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As consequências do machismo presente no futebol

Apesar do crescimento da inclusão, mulheres ainda sofrem muita opressão dentro do esporte

Não é novidade que o machismo é algo enraizado na sociedade. E, quando se fala da presença de mulheres no futebol, esse preconceito é ainda mais presente. Todos os dias, as mulheres sofrem ataques na internet, são invalidadas por darem opiniões sobre jogos, sem contar a enorme desvalorização que enfrentam em relação às ocupações no meio futebolístico. Segundo uma pesquisa do Globo Esporte, as figuras femininas ocupam apenas 1,7% dos cargos de gestão e 0,4% das comissões técnicas dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro. A maior parte da presença feminina concentra-se em áreas de apoio (cerca de 35%) e no núcleo de saúde e performance, como nutricionistas e psicólogas (25,3%).

Rafaelle Souza com fãs no estádio durante partida da Seleção Brasileira/Foto: Juan Manuel Serrano Arce.

Atualmente, mais mulheres estão frequentando estádios, trabalhando no ramo esportivo e expressando suas opiniões sobre futebol. Apesar do aumento da presença feminina no mundo futebolístico, essa inclusão ainda ocorre de forma lenta e desigual.

Presença de mulheres nos estádios tem sido cada vez mais comum/ Reprodução: Instagram do Clube Atlético Mineiro.

A realidade machista que vivem as profissionais

A técnica das Vingadoras (Clube Atlético Mineiro), Fabi Guedes, relata que precisa provar o seu conhecimento mais do que os homens o tempo todo, que precisa estudar o dobro e que, mesmo assim, já perdeu cargos para quem não tinha a mesma competência. A treinadora não é a única mulher a passar por isso. Todos os dias, diversas profissionais, de várias áreas do esporte, têm suas opiniões invalidadas apenas por serem mulheres, precisando se esforçar o dobro para legitimar suas posições.

Fabi Guedes na Vila Olímpica do Clube Atlético/ Foto: Rafaelly Barcelos.

Relatos de profissionais e postagens nas redes sociais mostram que, muitas vezes, esses comentários de desvalorização vêm de colegas de profissão ou até de torcedoras, que criticam ou diminuem comentaristas, narradoras e jogadoras, por exemplo.

Comentários de internautas mulheres sobre a aversão às mulheres no futebol e na narração/ via X.

A jogadora Angelina Alonso Constantino, camisa 8 da Seleção Brasileira, relatou recentemente, depois da partida Brasil x EUA, que, durante o amistoso, recebeu comentários das adversárias dizendo que as brasileiras não sabiam jogar bola e que elas eram “uma merda”. Falas como essas, vindas de mulheres, atraem e legitimam esses ataques.

O machismo no futebol é algo tão comum que jogadores praticam esse preconceito em público, como ocorreu na final do Campeonato Paulista, quando o zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, fez uma crítica à árbitra Daiane Muniz, dizendo que não deveriam colocar uma mulher para apitar um jogo “daquele tamanho”. O caso repercutiu nas redes sociais, e muitos torcedores deram apoio ao jogador e concordaram com a fala.

Esse contexto tão hostil para as mulheres é o reflexo de um ambiente onde o machismo não encontra punições severas. Na maioria das vezes, atitudes como essa recebem apenas um pronunciamento público e um pedido de desculpas, que acabam não fazendo diferença no cenário, uma vez que, se tal preconceito não tem consequências, ele continua acontecendo constantemente.

Comentários de internautas sobre o vídeo da entrevista com fala machista do zagueiro Gustavo Marques/ via Instagram.

Um exemplo de que esses episódios acontecem com frequência é o ocorrido na partida entre São Paulo e Ferroviária, envolvendo a zagueira do Sub-20 do São Paulo Futebol Clube, Sarah Aysha, que foi chamada de “biscate” pelo maqueiro do time adversário enquanto saía do campo na maca.

Na internet, encontravam-se comentários de internautas dizendo que “futebol é isso mesmo”, que a jogadora estava “sentida”, era “vitimista” e não aguentaria um dia no futebol masculino. Ambos os times emitiram notas, e o maqueiro foi dispensado pela Ferroviária, rompendo com o histórico de impunidade. Geralmente, o silêncio dos times e a impunidade compactuam com a ideia de que o futebol é um território onde as mulheres não são profissionais dignas de respeito.

