Quarteto Fantástico – “Legal, mas não posso esquecer de passar na quitanda depois”

Por Felipe Stenner,

 

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, pela direção de Matt Shakman (diretor da série WandaVision), estreou nos cinemas dia 24 de julho, depois dos últimos decepcionantes desempenhos de bilheteria de Capitão América: Admirável Mundo Novo e, principalmente, Thunderbolts*, apesar do seu sucesso de crítica. Como se a situação não fosse ruim o suficiente para a Marvel Studios, a estreia de Quarteto ainda coincidiu dentro do período de exibição de dois outros gigantes dos blockbusters: Superman e Jurassic World: Recomeço, a franquia dos dinossauros que, historicamente, tem o costume de arrecadar bastante nas bilheterias, independentemente de sua qualidade. Para piorar, a Primeira Família da Marvel não tem o melhor histórico nas telonas em razão de suas encarnações anteriores, quando seus direitos de adaptações cinematográficas estavam em posse da extinta 20th Century Fox, juntamente com os X-Men e o Demolidor, após a Marvel vender o direito de seus personagens para se salvar da falência nos anos 1990. Finalmente de volta à casa, depois da compra e anexação da agora 20th Century Studios pelo conglomerado Disney, os quatro fantásticos puderam enfim serem trabalhados pela Marvel Studios. E o resultado? Vamos a isso.

Primeiramente, retiremos o elefante branco da sala, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos de longe cumpriu sua obrigação – não só sua, mas também a obrigação de qualquer filme de super- heróis que se preze – de ser superior à completa catástrofe beirando ao inassistível que foi Quarteto Fantástico de 2015. Só a estética visual de Primeiros Passos, numa fascinante Nova York retrofuturista situada em 1965 e o resgate dos visuais dos personagens criados pelo
desenhista Jack Kirby em 1961, já garante uma personalidade única e charmosa para o filme, que, de outra forma, dificilmente teria sido alcançado e é incomum até hoje nos filmes do MCU (Marvel Cinematic Universe).

Tratando-se de Kirby, as lindas homenagens não param somente nos visuais. Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é o primeiro filme que reconhece a importância de Jack Kirby para a Marvel e os super-heróis fora da grande sombra de Stan Lee, a qual Jack, assim como todos os outros artistas com os quais Stan trabalhou, sempre ficou renegado. Mas aqui foi até mais destacado do que Stan, que também recebeu suas doses de homenagem como no nome do foguete do Quarteto, Excelsior, seu famoso slogan.

“Se você olhar para os meus personagens, você vai me encontrar. Não importa quem você crie, um pouco de você sempre estará lá.” é a tocante citação de Kirby exposta nos créditos, que se torna particularmente bem visível ao focar o olhar para a personalidade e religião judaica do Coisa. Uma representação de Jack, em um escritório de quadrinhos junto com Stan, é possível ser vista numa aparição observando admirado o momento em que a Surfista Prateada desce pela primeira vez na Time Square. Além disso, a numeração multiversal da Terra em que o longa se passa, 828, é um aceno para a data de aniversário do desenhista, 28 de agosto.

Aproveitando ainda o legado de Kirby e os méritos do filme, aproveitemos para dar graças pelo visual muito fiel às HQs de Galactus, o Devorador de Mundos – com o vozeirão do ator Ralph Ineson –, justamente quando comparado com o que tínhamos do personagem representado em live-action no filme de 2007: uma grande nuvem cósmica cinza, na qual, com muita boa vontade, conseguíamos apenas enxergar uma sombra ou silhueta de sua forma clássica dos quadrinhos em seu epicentro.

Entretanto, nem tudo são flores para essa nova visão do personagem trazida para as telonas, como foi bem repercutido através da crítica de Isabela Boscov ao filme. Especificamente sobre o vilão, ela o considerou só mais um déspota megalomaníaco com o único objetivo de destruir o mundo. Aqueles que já têm bagagem do personagem em outras mídias são conhecedores sobre a complexidade moral de Galactus, de ser uma entidade amaldiçoada com a fome de consumir mundos e, mesmo que ele não tenha interesse algum em exterminar as milhões de vidas desses mundos, não hesita em “pisar em formigueiros” para sobreviver. Afinal, quem hesitaria? E eu sou uma dessas pessoas que estão carecas de saber disso. Porém, temos de compreender que, tratando-se como uma obra isolada e destinada também para o grande público não geek, Primeiros Passos pode ter deixado esse e outros conceitos da lore excessivamente en passant no roteiro.

Em complemento a isso, finalmente analisando a família fantástica em si, devo dizer que me decepcionei com a falta do meu envolvimento e diversão com eles. Isso é um forte contraponto pessoal que tive em comparação à encarnação do Quarteto de 2005 e 2007 – inclusive com alguns acenos curiosos a eles presentes em Primeiros Passos, como Ben quebrar um bonequinho de Johnny e a Sue morrer no último ato – quando me senti realmente com aquela família, passando por seus dilemas e intrigas que é muitas vezes comuns aos de qualquer família, só que com o diferencial dos superpoderes. Ou seja, senti-me distante e não me conectei do mesmo modo com o Quarteto de 2025. Podemos levar em consideração minha idade em cada ocasião, já que atualmente sou um jovem adulto solteiro e sem filhos, isso pode ter sim me distanciado do casal.

Reed Richards (com uma boa interpretação do já consagrado "papi" de Hollywood, Pedro Pascal) e Sue Storm (Vanessa Kirby aqui como a Mulher Invisível definitiva, mais poderosa membro do Quarteto Fantástico e sem parentesco com Jack Kirby) com o bebezinho Franklin (um CGI estranho), são o holofote principal de Primeiros Passos, deixando o Tocha Humana (Joseph Quinn me fazendo sentir falta de Chris Evans), o Coisa (Ebon Moss-Bachrach) e o simpático robozinho H.E.R.B.I.E. como coadjuvantes de luxo. Tal desconexão, semelhante ao relatado também por Isabela Boscov, tirou-me do filme nos momentos de interação dos fantásticos, voltando a prender minha atenção apenas nos poucos momentos de ação do filme.

Pessoalmente, isso é bem triste para mim, pois, como fã de longa data do Quarteto, considerando-o mais importante do que os Vingadores, eram as interações familiares do grupo – elemento de forte inspiração até para o maravilhoso e visionário Os Incríveis, da Pixar, e que deu muito mais certo para Matt Shakman em WandaVision – que eu mais amava em todos os produtos que consumi da equipe, mas achei fraco aqui. Outro elemento que me partiu o coração foi a pouca utilização da magnífica trilha sonora épica desse filme, composta por Michael Giacchino (responsável por trilhas icônicas e memoráveis como as de Up e Os Incríveis), cujo coro “Fantastic Four” não sai da minha cabeça desde os trailers.

Por último, gostaria de ressaltar que a notável quantidade de cortes que o longa acabou sofrendo, perceptível com a ausência de cenas inteiras e até grandes atores, como John Malkovich, no produto final e que estavam nos teasers e trailers, pode ter impactado no resultado definitivo da qualidade do filme e no engajamento do público geral. Certamente espero ansioso pelo ” Snyder Cut” de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos mais do que aguardo o desfecho da primeira cena pós-créditos (sem orçamento para mostrar o rosto de Robert Downey Jr. como Doutor Destino) em Vingadores: Doomsday e Guerras Secretas nos próximos anos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *