Belo Horizonte tem uma relação cada vez mais próxima com o Oriente. Restaurantes japoneses, coreanos e chineses se multiplicam pelos bairros da cidade. As feiras de cultura pop reúnem cosplay, mangá e k-pop em eventos cada vez mais frequentes, e lojas de produtos asiáticos ocupam vitrines no Centro e na Savassi.
O interesse pelo Oriente, no entanto, vai muito além da gastronomia e do entretenimento. Ele chega ao corpo, à mente e à rotina de vários belo-horizontinos por meio das artes marciais.

Faixas, dojos e tatames: o mapa das artes marciais orientais em BH
Nas últimas décadas, modalidades de origem japonesa, coreana, tailandesa e chinesa ganharam espaço crescente na capital mineira. Foram identificadas mais de 60 escolas e centros de treinamento ativos em Belo Horizonte, distribuídos por bairros que vão do Centro-Sul à Pampulha, do Buritis a Venda Nova.

O Karatê foi um dos primeiros estilos a se enraizar na cidade, com a academia Tenri Dojo funcionando desde 1966. O Taekwondo chegou a Minas Gerais em 1976 na Academia Park e hoje conta com escolas em várias regiões. O Judô atrai praticantes de todas as idades em vários dojos espalhados pela cidade. O Muay Thai, arte tailandesa, ganhou terreno em academias multidisciplinares que reúnem diferentes estilos sob o mesmo tatame. O Jiu-Jitsu se sobressai às demais, e é hoje uma das modalidades com maior número de escolas na cidade, com representantes de franquias como Gracie Barra, presentes em vários bairros.
Quem procura essas práticas raramente busca apenas condicionamento físico. Disciplina, autoconhecimento, espiritualidade e conexão com tradições milenares também estão entre as motivações citadas por praticantes. Em um contexto urbano marcado por estresse e correria, as artes marciais orientais oferecem também um ritual de desaceleração: o silêncio do dojo (espaço material, seja de treinamento físico ou mental de tradições japonesas), a reverência antes do treino, a repetição das formas. Esse é um perfil que diversifica cada vez mais. Nas escolas de BH, é possível encontrar crianças de seis anos treinando ao lado de adultos de 70, executivos e estudantes, iniciantes e veteranos de décadas de tatame.

Fonte: Instagram @graciebarrabh
Kung Fu: quando a luta é só o começo
Dentro desse universo de artes marciais orientais que cresce em Belo Horizonte, o Kung Fu ocupa um lugar singular. Sua história começa muito antes dos filmes de Bruce Lee e dos seriados de televisão que popularizaram a arte no Ocidente nas décadas de 1960 e 1970. As primeiras formas de artes marciais chinesas foram desenvolvidas nas eras pré-dinásticas, evoluindo a partir das necessidades de defesa e caça das comunidades primitivas. Foi durante as Dinastias Tang e Song que o Kung Fu experimentou seu florescimento mais significativo, quando os mosteiros budistas e taoístas se tornaram centros de prática marcial.
O Mosteiro Shaolin, construído em 495 d.C. aos pés do Monte Song na província de Henan, desempenhou papel central nessa história. Lá, monges que precisavam se defender de ladrões e senhores da guerra desenvolveram um sistema único que combinava técnicas de combate, exercícios respiratórios, filosofia budista e medicina tradicional chinesa.

Fonte: G1
O próprio nome Kung Fu carrega essa complexidade. Em mandarim, os ideogramas 功夫 (gōng fū) significam literalmente “habilidade adquirida através de esforço e prática dedicada”, uma definição que transcende em muito a luta. A arte foi se diversificando ao longo dos séculos em vários outros estilos, divididos entre escolas externas, fundamentadas nos ensinamentos de Buda e com ênfase no treinamento físico, e escolas internas, baseadas no Taoísmo e no cultivo da energia vital. Entre os estilos mais praticados hoje estão o Shaolin do Norte, o Wing Chun, o Tai Chi Chuan, o Tang Lang Quan (Louva-a-Deus) e o Sanda (boxe chinês de combate livre).
No Brasil, o Kung Fu chegou pelas mãos de mestres chineses que emigraram ao longo do século XX. Um dos mais importantes foi o Grão-Mestre Chan Kowk Wai, nascido em 1936 na cidade de Taishan, província de Cantão. Iniciado no Kung Fu aos quatro anos de idade, Chan chegou ao Brasil em 1960 e passou a ministrar aulas no Centro Social Chinês de São Paulo. Em 1973, fundou a Academia Sino-Brasileira de Kung Fu, de onde saíram professores que levaram o estilo para todo o país. Foi dessa linhagem que chegou ao Kung Fu em Belo Horizonte.

