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(Foto: Todd Gray)

Michael: um culto ao maior artista de todos os tempos

Quase 20 anos depois de sua morte, o Rei do Pop segue em evidência e emplaca músicas da década de 1980 no topo da Billboard

Dirigido por Antoine Fuqua, Michael estreou meteoricamente, arrecadando mais de R$1 bilhão antes do primeiro mês de lançamento e consolidando-se como a maior cinebiografia da história do cinema, ultrapassando Oppenheimer (2023) e Bohemian Rhapsody (2018). O filme aborda a vida e o legado de um dos seres humanos mais conhecidos do mundo, que se mantém em evidência e volta a figurar entre os artistas mais ouvidos do planeta duas décadas após sua morte.

A força do cinema levando o Rei do Pop ao topo das paradas

O filme chegou ao Brasil no dia 23 de abril e se tornou a segunda maior bilheteria do ano no país. Impulsionado pelo sucesso da biografia, o catálogo de Michael voltou a dominar as paradas nas últimas semanas, com Billie Jean voltando ao topo da Billboard e ao Hot 100, juntamente com Beat It, Human Nature e outros sucessos da carreira do artista. O cantor emplacou oito faixas no top 50 Global do Spotify, sendo três delas no Top 10. No TikTok, edits do cantor chegam a bilhões de visualizações.

Muito mais que números, há um fascínio coletivo que envolve a figura de Michael Jackson: teorias, curiosidades, releituras e homenagens reforçam a aura quase sobrenatural construída ao longo de sua trajetória. Essa mística não nasce apenas de seu talento inquestionável, mas também da forma como sua imagem foi construída ao longo dos anos.

Michael Jackson se tornou um personagem que ultrapassa a condição humana comum, tornando-se quase como uma figura religiosa. O filme, estrelado brilhantemente por Jaafar Jackson, sobrinho do próprio Michael, reforça o culto ao maior artista de todos os tempos, idolatrado por uma geração que não havia nem nascido antes da sua morte.

Mais que um rei, Michael Jackson se tornou praticamente um Deus para os amantes da música (Foto: Reprodução Michael)

Ídolo de uma geração que não o viu em vida

Para a geração atual, que consome cultura de maneira fragmentada e acelerada, Jackson surge como uma figura paradoxal: um ícone de um passado analógico que se encaixa perfeitamente na lógica viral do presente. Seus passos de dança continuam sendo reproduzidos nas principais plataformas de mídias sociais, seus figurinos inspiram tendências e sua estética segue sendo referência em videoclipes e performances ao vivo.

O lançamento do filme Michael reforça ainda mais o caráter religioso em torno do artista. A produção não se limita a contar sua história. Ao revisitar momentos icônicos da carreira e enfatizar sua genialidade artística, ela funciona como um verdadeiro culto à sua imagem. Avaliada negativamente pela crítica do Rotten Tomatoes, a biografia fez grande sucesso entre o público geral e atingiu 97% de aprovação nas reviews do site.

Mais do que uma cinebiografia, o filme atua como um mecanismo de ressignificação. Em uma era em que a memória cultural é constantemente revisitada e reinterpretada, Michael ajuda a reintroduzir o artista para novos públicos, ao mesmo tempo em que reafirma sua grandeza para aqueles que já o admiravam. É uma espécie de ponte entre gerações, onde o passado ganha novos contornos e continua influenciando o presente. 

Mais música, menos polêmica

Segundo críticos e jornalistas, que avaliaram negativamente o longa, o roteiro evita passar por temas espinhosos e polêmicos que estiveram muito presentes durante toda a carreira de Michael Jackson, higienizando a imagem do cantor e focando intensamente nas performances musicais e no talento artístico de Jackson para garantir o apelo emocional e comercial. 

Interpretando seu tio, Jaafar Jackson é um dos grandes responsáveis pelo sucesso do filme. (Foto: Reprodução Michael)

Com cerca de duas horas de duração, o filme acompanha a trajetória do artista desde a infância no grupo Jackson 5 até o sucesso na carreira solo, e encerra sua narrativa durante a turnê “Bad”, em 1988, deixando o terreno preparado para a exploração de fases posteriores e mais polêmicas da vida do ídolo. O segundo filme já está sendo desenvolvido pela Lionsgate. Com recordes de bilheteria e o público entoando clássicos nas poltronas, Michael prova que o legado do Rei do Pop continua mais vivo do que nunca na cultura popular. 

O cinema como show ao vivo

A obra pode ser vista mais como um musical do que uma cinebiografia, mas talvez seja isso que o público quer ver. As sessões de Michael têm revelado um fenômeno curioso: em muitos cinemas, o público abandona a postura passiva tradicional e transforma a exibição em uma espécie de show ao vivo. Pessoas cantam, gritam, aplaudem coreografias e reagem às cenas como se estivessem diante do próprio Michael Jackson no palco. Mais do que simples euforia de fãs, esse comportamento expõe uma dimensão geracional importante. Boa parte do público mais jovem nunca teve a possibilidade de vivenciar o Rei do Pop em seu auge ao vivo, tornando o cinema um espaço de reconstrução simbólica dessa experiência perdida, quase como uma tentativa tardia de participar de um acontecimento cultural histórico.

Duas décadas após sua morte, Michael Jackson volta a mobilizar multidões (Foto: Reprodução Michael)

Esse movimento também evidencia uma mudança mais ampla na forma como as novas gerações consomem entretenimento. A lógica contemporânea do fandom é profundamente participativa: não basta assistir, é preciso reagir, compartilhar, performar pertencimento. Em um contexto moldado por mídias sociais, lives e experiências coletivas digitais, o silêncio contemplativo tradicionalmente associado ao cinema perde espaço para uma relação mais interativa com a obra. A sala escura deixa de ser apenas um ambiente de observação e se aproxima de um ritual comunitário, algo que combina especialmente com um artista cuja imagem sempre esteve ligada ao espetáculo e à mobilização emocional das multidões.

Ao mesmo tempo, o fenômeno revela uma contradição interessante. Se, por um lado, a reação do público comprova a permanência do impacto cultural de Michael Jackson décadas após seu auge, por outro, ela também desloca a atenção do próprio filme para a experiência coletiva ao redor dele. Em certos momentos, a sessão se torna menos sobre a narrativa de Michael e mais sobre a necessidade das novas gerações de viver uma experiência compartilhada. Talvez isso diga tanto sobre a força do artista quanto sobre uma geração que busca, em espaços culturais tradicionais, formas mais intensas e participativas de conexão emocional.

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Arthur de Pinho

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