A árbitra assistente Érica Lopes relata que sofreu ataques machistas em campo inúmeras vezes, com falas que diziam que ela não deveria estar ali e que o lugar dela era arrumando a casa, lavando roupa ou fazendo outras tarefas domésticas. A profissional também relata que diversas vezes tentaram questionar o seu conhecimento apenas por ser mulher, e isso acaba refletindo e, às vezes, até prejudicando o trabalho dela, visto que as escalas para arbitragem em jogos masculinos são dadas, em sua maioria, para homens, e a remuneração das competições masculinas é bem maior.

Comentários de internautas sobre o ataque sofrido por Sarah Aysha/ via Instagram.

O futebol feminino também sofre muita dificuldade de visibilidade na mídia. Embora campanhas promovam o empoderamento feminino no futebol em grandes eventos, como a Copa do Mundo, a falta de apoio financeiro e a invisibilidade da rotina das jogadoras e de campeonatos nacionais, como o Brasileirão, mostram como o esporte feminino é desvalorizado se comparado ao masculino.

Desmotivação e receio entre torcedoras e futuras profissionais

Nas arquibancadas, segundo cinco torcedoras que preferiram não ser identificadas, a sensação é de que são mais respeitadas quando estão acompanhadas de uma figura masculina. Apesar de nenhuma das entrevistadas ter sofrido assédio dentro dos estádios, a invalidação dentro e fora das redes sociais é frequente no cotidiano de todas elas. Raras foram as vezes em que deram opiniões sem serem questionadas e anuladas, além de terem que provar o conhecimento até três vezes mais do que os homens nas discussões sobre o esporte. O dia a dia marcado por invalidação e machismo reflete em mulheres se sentindo receosas de ocupar esses lugares.

O interesse das estudantes pela atuação profissional dentro do esporte tem crescido cada vez mais, mas esbarra no medo de encarar um mercado tão hostil, o que muitas vezes silencia os sonhos de futuras jornalistas, atletas, árbitras e gestoras. Uma estudante de Jornalismo relata que se sente insegura para ingressar na área, pois, em seu cotidiano, já precisa ficar provando seu conhecimento sobre futebol e, mesmo assim, muitas vezes é ignorada, o que a faz sentir que terá mais dificuldades do que qualquer homem para conseguir um bom emprego no ramo.

Comentários de internautas mulheres sobre terem sempre suas opiniões invalidadas/ via X.

A luta por espaço e respeito continua

Ainda há muito respeito e inclusão a serem conquistados pelas mulheres no mundo do futebol. A presença delas em cargos dentro do esporte ainda é muito pequena e, quando os ocupam, passam por provas de conhecimento, são perseguidas e, muitas vezes, assediadas — o que também acontece com torcedoras, como relatado anteriormente.

Pesquisadores apontam que a superação desse cenário exige reformas estruturais que vão além de ações pontuais da CBF ou de homenagens institucionais em datas comemorativas. Em estudo publicado na revista científica E-legis, os pesquisadores Otávio Balzano, João Munsberg e Gilberto Silva defendem que a verdadeira mudança passa por uma aproximação entre as universidades e os clubes. Segundo os autores, os cursos superiores precisam enfatizar a formação humana e debater os preconceitos no esporte, enquanto os clubes devem investir na formação cidadã e integral dos atletas da base, abordando criticamente temas como o machismo e dando visibilidade e punição aos casos de discriminação dentro e fora das quatro linhas. O desafio do futebol brasileiro passa por transformar discursos de igualdade em práticas cotidianas de respeito, dividindo a responsabilidade entre a educação, a gestão esportiva e a sociedade.

“O futebol é o coração do machismo. Por muitas vezes tentam questionar minha competência pelo simples fato de ser mulher. No entanto, tantas outras vieram na minha frente e abriram muitas portas. Isso nos dá mais força para seguir e continuar trabalhando para que outras possam ocupar o espaço que elas quiserem. Não tem competição de gênero, não queremos facilidades, queremos igualdade de oportunidade, simples assim”, árbitra assistente Érica Lopes.

Reportagem desenvolvida por Ana Luísa Muniz e Rafaelly Barcelos na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a orientação do professor e jornalista Vinícius Borges.

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