Farha: A resistência Palestina no cinema

Por Jeania Cristine

Farha (2021) é um sensível filme palestino dirigido pela diretora jordaniana de ascendência palestina Darin J. Sallam, produzido pela Netflix, premiado como o Melhor Filme Jovem no  Asian Pacific Screen Awards de 2022 e escolhido para ser apresentado na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2023 pela Jordânia. O longa-metragem é baseado na história real de uma garota chamada Radiyyeh que na obra recebeu o nome de Farha, que, traduzido do árabe فرحة, significa “alegria”. A narrativa se passa em 1948 durante a Nakba – palavra árabe que significa catástrofe ou desastre, usada para remeter ao grande ataque perverso que iniciou a violenta invasão nos territórios palestinos e a devastadora limpeza étnica para criação de um Estado dominantemente judeu, Israel.

Para a compreensão da relevância dessa produção artística como forma de resistência, é imprescindível atentar-se ao peso das conjunturas históricas que aquela região sofreu e a marcaram ao longo dos anos. Após a queda do Império Otomano em 1918, a administração do território palestino foi assumida pela Inglaterra, através do Mandato Britânico da
Palestina, que perdurou de 1920 até 1948. Durante esse controle, surgiram movimentos de resistência contra o domínio britânico e a crescente imigração judaica sionista. Em decorrência dessa pressão, as tropas britânicas retiraram-se em 1948. A Organização das Nações Unidas propôs a partilha do território entre judeus e árabes, no entanto, as condições impostas foram rejeitadas pelos palestinos por a considerarem injusta devido à divisão territorial, uma vez que os judeus receberiam a maior parte das terras apesar de serem minoria populacional. Mesmo assim, em 14 de maio de 1948 , foi proclamada a criação do Estado de Israel em territórios árabes, sem o consentimento desses povos. Assim, iniciaram-se os ataques armados violentos que resultaram na Nakba, o deslocamento em massa que assolou a Palestina.

Esse período foi marcado pela expulsão de mais de 700 mil palestinos de suas terras por meio de explosões, ataques, assassinatos e destruição de vilarejos para garantir que os moradores não retornassem aos seus lares, obrigando os palestinos a se espalharem por campos de refugiados localizados na Jordânia, no Líbano, na Síria, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Esses acontecimentos desencadearam um enorme conflito que é documentado e representa a maior mortalidade diária em conflitos registrados no século XXI, segundo a matéria da Oxfam Brasil de 2024.

No filme, a personagem principal se chama Farha, tem 13 anos, é ambiciosa e seu maior sonho é ir para cidade estudar, porém na época o ensino era exclusivamente masculino, sendo necessário uma autorização para que a menina pudesse iniciar os seus estudos. Ela consegue, mas logo todos seus sonhos são interrompidos de sua vida em decorrência de um ataque israelense em seu vilarejo. A vila onde a história é contada não tem nome, justamente para representar os milhares de vilarejos e cidades dizimadas pelas atrocidades da guerra. No início da obra é perceptível a forte presença da união da família Palestina, conhecemos mais sobre a sociedade em que Farha está inserida, as suas opiniões como uma adolescente destemida, seu olhar aguçado pelo o que acontece ao seu redor e seu companheirismo com sua melhor amiga, além dos elementos culturais de música, arquitetura e vestimentas da época que foram muito bem construídos no cenário.

A tensão do caos é instaurada no telespectador ao poucos através de cenas em que a garota escuta atrás da porta o pai conversando com protetores do vilarejo que algo está para acontecer e o maior sinal de todos é a retirada de tropas britânicas da região, o que alarma a deixa dos Ingleses para a brecha para o combate que será iniciado por Israel em 1948 com o objetivo de expandir o seu território e fazer uma limpeza étnica de palestinos.

O nome Farha é muito simbólico ao significar “alegria” juntamente com a figura de uma menina jovem com olhos profundos que atuam uma curiosidade pelo mundo e pela vida que transformam-se em um olhar vermelho de dor.

“Farha significa alegria. E Palestina foi a alegria que foi roubada dos palestinos.”
– Darin Sallam, diretora do filme.

