Em defesa de Anora (2024) – Inimigo público número UM.

Por Bernardo Carvalho Marujo

Em 2025, tivemos uma das campanhas do Oscar mais polêmicas e comentadas de todos os tempos, pelo menos no Brasil, rendendo à Globo e à TNT, as duas emissoras nacionais transmitindo o evento, o maior Ibope em 20 anos, e as redes sociais se tornando um palco gigantesco de discussão. Se em 2024 o evento centrava quase inteiramente no prêmio de Melhor Ator e Melhor Filme, o prêmio de maior atenção para os brasileiros era o de Melhor Atriz e Filme Estrangeiro, com Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui (2024). E, enquanto a primeira vitória do Brasil (Melhor Filme Estrangeiro – Ainda Estou Aqui) foi um evento geracional, acredito que boa parte dos brasileiros guardava uma expectativa maior para o prêmio de Melhor Atriz, torcendo para que Fernanda Torres levantasse a estatueta da mesma forma que ela levantou o Globo de Ouro, por fim vingando o fatídico Oscar de 1999 que havia “roubado” o merecido prêmio de sua mãe.

E, na hora de anunciar o vencedor, uma menina de 25 anos, que boa parte do Brasil nunca tinha visto na vida, subiu ao palco.

Anora, apesar de já ter ganhado uma Palma de Ouro em Cannes, tinha uma campanha relativamente discreta em termos de Oscar. O filme está longe de ser uma mega produção, não foi tão apelativo comercialmente e, no caso do Brasil, foi lançado somente um mês e meio antes da premiação, não dando exatamente muito tempo para o público conhecer o projeto.

Não foi feito com o público brasileiro em mente; é uma ficção original, de um diretor indie cuja principal temática é o trabalho sexual e a prostituição.

Mickey Madison, em si, não era uma atriz de muito renome. Fãs de terror provavelmente a conhecem por Pânico 6, e fãs de Tarantino talvez lembrem dela em Era Uma Vez em Hollywood. Antes de Anora ela não tinha recebido nenhum grande prêmio ou papel de protagonista. Em resumo, não era uma atriz de muito prestígio crítico — especialmente para um prêmio tão associado a isso. Suas principais competidoras incluíam Demi Moore, com uma carreira longa em Hollywood, Sofia Gascon, como a melhor atriz de Cannes, e Fernanda Torres, com uma carreira gigantesca no cinema, um Globo de Ouro no bolso e o apoio quase fanático de toda uma nação.

Isso levou a uma onda colossal de ódio, tanto pelo filme quanto pela atriz. Basta ir a qualquer comentário mencionando o filme e a atriz para ver muito do mesmo: reclamações da quantidade de cenas de sexo, comparações com a Sessão da Tarde da Globo, gestos vagos ao não merecimento de um Oscar e aos esquecimentos de ambos. Isso sem contar os comentários misóginos e puritanos.

Nos cantos mais “educados” da internet, repete-se a mesma análise: a vitória de Mickey teria ecoado o discurso de A Substância, filme que critica como Hollywood privilegia atrizes jovens e descarta as mais velhas. Assim, a leitura predominante foi a de que a atriz mais nova, Mickey Madison, foi favorecida em detrimento da mais experiente, Demi Moore. Uma crítica regurgitada tantas vezes que se esquece de um dado essencial: em média, o Oscar tende a premiar atrizes mais velhas — a idade média das vencedoras nos últimos 25 anos é de 41 anos — priorizando legados acima de novos talentos.

No meio de toda polêmica, temos o produto real de toda essa discussão. O filme ecoa muito da filmografia de Sean Baker, tanto por se tratar de trabalhadoras sexuais quanto pelo estilo fotográfico. Seguimos Anora (Mickey Madison) em uma releitura da história da Cinderella, com um príncipe encantado substituído pelo filho de um homem poderoso russo, Zakharov (Mark Eydelshteyn). Eles se envolvem e têm um casamento às pressas, que colapsa subitamente.

