Malês: o levante que o Brasil tentou esquecer — e o cinema se recusa a silenciar

Por Lídia Caetano

Em 1835, Salvador foi palco da maior revolta urbana de escravizados da história brasileira: a Revolta dos Malês. Liderada por africanos islamizados, alfabetizados em árabe e organizados com precisão militar, o levante foi sufocado com violência e, desde então, relegado ao esquecimento. Quase dois séculos depois, essa história ressurge com força no cinema brasileiro com o filme Malês, dirigido por Antônio Pitanga.

Mais do que uma reconstituição histórica, Malês é um manifesto visual e espiritual. A obra propõe uma estética afrocentrada e uma narrativa que desafia o apagamento histórico, colocando os negros como protagonistas de sua própria história — com fé, estratégia e complexidade.

 

Créditos: Agência Brasil- Ilustração que representa a Revolta de Malês.

 

A Revolta dos Malês: fé como força política

Os malês eram africanos muçulmanos, em sua maioria da etnia nagô, que viviam em Salvador no século XIX. Eles se destacavam por sua alfabetização em árabe, disciplina religiosa e organização comunitária. A revolta foi planejada com precisão: os rebeldes pretendiam libertar os escravizados, tomar o controle da cidade e instaurar uma ordem baseada na fé islâmica e nos valores africanos.

O levante ocorreu na madrugada de 25 de janeiro de 1835. Apesar da força e da articulação, os revoltosos foram derrotados em poucas horas. A repressão foi brutal: dezenas de mortos, centenas de presos, deportações e punições severas. O Estado intensificou o controle sobre os africanos islamizados, proibindo práticas religiosas e reforçando o apagamento cultural.

A fé, nesse contexto, não era apenas espiritual — era política. A religiosidade dos malês era o motor da resistência, a base da organização e o símbolo da autonomia cultural.

 

Créditos: Redação National Geographic Brasil – Na foto, uma imagem da exposição “Ecoa Malês” que
foi realizada em 2025 na Casa de Histórias de Salvador, na Bahia, em homenagem à memória da Revolta
dos Malês.

O filme como quilombo narrativo

Lançado no mês de outubro de 2025, Malês é um drama histórico com direção de Antônio Pitanga e roteiro de Manuela Dias. O elenco reúne nomes como Camila Pitanga, Rocco Pitanga, Patrícia Pillar, Rodrigo dos Santos, Samira Carvalho e Bukassa Kabengele. A narrativa se passa em Salvador, no ano da revolta, e acompanha personagens que vivem os dilemas da resistência e da sobrevivência.

O filme acompanha Pacífico Licutan (interpretado por Antônio Pitanga), líder espiritual e político que defende a união entre diferentes povos, tribos e religiões como estratégia para o fim da escravidão. A personagem Sabina, vivida por Camila Pitanga, é uma mulher negra alforriada que não apoia o levante — uma escolha narrativa que revela a pluralidade de vozes dentro da comunidade negra.

Camila Pitanga destacou em entrevistas que Malês “mostra que negros não pensam univocamente”. Essa abordagem rompe com estereótipos e reforça a complexidade das escolhas individuais diante da opressão.

Antônio Pitanga define o projeto como um “quilombo cinematográfico”, onde a família negra — inclusive a sua própria, já que atua ao lado dos filhos Camila e Rocco — é o núcleo da construção simbólica da liberdade.

Estética afrocentrada e espiritualidade como força

A direção de arte valoriza elementos da cultura africana, como os trajes, os rituais e a musicalidade, criando uma atmosfera que conecta passado e presente. A fé islâmica dos malês é retratada não apenas como prática religiosa, mas como força política e organizadora.

A espiritualidade é tratada como linguagem de resistência. Os cânticos, os gestos e os símbolos religiosos funcionam como códigos de luta e pertencimento. O filme não apenas representa a fé — ele a convoca como ferramenta de transformação.

 

Créditos:@malesofilme | @globofilmes | @tambellinifilmes | @petrobras

 

 

Resistência, espiritualidade e identidade: ontem e hoje

A Revolta dos Malês foi mais do que um levante contra a escravidão — foi uma tentativa de reconstruir a sociedade com base em valores africanos e islâmicos. Hoje, movimentos negros seguem mobilizados por reconhecimento, justiça social e liberdade religiosa. A repressão vivida em 1835 ainda reverbera em formas contemporâneas de exclusão e silenciamento.

As manifestações culturais negras continuam sendo marginalizadas, desvalorizadas ou criminalizadas — nos espaços públicos, nas políticas culturais e na educação formal. O filme Malês atualiza esse debate ao mostrar que a resistência negra é múltipla: espiritual, estética, política e comunitária. A fé, que guiava os malês, permanece como força vital nas comunidades negras, seja nas comunidades afrodescendentes, nos coletivos periféricos ou nas expressões artísticas.

A identidade negra segue sendo construída em meio a apagamentos históricos, disputas simbólicas e afirmações cotidianas. O filme não entrega respostas prontas — ele provoca reflexões urgentes sobre pertencimento, memória e liberdade.

Considerações Finais

Ao trazer a história dos malês para o cinema, o filme dirigido por Antônio Pitanga não apenas resgata uma memória silenciada — ele a transforma em ferramenta de consciência e provocação. Em um país onde a história negra é frequentemente ignorada, onde religiões de matriz africana enfrentam intolerância e onde a juventude negra luta diariamente por dignidade, Malês se impõe como um grito ancestral que atravessa séculos.

A resistência retratada no filme não se limita ao campo físico. Ela é espiritual, estética, intelectual e coletiva. A fé dos africanos islamizados, que organizaram o levante de 1835, era mais do que devoção — era estratégia política, afirmação cultural e força comunitária. Essa dimensão, muitas vezes apagada pela história contada oficialmente, ganha potência na narrativa cinematográfica.

Mais de 190 anos depois, os ecos daquela repressão ainda ressoam. Espaços de espiritualidade negra continuam sendo alvo de agressões, e o racismo religioso persiste como uma das formas mais cruéis de exclusão. A desigualdade racial se mantém nos indicadores sociais, e o silenciamento histórico segue presente — a Revolta dos Malês ainda é pouco conhecida e raramente ensinada.

Malês convida o público a refletir sobre o que mudou desde 1835 — e, sobretudo, sobre o que ainda precisa mudar. A resistência negra é diversa, estratégica e profundamente espiritual. A luta dos malês continua viva — nas ruas, nas escolas, nos terreiros e nas telas — por meio de quem insiste em lembrar, resistir e reimaginar o Brasil.

Referências:

https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2025/10/revolta-dos-males-descubra-como-foi-a-maior-rebeliao-escrava-do-brasil
https://www.adorocinema.com/filmes/filme-1000000268/
https://www.uol.com.br/splash/noticias/2025/10/02/plano-geral-males.htm

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