Andor: Uma História Star Wars – Um manifesto

 

Por Felipe Stenner.

“A liberdade é uma ideia pura”, já a necessidade desesperada de governos opressivos e ditatoriais por poder e controle é antinatural, por isso rui, falha com insurgências aqui e ali até se quebrar completamente. Esse pequeno trecho representado pelos registros do personagem rebelde Nemik, da surpreendente série Andor, idealizada por Tony Gilroy e protagonizada por Diego Luna (Cassian Andor), é apenas um excerto do próprio manifesto – não só de fãs de Star Wars, porém de todos que têm suas próprias rebeliões – que são os 24 episódios dessa produção da Disney+.

É poético, como diria o próprio criador da franquia, George Lucas, pensarmos que temos justamente dois atores de origem latina, Luna e Adria Arjona (Bix Caleen), em papéis centrais da trama, visto que sabemos bem como a América Latina como um todo sempre sofreu nos rescaldos do imperialismo velado e ditaduras abertas. Portanto, por mais que seja uma ficção numa galáxia muito, muito distante, os temas de Andor não são menos reais e próximos da gente. Pois, assim como Diego e Adria constantemente declararam em entrevistas, Andor é sobre pessoas normais, seus dilemas e dificuldades, que só por acaso ocorre em outra galáxia. Por isso a série é um achado, mesmo para aqueles que nunca gostaram ou se interessaram por Star Wars. Diferentemente de outras produções, não há nada que seja mais que meros easter eggs sobre jedi ou poderes mágicos, há somente o escopo cru de pessoas comuns nessa realidade.

Entretanto, para os aficionados pela franquia, a série é igualmente agregadora, já que pavimenta de forma sublime uma estrada da tomada de poder pelo golpe do Imperador Palpatine em A Vingança dos Sith até a primeira grande vitória de espiões rebeldes contra o Império retratada em Rogue One, o filme aclamado de Gilroy em que essa série desemboca diretamente e que, por sua vez, encerra-se no ponto em que Uma Nova Esperança – o primeiro Star Wars feito – inicia. Além disso, pela forte característica de história transmídia que acompanha o universo expandido Star Wars desde 1977, Andor possui, em especial na segunda temporada, conexões claríssimas com a ótima série animada Star Wars Rebels, cronologicamente situada no mesmo período.

A revolução, a própria ideia transmitida disso, envolve sacrifícios, o que o roteiro entende magistralmente bem. Não dá para se manter um ideal da magnitude exigida com heróis superficiais ou até mesmo totalmente íntegros, ao menos não de princípio. É necessário que pessoas e atitudes moralmente questionáveis, que nunca verão aplausos ou a luz da gratidão, existam primeiro para sedimentar o palco em que ícones, esses sim admirados, como Luke, Leia e Han Solo posarão. Mas, no momento que você decide acender a faísca de uma revolução, esteja ciente que, por vezes, será caçado, não amado, nunca chegará a ver os frutos do seu sonho você mesmo e ainda assinou sua própria sentença de morte, contudo saiba que mesmo se não for o escolhido, o herói que, no caso, acertará o tiro que explodirá a Estrela da Morte, você certamente será o mensageiro, sem o qual nada seria possível. Aqui, é exatamente o que são os personagens da série, Luthen Rael (Stellan Skarsgård) o próprio Cassian Andor (Diego Luna), a magnífica Kleya Marki (Elizabeth Dulau) e até o extremista Saw Guerrera (Forest Whitaker).

Essa luta acontece em todos os níveis, em todas as classes, mesmo as mais altas, cada uma com suas particularidades e regras, porém todas essenciais e árduas ao seu modo. Na situação da série, acompanhamos a senadora Mon Mothma (Genevieve O´Reilly), futuro rosto da Aliança Rebelde juntamente com Leia, mas que por enquanto se limita a financiar secretamente movimentos de insurgência contra o Império pela galáxia. Ela é capaz de sacrificar a família e amigos de infância, tudo para fazer barulho, porque, como ela diz, é quando nos calamos, quando a verdade é silenciada, que a democracia morre e monstros gritam mais alto. Ao mesmo tempo, Mothma se choca ao ver um assassinato – a maneira como os outros níveis atuam pela revolução – na sua frente, e só assim ela compreende a totalidade de sua luta. Como Cassian ironiza: “bem- vinda à Rebelião”. É nesse contexto que se deveria entender as ações de guerrilheiros, de pegarem em armas durante o regime militar no Brasil e outros países latino-americanos:
estávamos em guerra.

Ainda se tratando de contextos históricos reais, no pesado arco de Ghorman, na segunda temporada, os paralelos com a França ocupada pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, tanto em arquitetura dos cenários, no povo e na linguagem Ghor baseada no francês e criada exclusivamente para esse arco da série, são mais que evidentes e trabalhados em uma riqueza dedetalhes (desde o figurino até o hino de Ghorman) e uma profundidade emocional estarrecedoras. O Império e personagens Imperiais abordados em Andor não são dicotômicos ou unidimensionais na sua maioria, mas são explorados de tal forma a mostrar todas as facetas e mecanismos que o fascismo, ou melhor, o imperialismo pode assumir e suas consequências. Merecem ser mencionados Dedra Meero (Denise Gough), Syril Karn (Kyle Soller), diretor
Krennic (Ben Mendelsohn) e Major Partagaz (Anton Lesser).

Todo o elenco dessa grandiosa e cara produção é dotado de performances assombrosas de talentos dignos de Emmy ou premiações do tipo, e superlativo algum é exagero para se elogiar os atores e atrizes aqui, tanto os velhos nomes quanto os novos. Sobre o protagonista, eu conceituaria Cassian Andor como uma espécie de Forrest Gump espacial. Ele é guiado pelo destino de um grande evento para outro pela galáxia, desde um arriscado heist a um cofre Imperial, uma trama de fuga de prisão ao estilo THX 1138 (filme inclusive de George Lucas) até um massacre de um planeta inteiro. Além disso, ele se porta como um “herói” relutante ainda por entender seu propósito e o propósito/necessidade da Rebelião.

Apesar de sua qualidade e aclamação pela crítica, a série, durante seu lançamento, não alcançou recordes de audiência, e isso pode ser devido à baixa divulgação do show ou ao descrédito que a franquia espacial de Lucas vêm sofrendo com os fãs nos últimos anos. Todavia, sua importância e impacto são reforçados hoje em dia mais do que nunca com a ascensão, sobretudo aqui no Brasil, de memórias que remontam ao período da ditadura militar, promovida pelo imperialismo norte-americano durante a Guerra Fria, como é o caso do premiado filme nacional Ainda Estou Aqui, as discussões ressurgentes sobre anistia e o protesto de ocupação do antigo Dops em Belo Horizonte.

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