Fonte: Kung Fu Zen Marcial
O Caminho do Dragão: a Long Dao e o Kung Fu em BH
No bairro Santo Antônio, dentro do Mackenzie Esporte Clube, em uma sala forrada de tatame e decorada com símbolos da cultura chinesa, funciona a Long Dao Escola de Kung Fu Shaolin. O nome não é aleatório. Em mandarim, 龍道 (Lóng dào) significa “Caminho do Dragão”, uma referência direta à filosofia que sustenta o projeto. “Na cultura chinesa, o dragão representa o céu, o movimento, a adaptabilidade e a visão de longo prazo”, explica o professor Fábio Lana, fundador e proprietário da escola. “Quando o aluno entra aqui, ele começa a trilhar o caminho do dragão: aprender a domar seus impulsos, trabalhar sua energia, sua paciência e, consequentemente, o seu autoconhecimento.”
Fábio Lana tem 44 anos e pratica Kung Fu desde 1999. A história com a arte marcial, no entanto, começou antes. Aos 14 anos, durante um treino informal de Karatê com um amigo, viu pela primeira vez a execução de um kati de Kung Fu. “Foi como se uma bomba tivesse explodido no meu peito. Meu coração acelerou, um arrepio percorreu meu corpo e foi naquele instante que eu descobri o que queria para minha vida”, recorda. Seus pais, contrários à ideia por considerarem a arte marcial uma atividade perigosa, nunca o matricularam em uma escola. A paixão ficou represada por anos, crescendo em silêncio.
Foi só em 1999 que o sonho se tornou realidade, quando Fábio ingressou na Escola de Kung Fu Shaolin do Norte de BH, sob instrução do Professor Neemias Oliveira, herdeiro direto da linhagem do Grão-Mestre Chan Kowk Wai. A primeira aula foi suficiente para confirmar o que ele já sabia. “Já na aula experimental, soube que era aquilo o que queria para minha vida.” Em 13 de outubro de 2007, assumiu sua primeira turma como monitor, numa academia de musculação no bairro Santa Lúcia. Em 2022, após um exame de sete horas de duração, graduou-se professor de Kung Fu Shaolin do Norte. Em 23 de maio de 2023, fundou a Long Dao ao lado de 70 alunos.

