Crítica: Thunderbolts*(2025) — Um filme bom não é o suficiente para reviver o hype

Por: Bernardo Carvalho Marujo

É estranho pensar no quão dominante foi o Universo Cinematográfico da Marvel entre 2012 e 2019. Das dez maiores bilheterias da década de 2010, metade pertenceu ao estúdio. Em 2018 e 2019, liderou os rankings com os filmes mais lucrativos de seus respectivos anos, levando multidões aos cinemas mesmo em plena ascensão do streaming. O UCM estava no topo do mundo, e seu sucesso inspirou outros grandes estúdios a copiar seu estilo, humor e estrutura — tudo para capturar parte daquele público massivo. Mas o problema de estar no topo é que o único caminho restante é a queda.

Ao entrar na década de 2020, o cinema passou por transformações radicais, aceleradas pela pandemia. Embora ainda seja difícil apontar os verdadeiros vencedores desse novo cenário, os perdedores estão bem definidos. Os filmes e séries da Marvel têm enfrentado resultados decepcionantes, tanto em bilheteria quanto em crítica. Apesar de sucessos pontuais, como Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021), Deadpool e Wolverine (2024) e Guardiões da Galáxia Vol. 3 (2022), a maior parte dos projetos focados em personagens novos ou menos conhecidos fracassou — inclusive algumas continuações de grandes franquias, que não conseguiram atrair o público como antes.

Esse contexto coloca a Marvel em um dilema: o público não se interessa mais por personagens originais, mas os clássicos já estão mortos ou aposentados. Sem alternativas, o estúdio recorre a uma fórmula que já domina — o filme de equipe.

Thunderbolts aposta em personagens secundários das segundas e terceiras fases do universo. Com exceção do Bucky (Sebastian Stan), todos os integrantes da equipe são figuras relativamente desconhecidas para o grande público. O filme tenta transformá-los em novos heróis de peso, colocando-os como salvadores de Nova York e sucessores espirituais dos Vingadores.

Duas características da equipe chamam atenção logo de início. Primeiro, quase nenhum deles possui grandes superpoderes. A maioria são, no máximo, super soldados — o que chama a atenção, considerando que a equipe anterior tinha um deus no elenco. Segundo, o filme investe mais na construção humana desses personagens. Em apenas um filme, Yelena (Florence Pugh) se mostra muito mais intrigante do que a Viúva Negra (Scarlett Johansson) conseguiu ser em mais de uma década de aparições. Isso porque, aqui, ela é colocada em um contexto mais próximo da realidade: tem dilemas, dificuldades, contradições e, assim como os outros Thunderbolts, recebe traços que a tornam mais compreensível e relacionável.

Nota-se também um afastamento da fórmula desgastada dos últimos vinte anos. Não há um vilão megalomaníaco tentando destruir o planeta, nem uma dependência extrema de fanservice. A luta final não é uma avalanche de CGI, e as piadas não sabotam os momentos dramáticos. Ainda assim, o que há de melhor no “estilo Marvel” permanece: personagens carismáticos, atores competentes, um roteiro simples, porém funcional, temas consistentes e, acima de tudo, coração — algo que parecia ter se perdido nos últimos anos da era dos super-heróis.

Não estou dizendo que Thunderbolts é um filme profundo ou isento de falhas. Algumas piadas soam forçadas, certos personagens são subaproveitados, a cinematografia continua genérica e, talvez o mais frustrante, o filme carrega aquele cinismo corporativo de que tudo é apenas uma preparação para o próximo grande evento. Ainda assim, é um dos melhores filmes da Marvel em muito tempo — talvez o melhor desde o fim da “Saga do Infinito”.

Mas, mesmo com boas críticas e o retorno de parte da confiança criativa, Thunderbolts decepcionou nas bilheteiras. Um golpe duro para um projeto pensado justamente para inaugurar uma nova fase do UCM. A verdade é que o hype morreu, e isso não foi culpa deste filme, mas da mediocridade dos que vieram antes. O público não consome mais tudo o que sai do estúdio. Em uma era em que o streaming permite assistir a qualquer lançamento poucos dias após sua estreia, só sobrevivem nos cinemas os filmes que apelam para uma experiência realmente imperdível — seja pelo uso e abuso da nostalgia, por um espetáculo gigantesco ou pelo que mais deu certo para a Marvel até agora: o bom e velho fanservice.

Saí do cinema com uma nova esperança. Perdi essa esperança ao ver os números de bilheteria. Sei que a mensagem extraída disso será a pior possível: que só os filmes que se comportam como produto, e não como obra, ainda têm espaço. Que um filme mais humano não pode ser lucrativo. Se nem a Marvel consegue mais garantir um lugar digno no mercado com um bom filme, como esperar que projetos menores consigam tirar as pessoas de casa? E, mais importante, o que vem a seguir para o cinema mundial?

Por ora, fico satisfeito com um filme pipoca acima da média, que parece prometer o retorno de uma consistência que a Marvel um dia já teve.

★★★½

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