Superman (2025) – Sensível, divertido e super humano.

Por Bernardo Carvalho Marujo

 

 

É fácil dizer que o século XXI não tem sido muito generoso com o Superman, pelo menos quando se fala de adaptações para o cinema. À sombra dos filmes de Christopher Reeve, pioneiros em estabelecer o longa-metragem de super-herói como algo parecido com o que conhecemos hoje, tivemos três revitalizações — tentativas de devolver a popularidade ao que era essencialmente o símbolo da DC.

Em 2006, Superman – O Retorno prometeu, essencialmente, um retorno direto aos filmes dos anos 1980, utilizando o mesmo mundo, relações e personagens, removendo o terceiro e quarto filmes da equação para tentar formar uma sequência direta. O resultado? Um filme decentemente construído, com críticas divididas e uma performance de bilheteria medíocre, fazendo Brandon Routh pendurar a capa.

Em 2013, já estávamos no começo avassalador do Universo Cinematográfico da Marvel. Se em 2006 Bryan Singer competia com os filmes do Homem-Aranha de Sam Raimi, agora o Superman estava competindo com Os Vingadores. Era necessário algo ousado, diferente, mais chamativo — e os executivos conheciam um cara. Zack Snyder é, por falta de outros adjetivos, um diretor ousado. Àquela altura, ele já era conhecido por duas adaptações de quadrinhos: 300, de Frank Miller, e Watchmen, de Alan Moore. Dois filmes que receberam críticas mistas, tiveram sucesso financeiro e, mais importante, estabeleceram uma visão clara — ou melhor, uma visão “escura e realista” do seu estilo.

O Homem de Aço (2013) foi um relativo sucesso de bilheteria e dividiu opiniões. Alguns o viam como uma ideia nova e interessante, subvertendo um herói visto como chato e infantil em algo maduro e moderno; outros o viam como uma bagunça de ideias, sem cor, humor ou coração, que falha em nos fazer importar com Henry Cavill no papel. Em termos do homem de aço em si, o resultado foi algo muito mais kryptoniano que humano. Existe uma certa frieza no personagem, um distanciamento de sua humanidade e de suas fraquezas. As imagens religiosas constantes mostram precisamente a intenção do autor: fazê-lo um deus torturado, sofrendo solitariamente com as responsabilidades de
seus poderes, inimagináveis para nós, mortais.

O curioso é que essa e outras desconstruções foram se tornando cada vez mais comuns no espaço da cultura nerd: seja o Capitão-Pátria de The Boys (2018), o auto-intitulado Brightburn (2019), o Omni-Man de Invencível (2021) ou até mesmo o próprio Superman de Injustice (2013). Essa visão do Superman como uma criatura superpoderosa, desconexa da humanidade, foi sendo lentamente absorvida pela audiência (especialmente os não familiares com os quadrinhos) como o status quo do personagem.

Henry Cavill vestiu a capa mais três vezes, todas em projetos do que hoje é popularmente conhecido como SnyderVerse ou DCEU (Universo Estendido da DC): Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), uma completa bagunça que pegou todos os problemas do filme anterior e os amplificou; Liga da Justiça (2017), um flop completo de crítica e audiência, com uma pré-produção repleta de caos; e Liga da Justiça de Zack Snyder (2021), um filme que, apesar das boas críticas e da aceitação dos fãs, falhou em estabelecer um destino claro para o universo.

Após 16 filmes, todos falhando em se conectar de forma satisfatória, e, muitas vezes, falhando em satisfazer tanto críticos quanto audiências, ficou claro que estava na hora de pendurar mais uma vez a capa e confiar o futuro cinematográfico da DC a outro diretor.

Em 2025, a responsabilidade foi lançada às mãos de um diretor que aparenta funcionar como o perfeito oposto de Zack Snyder: o já experiente em filmes de super-herói James Gunn, famoso por um estilo cheio de humor, música, cor e, mais importante de tudo, coração. Superman (2025) teria então a pressão de começar um universo cinematográfico novo em uma época de cinismo considerável sobre o gênero, e com a reputação da DC no lixão — pelo menos quando se trata de longas-metragens live action. Tudo isso para dizer: esse filme tinha que ser bom, muito bom, e, surpreendentemente, ele ainda superou minhas expectativas.

