Não é novidade que o machismo é algo enraizado na sociedade. E, quando se fala da presença de mulheres no futebol, esse preconceito é ainda mais presente. Todos os dias, as mulheres sofrem ataques na internet, são invalidadas por darem opiniões sobre jogos, sem contar a enorme desvalorização que enfrentam em relação às ocupações no meio futebolístico. Segundo uma pesquisa do Globo Esporte, as figuras femininas ocupam apenas 1,7% dos cargos de gestão e 0,4% das comissões técnicas dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro. A maior parte da presença feminina concentra-se em áreas de apoio (cerca de 35%) e no núcleo de saúde e performance, como nutricionistas e psicólogas (25,3%).
Atualmente, mais mulheres estão frequentando estádios, trabalhando no ramo esportivo e expressando suas opiniões sobre futebol. Apesar do aumento da presença feminina no mundo futebolístico, essa inclusão ainda ocorre de forma lenta e desigual.
A realidade machista que vivem as profissionais
A técnica das Vingadoras (Clube Atlético Mineiro), Fabi Guedes, relata que precisa provar o seu conhecimento mais do que os homens o tempo todo, que precisa estudar o dobro e que, mesmo assim, já perdeu cargos para quem não tinha a mesma competência. A treinadora não é a única mulher a passar por isso. Todos os dias, diversas profissionais, de várias áreas do esporte, têm suas opiniões invalidadas apenas por serem mulheres, precisando se esforçar o dobro para legitimar suas posições.
Relatos de profissionais e postagens nas redes sociais mostram que, muitas vezes, esses comentários de desvalorização vêm de colegas de profissão ou até de torcedoras, que criticam ou diminuem comentaristas, narradoras e jogadoras, por exemplo.
A jogadora Angelina Alonso Constantino, camisa 8 da Seleção Brasileira, relatou recentemente, depois da partida Brasil x EUA, que, durante o amistoso, recebeu comentários das adversárias dizendo que as brasileiras não sabiam jogar bola e que elas eram “uma merda”. Falas como essas, vindas de mulheres, atraem e legitimam esses ataques.
O machismo no futebol é algo tão comum que jogadores praticam esse preconceito em público, como ocorreu na final do Campeonato Paulista, quando o zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, fez uma crítica à árbitra Daiane Muniz, dizendo que não deveriam colocar uma mulher para apitar um jogo “daquele tamanho”. O caso repercutiu nas redes sociais, e muitos torcedores deram apoio ao jogador e concordaram com a fala.
Esse contexto tão hostil para as mulheres é o reflexo de um ambiente onde o machismo não encontra punições severas. Na maioria das vezes, atitudes como essa recebem apenas um pronunciamento público e um pedido de desculpas, que acabam não fazendo diferença no cenário, uma vez que, se tal preconceito não tem consequências, ele continua acontecendo constantemente.
Um exemplo de que esses episódios acontecem com frequência é o ocorrido na partida entre São Paulo e Ferroviária, envolvendo a zagueira do Sub-20 do São Paulo Futebol Clube, Sarah Aysha, que foi chamada de “biscate” pelo maqueiro do time adversário enquanto saía do campo na maca.
Na internet, encontravam-se comentários de internautas dizendo que “futebol é isso mesmo”, que a jogadora estava “sentida”, era “vitimista” e não aguentaria um dia no futebol masculino. Ambos os times emitiram notas, e o maqueiro foi dispensado pela Ferroviária, rompendo com o histórico de impunidade. Geralmente, o silêncio dos times e a impunidade compactuam com a ideia de que o futebol é um território onde as mulheres não são profissionais dignas de respeito.
A árbitra assistente Érica Lopes relata que sofreu ataques machistas em campo inúmeras vezes, com falas que diziam que ela não deveria estar ali e que o lugar dela era arrumando a casa, lavando roupa ou fazendo outras tarefas domésticas. A profissional também relata que diversas vezes tentaram questionar o seu conhecimento apenas por ser mulher, e isso acaba refletindo e, às vezes, até prejudicando o trabalho dela, visto que as escalas para arbitragem em jogos masculinos são dadas, em sua maioria, para homens, e a remuneração das competições masculinas é bem maior.
O futebol feminino também sofre muita dificuldade de visibilidade na mídia. Embora campanhas promovam o empoderamento feminino no futebol em grandes eventos, como a Copa do Mundo, a falta de apoio financeiro e a invisibilidade da rotina das jogadoras e de campeonatos nacionais, como o Brasileirão, mostram como o esporte feminino é desvalorizado se comparado ao masculino.
Desmotivação e receio entre torcedoras e futuras profissionais
Nas arquibancadas, segundo cinco torcedoras que preferiram não ser identificadas, a sensação é de que são mais respeitadas quando estão acompanhadas de uma figura masculina. Apesar de nenhuma das entrevistadas ter sofrido assédio dentro dos estádios, a invalidação dentro e fora das redes sociais é frequente no cotidiano de todas elas. Raras foram as vezes em que deram opiniões sem serem questionadas e anuladas, além de terem que provar o conhecimento até três vezes mais do que os homens nas discussões sobre o esporte. O dia a dia marcado por invalidação e machismo reflete em mulheres se sentindo receosas de ocupar esses lugares.
O interesse das estudantes pela atuação profissional dentro do esporte tem crescido cada vez mais, mas esbarra no medo de encarar um mercado tão hostil, o que muitas vezes silencia os sonhos de futuras jornalistas, atletas, árbitras e gestoras. Uma estudante de Jornalismo relata que se sente insegura para ingressar na área, pois, em seu cotidiano, já precisa ficar provando seu conhecimento sobre futebol e, mesmo assim, muitas vezes é ignorada, o que a faz sentir que terá mais dificuldades do que qualquer homem para conseguir um bom emprego no ramo.
A luta por espaço e respeito continua
Ainda há muito respeito e inclusão a serem conquistados pelas mulheres no mundo do futebol. A presença delas em cargos dentro do esporte ainda é muito pequena e, quando os ocupam, passam por provas de conhecimento, são perseguidas e, muitas vezes, assediadas — o que também acontece com torcedoras, como relatado anteriormente.
Pesquisadores apontam que a superação desse cenário exige reformas estruturais que vão além de ações pontuais da CBF ou de homenagens institucionais em datas comemorativas. Em estudo publicado na revista científica E-legis, os pesquisadores Otávio Balzano, João Munsberg e Gilberto Silva defendem que a verdadeira mudança passa por uma aproximação entre as universidades e os clubes. Segundo os autores, os cursos superiores precisam enfatizar a formação humana e debater os preconceitos no esporte, enquanto os clubes devem investir na formação cidadã e integral dos atletas da base, abordando criticamente temas como o machismo e dando visibilidade e punição aos casos de discriminação dentro e fora das quatro linhas. O desafio do futebol brasileiro passa por transformar discursos de igualdade em práticas cotidianas de respeito, dividindo a responsabilidade entre a educação, a gestão esportiva e a sociedade.
“O futebol é o coração do machismo. Por muitas vezes tentam questionar minha competência pelo simples fato de ser mulher. No entanto, tantas outras vieram na minha frente e abriram muitas portas. Isso nos dá mais força para seguir e continuar trabalhando para que outras possam ocupar o espaço que elas quiserem. Não tem competição de gênero, não queremos facilidades, queremos igualdade de oportunidade, simples assim”, árbitra assistente Érica Lopes.
Reportagem desenvolvida por Ana Luísa Muniz e Rafaelly Barcelos na disciplina Apuração, Redação e Entrevista, sob a orientação do professor e jornalista Vinícius Borges.
