Por: Tom Schuenk

O Clube do Crime das Quintas-Feiras é um livro lançado em 2021 pelo autor Richard Osman. Nessa história, vamos acompanhar um grupo de quatro idosos em uma casa de repouso que se reúne às quintas-feiras para solucionar casos criminais antigos. A vida desse clube estava quase caindo na monotonia quando um assassinato acontece, e eles se veem no meio de um caso em tempo real e entram em uma corrida contra o tempo para encontrar o verdadeiro culpado.
Esse é o primeiro livro de Osman, que costuma trabalhar apenas na TV. Já em sua estreia, ele subverte o gênero de mistério criminal ao apostar em um grupo de aposentados como a “gangue do Scooby-Doo” da história. Os personagens Elizabeth, Ibrahim, Joyce e Ron vãoganhando vida ao decorrer das páginas, provando que a idade avançada não é um fator que atrapalhou sua inteligência, determinação e inventividade para resolver os mais absurdos problemas. A equipe composta pelos protagonistas é cativante e inusitada. Ao mesmo tempo que fazem coisas comuns, como hidroginástica e crochê, eles se metem em uma investigação, buscam pistas e fazem interrogatórios.
Elizabeth é apresentada como a líder do grupo, com um passado misterioso. É uma personagem que se destaca por sua perspicácia e sagacidade. Pode-se dizer que ela é o cérebro por trás do clube. Joyce é uma ex-enfermeira e novata na casa de repouso, e muitas vezes pode parecer ingênua, mas é uma grande parceira. Além disso, grande parte da história é narrada por ela, o que garante um tom cômico e sensível à narrativa.

Ibrahim é um ex-psiquiatra e o analítico do grupo. Sua experiência profissional o tornou capaz de ler o comportamento das pessoas e entender as motivações e os padrões nos casos. Ron chega para completar o clube. Ele é desconfiado e mal-humorado, mas, como um ex-sindicalista, é uma fonte valiosa de contatos e informações. Juntos, eles se aventuram nessa história por Coopers Chase, a casa de repouso em que todos vivem.
Ao decorrer da trama, Elizabeth toma a frente de toda a investigação, que nesta história se desdobra em várias ramificações. Ao enfrentar uma dupla invisibilidade na sociedade, sendo uma mulher e idosa, ela subverte as expectativas dos leitores ao se mostrar uma protagonista forte, determinada e cheia de surpresas, já que seu passado misterioso é uma das partes mais chamativas do enredo. Elizabeth chega para representar que uma história protagonizada por uma mulher idosa tem seu espaço de sucesso entre o público, já que o livro até o momento já gerou sequências e uma adaptação cinematográfica produzida pela Netflix.
A mídia atual normalizou o apagamento desse grupo etário. Para homens, entretanto, esse apagamento é um pouco menor. É comum ver atores atingindo seu auge em papéis mais maduros e em idades mais avançadas, e até as premiações refletem isso. Enquanto uma atriz atinge seu auge na indústria entre os 25 a 35 anos, atores comumente são lembrados por seus papéis mais seniores.
O mundo vem se atualizando nesse quesito. Michelle Yeoh tinha 60 anos quando ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 2023, e Demi Moore foi indicada ao prêmio com 62 anos. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas histórias como O Clube do Crime das Quintas-Feiras ajudam a mostrar que esse grupo etário tem sim espaço na mídia atual para serem muito mais que os avós indefesos e frágeis que são comumente representados.
No livro, a riqueza de experiências profissionais de cada um, a inteligência individual e coletiva, e a vitalidade que persistem com a idade, são os principais fatores que fizeram os protagonistas desvendarem os mistérios da trama. Livros, filmes, séries e contos assim mostram que a terceira idade ainda tem espaço para brilhar.
Em um mundo onde o etarismo ainda normaliza o apagamento de pessoas mais velhas, especialmente mulheres, O Clube do Crime das Quintas-Feiras chega como um sopro de ar fresco na cultura popular. A trama, apesar de simples, se torna uma fonte de críticas sociais relevantes, colocando em destaque que a velhice não é sinônimo de fragilidade ou
irrelevância, mas pelo contrário, aqui Richard Osman celebra a sabedoria e a força de uma geração que ainda tem muito a contribuir.
O livro, e agora filme, é uma história que inspira e prova que a mídia ainda tem espaço para representar a terceira idade de forma autêntica e cheia de vida.


