vulto qualquer e o quanto me assustei por ser eu; na época brinquei com isso, não importava o motivo do susto, eu temia qualquer espelho. Eu era feia e sabia ser como ninguém. 

Felizmente, o tempo passa e eu fui embelezando. Ainda aos 13, fiquei bem em uma foto – um frenesi de alívio e paixão. Aos 14, brincando com meu celular, consegui uma foto bem posada, surpreendentemente instintiva. A  atitude do braço que transpassava minha cabeça e o ângulo inusitado foram mérito do acaso? Aos 15, eu me fotografava constantemente, tentando encontrar aquela Beleza que, às vezes, me pertencia; algumas fotos ficaram dignas (considerando-se a fase da vida que retratam), a maioria não é memorável. Aos 16, Ela veio aos poucos, com fotos melhores, que, em algum momento, não foram um lapso de sorte, já que capturavam uma beleza que realmente existia. Pela primeira vez, senti que era uma pessoa bonita. Aos 17, eu brincava com espelhos e com câmeras! Sentia-me a pessoa mais linda do mundo às vezes, sabendo que era só um sentimento, porque, na prática, eu era uma qualquer, mas vivi essa sensação mesmo assim. Nessa época, eu podia brincar de bonita mesmo se estivesse feia. 

Os 18 foram esperançosos, aos 19 quase morri, meus 20, nem entendo. Só tenho a certeza de não ser feia e alguns anos de prática modelando pra mim.

Junto a mim, minhas amizades cresceram e vi o desabrochar de cada uma. Algumas já eram belas antes, só amadureceram. A  maioria precisou da ajuda do tempo, como eu. As que vieram antes da minha eu não me lembro de me importar muito, não entendia, só tinha um pouco de inveja. As que vieram depois da minha, alegraram-me; o alívio, o encantamento que senti por mim e o nojo que conheci buscavam, em quem eu estimava, a chegada da Beleza. Queria que se aliviassem dos tumores do horror; que resplandecessem diante de si, para que se cultivassem.

As pessoas tem belezas que não poderiam ver; eu vejo belezas que não posso registrar. Então, tento ser capaz de comentá-las ou registrar o mais próximo possível dos instantes de esplendor. A iluminação muitas vezes favorece apenas a experiência sensível dos olhos atentos, que buscam as luzes para contemplar os azuis, verdes e vermelhos em cada pessoa.

Detalhe: acho que a visão é mesmo um dom, não posso brincar que as câmeras enxerguem melhor que eu, até porque, quando fui ao oftalmologista, ele riu de eu achar que tinha estrabismo e que precisaria de óculos de grau – a sua visão é perfeita.

Enfim, óbvio que eu não invento a beleza alheia, só gosto de buscar a que existe nas mínimas nuances. Reconheço que gente feia existe, inclusive, acho importante, para que eu, mediana, seja favorecida pelo contraste. Nivelar por baixo é útil quando não se tem vantagem. O que me chateia é quando gente escrota é bonita (morro de inveja) e gente querida é feia (morro de dó). 

Pra uma piada, digo que a beleza que importa é a que fica registrada. No colégio teve um rapazinho que esnobou de mim por ser estragadinha. Ele era muito mais bonito que eu; eu era muito mais fotogênica que ele. O fato é que ele era bonito, mas não sabia ser bonito; eu começava a dar indícios de beleza, mas sabia (dentro do possível) aproveitá-la. Se eu mostrar fotos nossas da época, vou parecer mais bonita que ele porque eu tinha mais propriedade de mim (passo horas flertando com o espelho, tenho que ter resultados mesmo). Hoje ele é ainda mais delicioso e continua não sabendo se aproveitar em fotos – adoro!

Apesar de sonharmos tanto, a Beleza muitas vezes é mais um feito do que uma dádiva. Quando vejo as pessoas em seu ápice, tendem a ser mais por esforço do que sorte. Ainda mais quando se servem do que realmente as valoriza, sem ceder às efêmeras tendências ou à eterna pressão social. Ela não é tão subjetiva como dizem e tanta gente acredita. Nessa busca muito cansável, porém persistente, pela perfeição, não minto: também me mudaria um pouco, mas queria mesmo é ser como um feitiço. Uma nuance espiritual que se manifeste na experiência mundana, mas que seja o feito de uma mente poderosa, que faz da magia o seu veredito…

O que mais confio é que devemos buscá-la na vida, não sacrificar esta para a outra – isso é “mardade das pió”. O canto do Assum Preto não é mais bonito se ele precisar sofrer pra isso e eu não quero presenciar a desgraça alheia (exclui-se quem eu detesto). Quero que ele cante por felicidade e que disso me venha o belo. A graça também é um feito de quem sente, por também ser um sentimento. Por favor, não o distorçamos ao tentar materializá-lo…

No fim, apesar de não tão subjetiva, a Beleza é um feito mais moral do que se imagina. 

É nessa força de coesão que o universo se sustenta. Em nossa existência terrena podemos entendê-la como amor, desejo. Algumas divindades como Afrodite podem nos parecer fúteis, mas o cosmos as conhece intimamente. É dessa força mor de atração que tudo se conecta e se faz possível. Não sou capaz de dimensionar seu poder, mas confio em Minha Deusa, entrego-me a ela em meio ao caos em que tudo se move.

Ainda assim, ingrata, constantemente não me satisfaço pela vida. Eu peço pra que o tempo passe logo, para que mude. Desejo visceral e amargamente viver em esplendor em cada instância, para não acreditar que deva estar morta. 

Queria guardar tudo, lembrar de tudo que me encanta. Nada vale mais do que o que se vive, mas nem os registros são capazes de preservar a experiência. Tenho medo de esquecê-la, porque se um cérebro normal já não é suficiente, quem dirá o meu. 

Algumas coisas pode-se ver muitas vezes, mesmo que não igualmente. O Sol continuará acendendo o verso das árvores e o meu cabelo (amo!!!).

A (esmagadora) maioria não verei novamente, nem similares. A ela: despeço-me chateada. Não tenho como me apropriar mesmo…

Queria poder condensar a beleza que vivo, alimentar-me dela depois. Lembrar de como tudo foi precioso. Talvez, assim, a nostalgia não me invadiria como uma neblina… suave, úmida, fria. Empalidecendo a visão, obstruindo o olfato, enrijecendo o tato. É uma delícia quando esfria as narinas, não quando congela o peito. A tangibilidade da vida passa e perdê-la sempre me destrói. Não dá pra acessar o passado… nem desejo retornar, só queria retomá-lo: ainda dimensionar na flor da pele as alegrias que vivi e vi. 

Contrariamente, eis o futuro: esquecer dos cheiros, das texturas, das vestes; de como cada sorriso era esboçado; de como a fala expandia-se pelos peitos, pelos braços e minuciava-se pelas mãos; esquecer as gargalhadas, os suspiros, os vazios na hesitação ou no ensaio das palavras. Em algum momento, os diálogos terão apenas a minha voz, se tiver a sorte de não se tornarem mera narração… ou uma sugestão de assunto.

A nostalgia insinuará a presença de tudo enquanto o tempo me tirar de pouco em pouco. Mesmo já perdendo pra ele, não desejo; vivo em negação. Pra isso, somente as artes e os registros servem, mesmo que pouco.

Intitulei a crônica com um verso da música “(não te vejo meu)” da Manu Gavassi, sinto verdade nele quanto à minha sensação diante da vida. Pois bem, encantamento: os olhos realmente brilham quando a Beleza acende.

Rayssa Moura

Adicionar comentário