Uma juventude pouco antes vista em Nada (2017), de Gabriel Martins.

Por Luís Machado.

Foto: Filmes de Plástico. Clara Lima em Nada.

Tal como um primeiro beijo ou a retirada de uma carteira de motorista, o período dos vestibulares tornou-se uma etapa crucial para qualquer jovem brasileiro. O Enem, na década passada, adquiriu o status de maior porta de entrada para o ensino superior, ou da realização dos sonhos de todo adolescente. No entanto, para muitos, ele não passa de um enorme pesadelo. Ou um grande Nada (2017), como no caso de Bia, no curta-metragem do diretor e roteirista, Gabriel Martins.

Interpretada com genuinidade por Clara Lima, a protagonista, que acabou de completar dezoito anos, se vê pressionada a escolher um objetivo profissional nas vésperas do maior exame do país. Porém, ela não se identifica com esse tipo de destino imposto a ela, ao optar por não cursar faculdade alguma. Para a incredulidade de sua pedagoga (Karine Teles) e os seus pais tão presentes (Rejane Faria e Carlos Francisco), Bia rejeita qualquer traço da monotonia engessada e repressiva do dia a dia.

Esse cotidiano tedioso, que se apresentará com muito mais força caso ela se renda ao Enem, se prova nas primeiras cenas do curta, com passagens horizontais pela cidade, que se movimentam numa velocidade típica da trivialidade. Todos vivem suas vidas sem se questionar se aquela realidade vale mesmo a pena. O tempo na obra percorre como um cair de gotas e, a princípio, o que resta para a personagem é assisti-lo.

O aborrecimento somente se quebra quando Bia se encontra confinada em seu quarto, um templo para qualquer adolescente angustiado. Ali, o expectador realiza uma descoberta e espiona o momento de maior conforto e intimidade da jovem: por mais que não se enxergue fazendo faculdade de Música, ela possui um nítido talento para o rap. A artista Clara Lima, de Belo Horizonte, oferece para a personagem não apenas a sua naturalidade, mas também suas próprias habilidades no universo das rimas.

E o modo orgânico ao encarnar a protagonista se mantém igualmente efetivo na direção das cenas, comandadas pelo premiado Gabriel Martins. Quando nos acostumamos a assistir produções com diálogos artificiais e pouco críveis, principalmente as voltadas para o público adolescente, Nada surge como uma joia rara.

Desde as dinâmicas interações com os pais, até conversas fiadas com a amiga mais sábia e experiente (Pabline Santana), o roteiro e a dramatização não pecam em nada ao transmitir os sentimentos de familiaridade e identificação necessários. Qualquer pessoa que já passou pelo Enem provavelmente tremeu de ansiedade pelo menos um pouco com a entrevista desagradável e invasiva da coordenadora da escola, a respeito das pretensões de carreira.

Entretanto, ao contrário de muitos estudantes, Bia tinha a resposta na ponta da língua: nada. Ou ao menos o que a intuição da menina mandasse no instante.

Como qualquer filme de coming-of-age que se preze, sempre há a cena em que o personagem principal se liberta para o mundo adulto e prova que amadureceu, ao ponto de tomar uma decisão de extrema importância. Em Lady Bird (2017), de Greta Gerwig, por exemplo, Christine resolve finalmente se mudar de sua cidade natal para fazer faculdade longe de sua família, ideia rejeitada fortemente pela mãe.

Já em Nada, temos uma resolução muito mais inesperada e ao mesmo tempo satisfatória, quando Bia simplesmente desiste da prova, antes mesmo de inicia-la. Com o proveitoso suporte da direção de som, a tensão desesperadora do ambiente aparenta ser o suficiente para a sua retirada. Por outro lado, o pedido para que a garota removesse a sua touca talvez tivesse sido o maior dos gatilhos.

Bia jamais deixaria de ser quem ela é para caber dentro daquele sufocante molde. E para alguém com um terceiro olho aguçado, o final em aberto nos presenteia com a lição de que, às vezes, seguir a nossa intuição é o melhor caminho para as tortuosas etapas da juventude.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-YG6nqikbuU

Ficha Técnica

Direção: Gabriel Martins

Roteiro: Gabriel Martins

Elenco: Clara Lima, Rejane Faria, Carlos Francisco, Karine Teles, Bárbara Sweet, Pabline Santana, Renato Novaes.

Produção: André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins, Thiago Macêdo Correia.

Direção de Fotografia: Diogo Lisboa, Rick Mello.

Trilha Sonora: Marlon Trindade.

Produtora: Filmes de Plástico.

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