
Fonte:https://mubi.com/pt/br/films/marty-supreme
Por Bernardo Carvalho Marujo
Tenho que fazer uma confissão: sou obcecado por protagonistas “babacas”. Independentemente da mídia, acompanhar uma história pela perspectiva de uma pessoa egoísta, maldosa e/ou conflitante vai sempre me interessar mais do que um herói romântico cercado por um senso antiquado de maquinismo. E, de todos os diretores contemporâneos, acredito não haver um que faça esse tipo de história melhor que os irmãos Safdie. Jóias Brutas (2018) e Bom Comportamento (2017) são filmes fantásticos, caóticos e protagonizados por pessoas ruins que fazem de tudo para suceder. E agora, após uma separação criativa, enquanto Benny Safdie fazia uma biopic bem formulaica em Coração de Lutador (2025), Josh Safdie mantinha o mesmo estilo com Marty Supreme (2025) e o puxava ao extremo, com, na minha opinião, o melhor filme de 2025.
Marty Supreme é um drama/comédia esportiva que segue Marty Mauser, um jogador de tênis de mesa arrogante e egocêntrico que quer, mais do que tudo, se provar como o melhor. A sinopse é extremamente simples e até genérica para um filme de esportes. O primeiro ato te engana ao fazer acreditar que essa será a estrutura da narrativa: um jogador talentoso derrotado lutando para ter a redenção enquanto aprende uma lição de moral — Carros, mas com sexo e Timothée Chalamet.
Não me leve a mal, não é como se o filme já não fosse fantástico desde o começo: a direção já possui uma criatividade extrema, a cinematografia é linda e as atuações são extremamente boas. O primeiro ato tem um elemento grandioso, épico, com músicas orquestradas e Marty colocado como um jogador arrogante e insensível, sim, mas, por enquanto, com talento e carisma para compensar.
Por exemplo, a cena do mel. Marty pede ao amigo, Béla Kletzki (Géza Röhrig), um sobrevivente do Holocausto, que conte uma história dos campos de concentração, de uma forma casual e quase cruel, utilizando a dor de um homem como mera distração momentânea. O que segue é um pedaço de cinema que mistura tragédia e absurdo em uma cena que soa ao mesmo tempo sincera e magnífica, com Béla espalhando mel pelo corpo para alimentar seus companheiros de campo. Uma história de sacrifício genuíno é contada por uma vítima do Holocausto a um capitalista, requisitada por um jovem egoísta (também judeu), com o objetivo de distraí-lo para que Marty possa flertar com sua esposa.
Mas simplificá-la a isso é um desserviço não só ao puro poder cinematográfico da cena, mas também ao seu valor temático. Marty, pelo menos em algum nível, acredita ser também um herói se sacrificando por seu povo. Ele vê o tênis de mesa como um chamado, uma oportunidade de ascensão, e todo desastre que ele deixa para trás é apenas o sacrifício necessário para chegar lá. Enquanto o sacrifício de Béla é interno, o de Marty é externo: ele machuca e prejudica todos ao seu redor, e, enquanto um quer alimentar seu povo faminto, o outro quer ser uma estrela e, talvez, repagar a comunidade que tanto feriu. Toda a identidade de Marty é construída ao redor da necessidade da vitória, da negação da derrota como possibilidade, de pegar o que ele quer do mundo, seja qual for o custo. Ele é um mentiroso patológico, mas, mais que isso, ele é uma máscara, um ator. Ainda no primeiro ato, ele mesmo se introduz à personagem de Gwyneth Paltrow como um artista, alguém que também trabalha com performances. Ele não é uma pessoa real, alguém que construiu um ego por experiência e dor; ele é uma criança, uma criança que finge ser tudo aquilo que não é: rico, órfão, estrela, enquanto renega todas as responsabilidades daquilo que realmente fez.