Sem dúvidas, o começo é a parte mais confusa e desconcertante. Assim como o filme de 2006, Superman (2025) pula completamente a origem do herói. Mas, enquanto no outro essa decisão funcionava, aqui é levemente duvidosa. Os primeiros vinte minutos são a construção de uma ponte enquanto você caminha por ela: uma explosão de exposição e cenas extremamente corridas. Não me leve a mal, eu sei quem é o Superman, mas eu preciso saber quem é o seu Superman, quem é a sua Lois Lane e quem é o seu Lex Luthor. O resto do filme faz um ótimo trabalho em mostrar isso, então o começo parece extremamente desnecessário.

Mesmo nesse início fraco, já vemos uma das melhores características do filme: o elenco. Honestamente, não tem um ator fazendo um trabalho ruim. David Corenswet é extremamente carismático, com uma performance tão inocente, tão pura, mas que nunca é irritante. Ao lado dele, Rachael Brosnahan captura o estilo da Lois com maestria: ela é mais confrontadora, mas nunca cai na armadilha de ser chata. Por último, Nicholas Hoult faz um Lex tão cheio de inveja e ódio que eu
nunca sei se estou me divertindo com ele ou se estou sendo ameaçado.

A cena que melhor demonstra como o filme e os atores capturaram as relações dos personagens é uma das que mais me surpreenderam: por cerca de oito minutos, os dois protagonistas apenas conversam. Nada demais, só uma troca de palavras sobre como eles veem o mundo e o que pensam um sobre o outro. Sério, qual foi a última vez que você viu isso em um filme de super-herói? Dois personagens agindo como seres humanos, brigando não com punhos e armaduras, mas com palavras e emoções. Daí para frente o filme me fisgou.

Você tem um Superman muito mais humano, alguém que realmente parece ter sido criado por dois pais que o amam. Alguém que parece estranhamente real. Ele apanha, briga, chora, beija e ainda por cima luta — honestamente, tudo o que eu sempre quis de um personagem como ele. Um cara que vai salvar um esquilo sem nenhuma razão além de ser a coisa certa a se fazer. Alguém que vai interferir em um genocídio, ignorando completamente qualquer geopolítica só para salvar vidas. Estaria mentindo se dissesse que eu, um adulto que gosta de se ver como relativamente cínico, não chorei pelo menos um pouquinho quando uma criança levantou uma bandeira clamando por esperança.

São tempos estranhos os que vivemos. Tempos incertos, tempos de guerra, crise e dúvida constante. Tempos de ironia, onde se importar é visto como vergonhoso e ser esperançoso é considerado burrice. Até nos filmes de super-heróis, esses que devem tanto aos quadrinhos que os originaram, existe uma constante necessidade de zoar e inferiorizar a mídia original, seja pelas roupas, diálogos ou por tirar a importância e o peso das cenas em prol do humor. É bom, de vez em quando, ter um filme sincero, que parece acreditar em si mesmo e em seus personagens. Gunn não parece estar ali para rir da existência deles, mas sim para abraçar o quão ridículos eles são.

É um filme que me preencheu com tanto amor — seja pela música, cinematografia ou ação — que às vezes eu tinha que me lembrar de que era sobre um homem que usa cueca por cima da calça. Mas talvez essa seja a genialidade do Superman: ele é um alienígena de cueca que voa e, mesmo assim, você sente conforto só por ver alguém tão bom, tão genuíno. A complexidade dele está exatamente na sua simplicidade. Ele sempre vai tentar fazer o bem, sempre vai tentar salvar pessoas. É bizarro que a ideia mais básica de um super-herói, alguém de coração puro que combate incansavelmente o mal e defende, acima de tudo, o bem, tenha se tornado algo tão refrescante, tão estranhamente único. Tivemos tantas subversões em cima de subversões que, ironicamente, só fazer o Superman da forma que ele sempre foi já parece uma subversão. Talvez o bem realmente tenha se tornado a coisa mais punk rock a se fazer.

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