Após o primeiro ataque das tropas Israelenses, o lugarejo entra em desespero. O pai de Farha a tranca dentro de um quarto minúsculo para que ela consiga sobreviver, e com a filha aos prantos, faz uma promessa que jamais será cumprida: “Eu volto para te buscar”.  A garota permanece trancada enquanto escuta gritos e tiros, o que resta além de manter-se viva é observar através dos vãos da madeira da porta. Ali, ela se torna testemunha de crimes de guerras desumanos e cruéis.

A fotografia do filme que no início é colorida, vívida, pacífica, imediatamente transita para os caos em forma de cores frias e opacas, luminosidade baixa, enquadramento fechado, um longo silêncio da trilha sonora e o foco nas cenas como se fosse os olhos de Farha. Esses elementos provocam uma sensação de claustrofobia, que é uma metáfora para a repressão e para a necessidade de se esconder para não morrer, ao mesmo tempo sem ter para onde ir buscar refúgio.

“Como jordaniano ou árabe com raízes palestinas, você cresce ouvindo muitas histórias sobre a Palestina, a Nakba. Faz parte da nossa identidade. Faz parte de quem somos. Pessoalmente, também tenho medo de lugares fechados. E me identifico com ela. Também me vejo nela. Ela é uma lutadora, uma rebelde, nunca aceita um "não" como resposta, é ambiciosa, ela é eu.”
– Darin Sallam, diretora do filme.

 

 

 

O ponto alto do filme acontece quando uma família procura por um esconderijo na casa em que Farha está. Uma mulher grávida em trabalho de parto que não consegue conter seus gritos de dor, um homem e duas crianças. Soldados isralenese se aproximam, encontram o homem que faz de tudo para omitir sua família do encontro, mas não existe misericórdia e nem piedade em genocídio. A cena transita em diálogo de ódio, frieza, repulsa, gritos de misericórdia, debates de “moral”, clemência até no último respiro e por fim um banho de sangue de um fuzilamento de uma família inteira inocente. O mais grotesco e covarde é o recém nascido deixado para morrer no chão, enquanto Farha, sem poder sair, gritar ou ajudar escuta ininterruptamente os berros de súplica da criança deixada ao relento, até que resta o silêncio junto a morte, o abandono e a solidão miserável.

Uma porta que poderia ser aberta para a vida e realizações da juventude é forçadamente transformada em uma porta que somente as frestas das rachaduras conseguem estar abertas para a crueldade humana ser vista. Tudo isso, por uma menina de 13 anos.

 

 

A obra é uma amostra de 92 minutos da violência contra o povo palestino, que na realidade, infelizmente, é ainda mais perverso do que o mostrado no filme. De acordo com a CNN em 2025, em 18 meses já ultrapassa o número de 55 mil vidas e no total mais de 1,7 milhões de refugiados, que assim como Farha foram impedidos de vivenciar a juventude, o amor, a família, a saúde e todos os direitos básico para a vida de um ser humano. O filme é uma verossimilhança com a realidade quando reflete a disparidade armamentar entre os lados em guerra, a injustiça de não ter como revidar, a negação de sua etnia, a incerteza da vida e da morte em minutos, a família se desfazendo e o último olhar de quem você ama são os olhos que pedem socorro e se esvaem em segundos.

Farha precisa ser visto. É forte, sensível e é de revirar o estômago, mas a humanidade precisa sentir através de produções artísticas a tamanha dor que desola a alma e a carne, ferimentos que além de cortar o corpo destroça um povo, a agonia de quem tem a pele colada nos ossos e as lágrimas esgotadas dos olhos de quem tanto convive com a armagurante tortura de sobreviver. É necessário ser assistido para que possam sentir a compaixão e que jamais, em um mundo que supostamente deveria existir “humanidade” continue acontecendo diariamente assassinatos contra crianças, fuzilamento de quem procura por comida ou incêndios a refugiados em abrigos e ataques a hospitais. O genocídio mata humanos e uma parte do que nos define como humanos.

Assim como Farha, todos nós assistimos ao genocídio através de uma porta. Enquanto quem tem o poder de finalizar os massacres esconde a chave e obriga o povo palestino a sucumbir em miséria e sofrimento do lado de fora.

Por uma Palestina Livre, em que a Farha que habita em cada palestino possa viver em paz e suscitar a esperança de ter de volta a alegria que lhes foi arrancada.

Jeania Cristine é graduanda do 4º período do curso de Publicidade e Propaganda da PUC
Minas.

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