No segundo ato, temos então um simples questionamento: o que acontece quando essa performance para de funcionar? Marty perde o campeonato, a base de sua identidade colapsa, e agora ele luta para acumular dinheiro para ir ao Japão e competir mais uma vez, utilizando basicamente as mesmas táticas de antes, as mesmas mentiras, a mesma manipulação — mas, dessa vez, ele falha. Evento desastroso após evento desastroso o impede de acumular a quantia necessária para competir, e, enquanto ele ainda está passando a perna e enganando as pessoas, não ganha praticamente nada. O filme abandona quase por completo o pretexto do esporte e, pela metade, é fácil esquecer que tudo isso está acontecendo por causa do pingue-pongue, transformando-se em uma verdadeira comédia de erros que joga todo tipo de situação em seu protagonista para ver como ele reage. A resposta: ele se torna mais desesperado. Aqui temos o aspecto mais honroso e, ao mesmo tempo, mais perigoso do nosso protagonista: ele realmente tem um objetivo, um sonho, e está disposto a fazer tudo para alcançá-lo. E acontece que o necessário é se deixar humilhar e aceitar encenar uma derrota.
O terceiro ato é caracterizado pela morte do ego — um termo da psicologia junguiana que determina o fim de uma identidade problemática ou limitada para o nascimento de uma mais evoluída, através do trauma ou da perda. Marty chega ao Japão para a partida armada e, para surpresa de ninguém, continua sendo humilhado. Pior que isso, ele descobre que não será permitido participar do mundial. E é aqui que o filme volta ao seu eixo esportivo para criar uma partida que, para o resto do mundo, não significa nada, mas, para ele, é tudo. Não acredito que ele esteja lutando para se provar como o melhor, mas simplesmente para provar que tem valor, que ainda é capaz de ganhar. Isso é visível pela sua reação à vitória: não é algo grandioso como no primeiro ato, não é um momento eufórico; sua reação é colapsar e chorar. Dentro da ideia de morte do ego, esse é o momento crucial, o abandono consciente do seu “eu” anterior. O ator não existe mais; ele sabe que não competirá e talvez nunca mais seja capaz de competir, e, com isso, a criança finalmente é permitida a crescer. Seu instinto após isso é correr para o hospital e, pela primeira vez, assumir uma responsabilidade: a criança cuja concepção marca a introdução do filme. Isso não caracteriza um arco de redenção; não acredito que a intenção do diretor seja meramente criar um paralelo entre bem e mal, mas sim entre alguém imaturo e alguém que amadureceu, um homem que finalmente se tornou mais do que um ator que finge ser alguém que nunca foi. Como a própria música que finaliza o filme, Everybody Wants to Rule the World, diria: bem-vindo à sua vida, não existe mais volta agora.
A ideia de um personagem moralmente cinza sacrificando tudo por um objetivo simples não é nada de novo — pelo contrário. É fácil fazer paralelos entre a jornada do jogador de pingue-pongue e a de Odisseu, na Odisseia, mas, enquanto o herói grego luta para voltar para casa, para sua família e responsabilidades, Marty quer ir para o Japão e se provar, acabando de volta em casa após o ocorrido. Ambas as jornadas acabam no mesmo ponto, o retorno ao lar, mas este só é concedido a Odisseu após sua jornada do herói e a Marty após seu amadurecimento pessoal e morte do ego. A jornada, e sua estrutura extremamente bem realizada, é o que faz com que torçamos por um personagem tão moralmente repugnante quanto nosso protagonista. O filme utiliza, e abusa, do fato de estarmos tão acostumados a histórias baseadas na estrutura do monomito de Joseph Campbell — a famosa jornada do herói — para subverter quem é o homem que viaja, sofre e retorna para casa com uma nova sabedoria.
Marty Supreme absolutamente não é para todo mundo, mas é um dos filmes mais abertos a análises e interpretações do cinema recente. Toda cena parece cheia de propósito, mas, ao mesmo tempo, esse propósito nem sempre é óbvio, ou sequer o mesmo entre espectadores. Honestamente, tenho dificuldade de encontrar elementos ruins nele ou sequer partes de que não gostei; é o tipo de experiência cinematográfica imprevisível, divertida, mas tematicamente coerente que, mesmo após assistir duas vezes, não teria nenhum problema em assistir uma terceira.
Bom comportamento: https://www.primevideo.com/-/pt/detail/Good- Time/0IVQ3BL40VKVIVEF4VMVF75UDJ
Joias brutas: https://www.netflix.com/title/80990663