Fonte: Instagram
A escola oferece quatro modalidades: o Shaolin do Norte, sistema composto por dez rotinas tradicionais de mãos livres e mais de dez armas, o Tang Lang Quan (do qual a Long Dao é a única escola autorizada a ensinar a linhagem Li Feilin no estado de Minas Gerais), o Tai Chi Chuan com sua prática de movimentos lentos e meditativos voltada ao cultivo da energia interno, e o Sanda, o boxe chinês de combate. “Ter esses estilos em nossa escola é uma forma de complementar o treinamento dos nossos alunos”, explica Fábio. “São modalidades que se complementam e atendem a objetivos muito diferentes.”
O perfil de quem procura a Long Dao é variado. Há pais que matriculam os filhos pela filosofia, adultos que buscam condicionamento físico, outros que chegam pela defesa pessoal, e há ainda quem venha movido por uma atração mais difusa pela cultura oriental. “Desde crianças de seis anos até alunos com mais de 80 treinam aqui. Se tem 30 alunos em um treino, são 30 treinos diferentes em um só”, diz o professor. “Eu sempre levo em consideração a individualidade de cada um. Sempre estarei lá para ouvir, acolher, ensinar e aprender com todos.”
Foi exatamente essa busca por algo mais significativo que levou a professora Bárbara à Long Dao. “Tinha necessidade de fazer atividade física e vontade de fazer isso através de algo que tivesse mais significado para mim”, conta. O que encontrou foi mais do que esperava. “O Kung Fu ampliou minha visão sobre a própria arte, que deixou de ser apenas uma luta, e me despertou para a cultura oriental.”
Patricia chegou à escola ainda mais jovem, aos 16 anos, depois de anos alimentando o sonho de praticar uma arte marcial. “Desde os 10 anos eu queria fazer alguma arte marcial, mais por assistir filmes de ação e querer aprender a fazer os movimentos legais de luta”, conta. Depois de pesquisar e comparar diferentes modalidades, optou pelo Kung Fu pela diversidade de estilos e armas. “Fiz a aula experimental com o professor Fábio e gostei muito, principalmente porque vi os alunos mais graduados treinando com várias armas diferentes no fundo.” Mais de dez anos depois, Patricia é instrutora na Long Dao. “Não consigo imaginar minha vida sem o Kung Fu, mesmo nos momentos em que estou treinando menos por conta da faculdade ou do trabalho.”
O que mais chama a atenção de quem começa, segundo Fábio, não é a habilidade marcial em si, mas o que a prática desperta. “O que observo mudar nas pessoas é a calma, a percepção da sua verdadeira essência, o crescimento pessoal. O corpo físico se transforma junto com a mente para melhor.” Patricia confirma: “O Kung Fu desenvolve o corpo e promove uma consciência corporal muito boa, que me ajuda em todas as outras atividades. Além disso, promove também a saúde mental por ser uma arte que valoriza o equilíbrio do corpo com a mente.” Para Fábio, essa é a principal diferença entre o Kung Fu e outras artes marciais. “O inimigo é interno. A luta é interna. Aprender a se defender acaba sendo uma consequência do autoconhecimento.”
Há ainda uma dimensão que vai além do tatame: a comunidade. “A escola funciona também como uma comunidade de pessoas que, mesmo muito diferentes, criam laços devido ao interesse comum pela arte. O ambiente é muito acolhedor e propício para o desenvolvimento de amizades”, observa Patricia. É uma percepção que o próprio Fábio cultiva com intenção. O respeito à individualidade de cada aluno é, nas suas palavras, um dos pilares que sustentam a Long Dao.

esquerda das cadeiras e shijie Érica à direita
Fonte: Instagram
“Kung Fu não é só uma dança”
Apesar do crescimento, o Kung Fu ainda enfrenta preconceitos. “Quem nunca ouviu ‘Kung Fu é só uma dança’ ou ‘Kung Fu não serve na rua’?”, questiona Fábio, com a serenidade de quem já respondeu a essa pergunta muitas vezes. Para ele, o desconhecimento é parcialmente culpa de professores que não se preocupam em divulgar a arte de forma correta.
A comparação com modalidades mais populares, como Jiu-Jitsu e Muay Thai, é inevitável. Mas Fábio não vê concorrência, mas complementaridade. “Acho que tem espaço para todos trabalharem suas artes marciais. O objetivo de cada um é que vai influenciar diretamente na escolha.”
Manter uma escola de Kung Fu tradicional em Belo Horizonte tem seus desafios: a burocracia para abrir novos espaços, a correria do dia a dia que prejudica a frequência dos alunos e a dificuldade de encontrar locais adequados são obstáculos reais. Mas Fábio é categórico sobre o futuro. “Quero abrir nosso espaço próprio e ser referência no estado no que diz respeito à qualidade do ensino de Kung Fu.” A procura, ele diz, nunca foi tão grande. “Todos os dias eu recebo mensagens de pessoas interessadas em iniciar a prática.”
Quando perguntado o que diria para quem ainda não deu o primeiro passo, ele não hesita: “Procure uma escola séria. Informe-se sobre o professor, sobre os estilos ensinados, se há uma árvore genealógica com mestres reconhecidos. Vá até a escola, converse, observe. O Kung Fu é uma filosofia de vida. Primeiro de tudo, deixando bem claro que não é só uma arte marcial. É um processo de autoconhecimento através da prática”.
Conteúdo produzido por Carolina Trindade na disciplina Apuração, Redação e Entrevista do Campus Lourdes, sob orientação do professor Vinícius Borges.




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