Quando a Infância é Transformada em Produto: A denúncia ao espetáculo cruel das redes sociais

Por: Neemias Feres

Vivemos uma era em que a infância passou a ser explorada como ativo de mercado nas mídias sociais. Imagens, rotinas e até emoções infantis são transformadas em conteúdo, alimentando algoritmos de empresas que lucram com a exposição precoce. Esse fenômeno, muitas vezes disfarçado de entretenimento ou oportunidade de negócios, mascara um cenário preocupante: a mercantilização da vida de crianças e adolescentes, que são privadas de sua intimidade, inocência e segurança. Casos recentes expostos por criadores de conteúdo e repercutidos pela mídia mostram que essa prática não é exceção, mas parte de um ciclo cada vez mais naturalizado e perigosamente aceito pela sociedade. A infância está sendo vendida e vidas são traumatizadas em troca de likes, enquanto corpos infantis são sexualizados nas redes sociais.

Até quando as plataformas digitais vão permitir que usuários, sejam eles pais, tutores ou menores emancipados, utilizem seus espaços para a produção e divulgação de conteúdos que exploram comercialmente a imagem e a vida dessas crianças? Esse cenário expõe uma grave falha ética e social: a mercantilização da infância em nome do entretenimento e do lucro, que transforma o que deveria ser protegido em produto descartável. Dados recentes confirmam essa urgência: em 2025, a Justiça do Trabalho de São Paulo proibiu que Instagram e Facebook permitam que crianças atuem como influenciadoras sem autorização judicial, sob pena de multa de R$ 50 mil por dia (Veja); o Congresso aprovou o PL 2628/2022, criando um marco regulatório para proteção digital da infância (Access Partnership); e novos projetos (PL 4062/2025 e PL 4065/2025) buscam criminalizar a adultização e impor deveres claros às plataformas. Esses dados revelam que a sociedade já reconhece a gravidade da exploração digital de crianças e pressiona plataformas e famílias a assumirem responsabilidade imediata para que infâncias não continuem sendo roubadas diante do público.

 

Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, de 27 anos, produziu um vídeo intitulado “adultização”, de aproximadamente 50 minutos, onde discute a “adultização” de crianças nas plataformas digitais. Ele inicia mencionando os chamados “coaches mirins”, jovens e até crianças que ensinam sobre investimentos online. Em determinado momento, apresenta um adolescente que afirma que a escola “impedia seu desenvolvimento”. O youtuber faz uma crítica aos pais e responsáveis que permitem a exposição dos filhos, tanto nesse caso quanto em diversas outras situações presentes na internet.

A denúncia feita por Felca expõe uma problemática grave e urgente: a manipulação dos algoritmos que amplificam a exposição de crianças, tornando-as alvos vulneráveis de exploração e pedofilia. Ao trazer à tona o caso de Hytalo Santos, que está sob investigação por suspeita de exploração de menores, o vídeo não apenas denuncia uma situação específica, mas também evidencia a falha das plataformas digitais e da sociedade em proteger os direitos das crianças. A participação da psicóloga Ana Beatriz Chamat, especialista em infância, adolescência e parentalidade, que aparece no vídeo publicado por Felca, reforça a dimensão psicológica desse problema: ela alerta que, atualmente, o processo de formação dos filhos que deveria ocorrer “de dentro para fora” está sendo invertido, com a criança absorvendo de forma antecipada informações e dinâmicas do mundo adulto, o que rompe o desenvolvimento natural e pode abrir portas perigosas, como a exposição a criminosos e conteúdos inadequados. Essa repercussão massiva evidencia a urgência de responsabilização e instigar um debate sério sobre os limites éticos da presença infantil nas redes, desafiando pais, plataformas e poder público a agirem com rigor para evitar que a infância continue sendo mercantilizada e violentada virtualmente.

Um dos casos de excesso de exposição é o caso da influenciadora Virgínia Fonseca, que ilustra de forma emblemática a exploração da infância na era digital. Ao expor constantemente a imagem e a rotina de suas filhas nas redes sociais, ela transforma momentos íntimos em conteúdo público, muitas vezes com objetivo comercial. Essa prática levanta importantes questionamentos sobre os limites do direito à privacidade das crianças e o papel dos responsáveis na proteção da infância, que corre o risco de ser mercantilizada para alimentar a busca por curtidas, seguidores e lucro. Além disso, expõe a fragilidade das plataformas digitais, que frequentemente falham em proteger menores de idade da
superexposição e dos impactos psicológicos decorrentes dessa exposição precoce. Diante da crescente preocupação com a adultização infantil nas redes sociais, a Câmara dos Deputados anunciou a criação de um grupo de trabalho para elaborar, em até 30 dias, um projeto de lei que fortaleça o combate a essa prática. A proposta deve ter como base o PL 2.628/2022, que prevê mecanismos para impedir a erotização de crianças online e impõe multas de até 10% do faturamento das plataformas que descumprirem a norma. Para especialistas como Patrícia Peck Pinheiro Nejm, advogada e pesquisadora em direito digital e proteção da infância, a medida é essencial, já que nem mesmo as famílias têm o direito de explorar comercialmente a imagem de menores, sendo essa prática uma violação prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Criança tem que ser criança, brincar, fazer amizades com outras da mesma idade e viver sua infância com a inocência e a pureza que lhe são próprias. Crianças e adolescentes não deveriam se preocupar com engajamento, produção de conteúdo digital ou exposição desnecessária, seja qual for o motivo. A adultização precoce lhes rouba a melhor fase da vida, aquela em que se descobre o mundo de forma pura e divertida, onde a imaginação e a criatividade têm espaço para florescer, sem a pressão de problemas que pertencem ao universo adulto. É triste ver infâncias sendo roubadas por um mero desejo comercial digital, que muitas vezes nem parte da própria criança, mas de interesses de terceiros que priorizam lucro e visibilidade acima do bem-estar e do desenvolvimento saudável dos pequenos.

 

Referências: https://www.youtube.com/watch?v=FpsCzFGL1LE
https://www.itatiaia.com.br/brasil/felca-e-o-video-sobre-adultizacao-veja-tudo-o-que-se-sabe-sobre-denuncia-e influenciadores-citados
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-08/especialistas-alertam-que-criancas-nao-podem-ser-produto-das-redes

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