Acredito que o ponto de maior genialidade de Anora vem de sua estrutura. No primeiro ato, temos a ideia de Cinderella sendo replicada: a menina pobre é salva pelo homem poderoso, vivendo a vida de realeza e o sonho de tantas mulheres que trabalham nessa área. No segundo ato, ocorre um furacão: o filme muda de gênero, de romance para comédia de erros, e o protagonismo se volta mais para os russos tentando encontrar Zakharov, enquanto Anora vê tudo que ela acreditava ter recebido desmoronar. É a realidade quebrando o sonho, mas de forma profundamente idiota e cômica. No terceiro ato, temos o que sobrou: Anora retoma o protagonismo, viramos para um drama, e a máscara da protagonista cai completamente.

Ela é um personagem fascinante — e magistralmente interpretada — especialmente quando comparada à Cinderella. A princesa da Disney sofre quieta, canta escondido por algo melhor, até que lhe é concedida a vida que ela verdadeiramente merece. Anora é extremamente imperfeita, ao ponto de gerar antipatia: gananciosa, irritante, egoísta e barulhenta. Ela sente que está recebendo uma vida melhor que merece, mas a verdade é que está sendo comprada por um corpo bonito e uma juventude fugaz. Anora não tem relações humanas reais; mesmo quando alguém como Igor (Yuga Borisov) demonstra gostar e se importar por ela, restam apenas dois instintos: afastar e ofender, ou empurrar. E, em um dos finais mais perfeitos do cinema contemporâneo, vemos Anora em seu ponto mais vulnerável, antes ela estava triste, desabalada, mas não víamos a humanidade ali escondida, Igor lhe entrega um presente e ela o oferece de volta a única coisa que realmente possui: o corpo.

Isso me confunde, pois a ideia de que o filme glorifica trabalho sexual e prostituição contrasta com uma das críticas mais pertinentes aos efeitos psicológicos desse ramo já vistas. Anora é incapaz de amar de verdade, de ver sexo como algo romântico, de enxergar valor em si mesma além do corpo. Ela é desumanizada pelo trabalho, e ainda assim é a única coisa que sabe fazer. Uma mensagem que corta muito mais fundo que muito do puritanismo presente nas discussões sobre o filme.

Existem muitas críticas válidas ao Oscar: desde o fato de os votantes não serem obrigados a assistir a todos os filmes (regra estabelecida apenas em 2025), até a tendência de favorecer o cinema americano e os lobbies já consolidados em Hollywood, passando pela falta de diversidade e pela preferência por determinados gêneros. Mas grande parte do ódio
direcionado ao Oscar de 2025 e a Anora pode ser entendida também como algo cultural, quase como quando uma seleção de futebol perde ou uma escola de samba não é declarada campeã. Esse patriotismo acaba por vezes embaçando o pensamento crítico e gerando opiniões enviesadas sobre a obra — o que, no fim, presta um desserviço a um filme de tanta beleza e maestria quanto Anora.

Não argumento que o filme fosse o vencedor absoluto, mas acredito que merecia, sim, estar entre os escolhidos. Relegá-lo a rótulos como “pornográfico” ou “sessão da tarde” apenas evidencia que muitas dessas críticas são mais efeito de onda do que fruto de uma análise profunda. Tivemos uma vitória gigantesca para o Brasil nos Oscars, e o ódio jogado sobre o filme e sobre sua atriz apenas serve para nos apequenar.

Fontes

https://cinebuzz.com.br/noticias/cinema/anora-vencedor-da-palma-de-ouro-em-cannes-tem-estreia-adiada-para-2025.phtml Acesso em: 15 set. 2025.

https://www.tupi.fm/entretenimento/apos-ganhar-como-melhor-atriz-no-oscar-mikey-madison-recebe-hate-nas-redes Acesso em: 15 set. 2025.

https://veja.abril.com.br/coluna/em-cartaz/a-ironia-da-vitoria-de-mikey-madison-contra-demi-moore-e-fernanda Acesso em: 15 set. 2025.

https://en.wikipedia.org/wiki/Academy_Award_for_Best_Actress Acesso em: 15 set. 2025.

https://www.theguardian.com/film/2025/apr/22/were-they-just-voting-on-vibes-oscars-new-compulsory-viewing-rulesparks-backlash

Fonte fílmicas
https://www.primevideo.com/dp/amzn1.dv.gti.c3fe4c70-a2f4-4f32-8306-3613baeac4a7autoplay=0&ref_=atv_cf_strg_wb

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